Docudrama de Kaouther Ben Hania recria a última ligação de Hind Rajab, criança morta em Gaza. Fora das telas, a equipe do filme ajudou a família da menina a escapar da guerra

Poucos filmes recentes aproximam tanto cinema e realidade quanto “A Voz de Hind Rajab“. O longa dirigido por Kaouther Ben Hania parte de uma história real ocorrida em janeiro de 2024, durante a guerra em Gaza. A narrativa acompanha a última ligação de Hind Rajab, menina palestina de cinco anos que pediu ajuda por telefone enquanto estava presa em um carro sob fogo cruzado. A gravação real da criança se tornou o elemento central do filme.

Ao mesmo tempo, a história por trás da produção revela um paralelo inesperado. Enquanto o longa era produzido, a família de Hind ainda vivia em Gaza e enfrentava dificuldades para deixar o território. Com o avanço da guerra, integrantes da equipe do filme acabaram envolvidos na operação que permitiu a fuga dos parentes da menina.

Assim, a obra indicada ao Oscar não apenas retrata uma tragédia. Ela também se conecta diretamente com os acontecimentos reais que marcaram a vida da família da criança.

Família de Hind Rajab
Amed Khan (esq.) com a família Hamada após chegar na Grécia | Variety/Reprodução

A realidade fora da tela

Enquanto a história de Hind era transformada em filme, em 2025, sua família ainda enfrentava a realidade da guerra em Gaza. A mãe da menina, Wissam Hamada, vivia com parentes em meio à escassez de alimentos e às dificuldades de comunicação. Em determinado momento, ela chegou a pedir ajuda à equipe do filme para conseguir comida.

Foi nesse contexto que o produtor executivo Amed Khan passou a acompanhar de perto a situação da família. Khan é ativista humanitário e atua em operações de ajuda em zonas de conflito. Inicialmente, sua equipe conseguiu enviar alimentos para a família dentro de Gaza. No entanto, com o agravamento da guerra, a prioridade passou a ser retirar todos do território.

A partir daí, começou uma operação complexa envolvendo contatos diplomáticos, negociações internacionais e autorizações militares.

Uma operação marcada por obstáculos

O plano para retirar a família de Gaza enfrentou diversos desafios, assim como a operação para salvar Hind Rajab. A evacuação dependia de aprovações de diferentes autoridades e de uma logística delicada. Em determinado momento, parentes de Hind precisaram deixar a casa às pressas após relatos de bombardeios na região. Eles se deslocaram até a cidade de Deir al Balah enquanto aguardavam novas instruções.

Mesmo depois de obter autorização para sair do território, a operação continuou complicada. Voos comerciais não eram considerados seguros para esse tipo de evacuação. Assim, foi necessário organizar um avião particular com autorização especial. Após tentativas frustradas, a terceira operação finalmente conseguiu aprovação.

Em setembro de 2025, a família embarcou e conseguiu deixar a região. O destino foi Grécia, onde receberam asilo com apoio de organizações humanitárias.

Crítica - "A Voz de Hind Rajab"
Foto real de Hind Rajab | Crédito: Reprodução/IMDB

Oscar sem parte do elenco

A indicação de “A Voz de Hind Rajab” ao Oscar ampliou a visibilidade da história. No entanto, parte das pessoas ligadas ao filme não poderá comparecer à cerimônia. O ator Motaz Malhees anunciou que não poderá viajar aos Estados Unidos. Ele afirma que a restrição ocorre devido à proibição de entrada para portadores de passaporte palestino imposta pelo ex-presidente Donald Trump. A medida também impede a presença da mãe de Hind na premiação.

Nas redes sociais, Malhees afirmou que lamenta a ausência, mas destacou que a história da menina continua sendo ouvida. Segundo ele, “é possível bloquear um passaporte, mas não uma voz”.

Um filme construído a partir de uma ligação real

Em “A Voz de Hind Rajab”, a diretora opta por uma abordagem incomum. Em vez de reconstruir visualmente o ataque que matou a menina, o filme coloca no centro da narrativa a gravação original de sua ligação para os serviços de emergência. A voz de Hind aparece frágil e assustada. Durante a chamada, ela pede socorro e pergunta quando a ajuda chegará.

Enquanto isso, a narrativa acompanha o trabalho do centro de atendimento da Sociedade do Crescente Vermelho Palestino. Operadores tentam localizar a criança e coordenar o envio de ambulâncias. No entanto, a situação se torna cada vez mais complexa. Autorizações militares, protocolos de segurança e a própria dinâmica do conflito dificultam o resgate.

Dessa forma, o filme constrói uma tensão constante. O público acompanha uma corrida contra o tempo cujo desfecho já é conhecido.

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Personagens que refletem a urgência do resgate

Para sustentar essa narrativa, o filme apresenta personagens inspirados nos profissionais que participaram do atendimento. A atriz Saja Kilana interpreta Rana, operadora que conversa com a menina ao telefone. Sua atuação transmite calma e empatia, mesmo diante da gravidade da situação.

Motaz Malhees interpreta Omar, operador que expressa indignação com a lentidão do processo de resgate. O personagem questiona protocolos e insiste em tentar salvar a criança. Outro papel importante é o de Mahdi, interpretado por Amer Hlehel. Como chefe do centro, ele precisa equilibrar a urgência da situação com a segurança das equipes de socorro.

Ao mesmo tempo, a personagem Nasreen, vivida por Clara Khoury, atua como mediadora e tenta manter o funcionamento do atendimento em meio ao caos. Assim, o filme revela o esforço de profissionais que tentam salvar vidas dentro de um cenário marcado por limitações e riscos constantes.

Cena do filme "The Voice of Hind Rajab"
Cena do filme | Crédito: Reprodução/IMDB

Uma história que ultrapassa o cinema

A Voz de Hind Rajab” se tornou um dos filmes mais discutidos da temporada. Isso ocorre não apenas por sua linguagem cinematográfica, mas também pela conexão direta com acontecimentos reais. Ao contar a história da última ligação de Hind, o longa registra um episódio marcante da guerra em Gaza.

Ao mesmo tempo, a própria produção acabou participando de um capítulo posterior dessa história: a fuga da família da menina para fora do território. Assim, o filme estabelece um paralelo raro entre arte e realidade. A narrativa exibida na tela reflete acontecimentos que continuaram a se desenrolar longe das câmeras, e que ainda ecoam no debate internacional sobre o conflito.

Imagem de capa: Ettore Ferrari/EPA