O longa A Cronologia da Água estreou nos cinemas brasileiros. Baseado no livro de memórias de Lidia Yuknavitch, o filme, que marca a estreia de Kristen Stewart na direção, chegou ao mundo no Festival de Cannes 2025 e integrou a programação do Panorama Mundial do Festival do Rio 2025, marcando sua primeira exibição no Brasil.

A trama acompanha diferentes momentos da vida da protagonista. Podemos ver a infância marcada por violência e silêncios familiares até chegar à vida adulta atravessada por vícios, perdas e uma relação conflituosa com o próprio corpo.

Como em um diário…

Logo nos primeiros segundos, dá para perceber que não é um filme que a gente vê e em breve vai esquecer. A história de Lidia começa com a infância conturbada. Tendo uma mãe negligente e um pai que abusa sexualmente dela, a garota acaba sozinha quando a irmã mais velha vai embora de casa.

Durante a adolescência, a protagonista continua vivendo sob o mesmo teto que seu abusador e tem que lidar com as regras dele. Lidia só consegue sair daquele núcleo desastroso quando entra na faculdade. Na cena em que o pai lê as cartas de aceitação, é possível perceber o quanto ela quer ir embora daquele lugar.

Quando chega à faculdade, a jovem se liberta das amarras da família e começa a viver de verdade. Entre casos com colegas, drogas e a natação, ela acaba se perdendo (ou talvez se descobrindo). É naquela época que acontece seu primeiro casamento e sua primeira grande perda: a filha que nasce sem vida.

Após um período de luto, acaba sendo na escrita que ela encontra novamente um propósito na vida. Podemos acompanhar o crescimento dela como artista e mulher, passando por diferentes fases da vida. E, em cada uma dessas etapas, devemos dar parabéns à atriz Imogen Poots, que se entrega de corpo e alma à personagem. Em todas as cenas, dá para compreender o que Lidia sente apenas pelo olhar ou pela fisionomia.

A história muitas vezes é contada pela própria protagonista, sem um diálogo. Isso faz com que fique parecendo que estamos dentro da cabeça dela. Ou, por que não dizer, dentro do diário sobre a sua vida.

Cena do filme "A Cronologia da Água".
Thora Birch e Imogen Poots em cena do filme “A Cronologia da Água”. Crédito: Divulgação/ Filmes do Estação

A forma de contar história

O diferencial desse filme é a maneira como Kristen Stewart decidiu contar a história. Em sua primeira produção como diretora, a atriz escolheu fugir da fórmula que seria mais segura e arriscou em algo totalmente radical.

As cenas se sobrepõem, as imagens fazem paralelos com momentos diferentes, os cortes não são sutis – e fazem todo sentido -, e existe uma necessidade gritante de mostrar os detalhes. E, talvez, seja nisso que ela acerte. Afinal, em nenhum momento o telespectador vê nitidamente os abusos. Há detalhes, sons e diálogos que deixam explícito o que acontece, mas não há o ato em si diante das câmeras.

As cenas, na sua grande maioria, são em primeiro plano ou em detalhes. O roteiro não é de fácil compreensão; precisa estar atento a cada instante para não perder o contexto da história. A trilha sonora ajuda o telespectador a se envolver com o drama, entendendo as dores e motivações da protagonista.

Poderia ser só mais um filme biográfico, mais uma adaptação de um livro. No entanto, Stewart e os atores em cena conseguem trazer uma camada mais densa para a história.

Cena do filme "A Cronologia da Água".
Cena do filme “A Cronologia da Água”. Crédito: Divulgação/ Filmes do Estação

Vale a pena assistir “A Cronologia da Água”?

Sim! Mas primeiro, saiba que podem haver gatilhos. Só assista se você estiver seguro de que isso não vai te afetar.

O filme provoca o telespectador e mexe com a mente, mas é o equilíbrio perfeito. Pode ser um pouco estranho no início; afinal, Stewart foge da fórmula hollywoodiana na hora de contar a história. Porém, talvez seja isso que faça com que o público embarque de cabeça na vida de Lidia.

É um longa provocante e que fica difícil de digerir em certos momentos, principalmente as cenas sobre os abusos que ela sofria do pai. Só que também talvez seja exatamente o que a sociedade precisa para entender algumas questões sociais.

“A Cronologia da Água” já está disponível nos cinemas brasileiros.

Ficha Técnica

A Cronologia da Água
EUA, França, Letônia, 2025, 128 min.
Direção: Kristen Stewart
Roteiro: Kristen Stewart
Elenco Principal: Imogen Poots, Thora Birch, Jim Belushi, Tom Sturridge e Kim Gordon
Produção: Scott Free, CG Cinéma, Forma Pro Films, Nevermind Pictures
Direção de Fotografia: Corey C. Waters
Montagem: Olivia Neergaard-Holm
Classificação: 18 anos
Distribuição brasileira: Filmes do Estação

Imagem de capa: Divulgação/ Filmes do Estação