Construído nos anos 1920, o Edifício Martinelli reúne relatos de mortes, ossadas encontradas e aparições que ainda circulam no centro histórico da cidade

Com mais de 100 metros de altura, o Edifício Martinelli domina a paisagem do centro de São Paulo desde a década de 1920. A construção começou em 1924 e marcou o início da verticalização da cidade. No entanto, o prédio também passou a concentrar relatos de crimes, mistérios e supostas aparições.

Localizado próximo ao Vale do Anhangabaú, o edifício surgiu em um período em que a maioria das construções não passava de cinco andares. O empresário italiano Giuseppe Martinelli (1870-1946) idealizou o projeto e insistiu em construir um prédio que ultrapassasse 100 metros de altura. A obra mobilizou mais de 600 operários e gerou polêmica com a prefeitura ainda durante a construção.

Do símbolo da elite ao cenário de abandono

Quando inauguraram o Edifício Martinelli em 1929, parte da elite paulistana passou a frequentar o prédio. O prédio abrigou hotel, cinema e espaços de lazer. Porém, o cenário mudou poucos anos depois.

Edifício Martinelli
O Edifício Martinelli ficou abandonado por anos | Crédito: Divulgação/Edifício Martinelli

Com a crise econômica internacional provocada pela Quebra da Bolsa de Nova York em 1929, o proprietário perdeu a fortuna. O prédio acabou sendo vendido e, durante a Segunda Guerra Mundial, o governo brasileiro confiscou o edifício.

A partir da década de 1950, o edifício ficou praticamente abandonado. Com o tempo, moradores passaram a ocupar o Edifício Martinelli de forma irregular. Em alguns períodos, chegou a abrigar milhares de pessoas vivendo em condições precárias. Nesse momento, começaram a surgir as histórias mais sombrias ligadas ao prédio.

Crimes, ossadas e relatos que alimentam o medo

As mortes associadas ao Edifício Martinelli fortaleceram as lendas urbanas sobre o prédio. Além disso, um dos casos mais citados é o do adolescente Davilson Gelisek, encontrado morto em 1947 após uma queda de grande altura. Anos depois, autoridades registraram outras mortes no edifício e, ao mesmo tempo, não esclareceram nenhum dos casos.

Quando a prefeitura decidiu retomar o edifício, em meados dos anos 1970, a situação mudou novamente. Nesse período, funcionários encontraram entulho acumulado e ossadas humanas no fosso do elevador. Por isso, o episódio reforçou a ideia de que o prédio escondia episódios violentos que nunca foram totalmente explicados.

Com o passar dos anos, os relatos continuaram. Aos poucos, histórias de fenômenos considerados sobrenaturais começaram a circular entre trabalhadores e visitantes. Há relatos sobre elevadores que funcionam sozinhos, além de barulhos em andares vazios. Também circula a história de uma figura conhecida apenas como “a loira”, que funcionários dizem ver em corredores isolados.

Edifício Martinelli
Edifício Martinelli hoje em dia | Crédito: Wikimedia Commons

Um passado que ainda influencia o presente

A reputação do Edifício Martinelli também está ligada à própria história do Vale do Anhangabaú. Antes da urbanização, por exemplo, povos tupi-guarani ocupavam a região. Além disso, segundo pesquisadores, o local já era associado a narrativas espirituais muito antes da construção do prédio.

Depois disso, durante o processo de colonização, missionários tentaram adaptar personagens da mitologia indígena à religião cristã. Entre essas figuras estava Anhangá, um espírito que teria o poder de provocar ilusões. Com o tempo, porém, o personagem passou a ser interpretado como uma presença negativa. Por isso, essa mudança acabou reforçando as lendas ligadas ao centro histórico da cidade.

Hoje, mesmo restaurado e aberto à visitação, o prédio ainda carrega essa reputação. Funcionários e visitantes continuam relatando sensações de medo, principalmente nos andares mais altos e no terraço. Ao mesmo tempo, parte dessas histórias é contestada por quem trabalha no local há anos.

Apesar das versões diferentes, o fato é que o Edifício Martinelli se transformou em um dos prédios mais associados a histórias de terror em São Paulo. O edifício que nasceu como símbolo de modernidade acabou marcado por décadas de abandono, crimes não resolvidos e relatos que continuam sendo repetidos até hoje.

Imagem de capa: iStockphoto