Quase três décadas após transformar Varginha em um dos epicentros da ufologia mundial, o chamado Caso ET de Varginha segue vivo no imaginário popular.
Além de ser apresentada não apenas como uma história sobre extraterrestres, o caso se consolida como um retrato complexo de memória coletiva, crença, mídia, trauma e disputas narrativas.
Nesse sentido, a série documental “O Mistério de Varginha”, disponível completa no Globoplay, revisita o episódio com novos depoimentos, arquivos inéditos e uma abordagem mais crítica e investigativa. Como resultado, a produção não entrega respostas definitivas, mas explica, por outro lado, porque o caso permanece tão controverso.

Um fenômeno que nunca foi apenas sobre ETs
Desde janeiro de 1996, versões conflitantes se acumulam. Testemunhas mantêm relatos. Outras recuam. Militares mudam de discurso. Autoridades negam. Ufólogos se dividem. O que parecia um evento isolado se transformou em um quebra-cabeça social e midiático.
A série deixa claro que o Caso Varginha ultrapassou o campo da ufologia. Ele passou a representar:
- o impacto da mídia sobre narrativas frágeis;
- o poder da repetição na construção de “verdades”;
- o sofrimento real de pessoas comuns expostas ao escrutínio público;
- e a dificuldade de separar memória, crença e fato.
As “meninas do ET” e a persistência do testemunho
Nesse contexto, Kátia Xavier, Liliane Silva e Valquíria Silva — conhecidas nacionalmente como as “meninas do ET” — mantêm, até hoje, a versão original do que afirmam ter visto. A partir disso, a série acompanha essas mulheres já adultas, revelando as consequências emocionais e sociais de carregar esse episódio por toda a vida.
Contudo, independentemente da interpretação do espectador, o documentário humaniza essas figuras, afastando, finalmente, o tom de deboche que marcou parte da cobertura nos anos 1990.

Militares, médicos e versões que se contradizem
Outro eixo central da produção é o contraste entre depoimentos antigos e atuais de militares e profissionais de saúde. Alguns reafirmam relatos feitos no passado. Outros admitem invenção, indução ou interesse financeiro.
Essas contradições não encerram o caso — pelo contrário. Elas reforçam a sensação de que o mistério de Varginha é, sobretudo, um labirinto de narrativas mal resolvidas.
Quando o principal ufólogo deixa de acreditar
Acima de tudo, talvez um dos pontos mais simbólicos da série seja a mudança de postura de Ubirajara Rodrigues, um dos principais responsáveis por popularizar o caso. Isso porque, hoje, ele afirma não acreditar mais na existência do ET de Varginha e reconhece, inclusive, erros metodológicos na condução da investigação.
Esse momento sintetiza o espírito da série: não destruir mitos, mas expor suas fragilidades.

Jornalismo, memória e responsabilidade
Produzida pela EPTV em coprodução com a TV Globo, a série também faz uma autocrítica da cobertura jornalística da época. Ao revisitar seus próprios arquivos, a emissora reconhece o papel da mídia na amplificação do caso.
Mais do que recontar a história, “O Mistério de Varginha” propõe uma reflexão incômoda: até que ponto precisamos de provas concretas para acreditar em algo, e até onde estamos dispostos a acreditar porque queremos?
Um mistério que diz mais sobre nós do que sobre o desconhecido
Ao final dos três episódios, a série não tenta convencer o espectador de que um extraterrestre esteve em Varginha, da mesma forma que tampouco afirma categoricamente que tudo foi uma farsa. Em vez disso, o que ela faz é mais interessante: mostra como um evento mal explicado pode atravessar gerações, moldar identidades locais e se tornar, por fim, parte permanente da cultura pop brasileira.
Onde assistir
A série “O Mistério de Varginha” está disponível completa no Globoplay, com 3 episódios.
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Imagem da capa credito: Reprodução Tv Globo/Globoplay