O cinema iraniano tem mais de um século de história, marcado por conquistas importantes e mudanças significativas. Conhecido por seu olhar sensível e pelo forte engajamento político e social, o audiovisual do Irã conquista cada vez mais espaço no cenário internacional, rompendo fronteiras e preconceitos.
No Oscar 2026, o longa Foi Apenas um Acidente concorre na categoria de Melhor Filme Internacional. Inspirado em histórias reais, o filme do diretor Jafar Panahi apresenta a realidade do país na maior vitrine do cinema mundial. No entanto, caso a produção conquiste o prêmio, a estatueta irá oficialmente para a França, nação que apoiou o projeto. Isso ocorre porque, para driblar a censura do governo iraniano, Panahi contou com o apoio de uma rede internacional de cooperação.
A seguir, entenda como funciona a indústria cinematográfica do Irã e por que, em muitos casos — como o de “Foi Apenas um Acidente” — cineastas do país recorrem a parcerias externas para evitar a censura do regime.
Origem da produção audiovisual no Irã

Os primeiros registros audiovisuais iranianos surgiram no início do século XX. O fotógrafo Mirza Ebrahim Khan Akkas Bashi filmava visitas do então Xá, líder monárquico do país, a outras nações.
Em 1904, foram abertas as primeiras salas de cinema do Irã. Porém, foi apenas a partir da década de 1920 que os filmes passaram a ganhar maior relevância cultural no país. Governantes e líderes religiosos temiam que produções ocidentais influenciassem a população com “maus costumes”. Assim, decidiram incentivar e orientar a produção do cinema local, priorizando histórias com ensinamentos morais e valorização da identidade nacional.
Apesar disso, a tentativa de barrar a influência ocidental não foi totalmente bem-sucedida. Na década de 1950, surgiram os filmes populares conhecidos como Filmfarsi, que misturavam melodrama, música e comédia. Com forte inspiração no cinema egípcio e em produções comerciais estrangeiras, essas obras utilizavam o humor para retratar problemas da sociedade iraniana, como a desigualdade social.
Ao mesmo tempo, surgiram produções mais autorais e socialmente engajadas. Inspirados por movimentos europeus como a Nouvelle Vague e o Neorrealismo Italiano, cineastas iranianos passaram a abordar de forma mais recorrente a pobreza e as contradições do país. Um marco desse período é o filme A Vaca (1969), dirigido por Dariush Mehrjui, considerado por muitos o ponto de partida da chamada “Nova Onda” do cinema iraniano.
Aliás, esse estilo de produção alternativa também era conhecido como Cinemay-e Motofavet (“Cinema Diferente”). O movimento utilizava metáforas e narrativas sutis para contornar a censura, permitindo que os artistas expressassem críticas ao governo e dialogassem com a população.
A Revolução Iraniana de 1979 e o cinema “islamicamente correto”
Em 1979, um evento transformou profundamente os rumos do país: a Revolução Iraniana derrubou o regime monárquico e tirou o Xá do poder. Com isso, o líder religioso Ruhollah Khomeini assumiu o governo e instaurou uma teocracia.
A mudança teve impacto direto na produção cultural do país, incluindo o cinema. Durante a revolução, diversas salas foram incendiadas. Porém, em vez de extinguir a indústria cinematográfica, o novo regime decidiu controlá-la, estabelecendo regras rígidas para o conteúdo das obras.
Assim surgiu o chamado cinema “islamicamente correto”. Os filmes passaram a obedecer uma série de restrições: criminosos ou pecadores não poderiam ser retratados de forma simpática; homens e mulheres não deveriam se tocar em cena — nem mesmo casais; adultério e blasfêmia não poderiam ser mostrados; e figuras religiosas não poderiam aparecer em situações cômicas ou moralmente questionáveis.
Apesar das restrições, o sistema apresenta uma contradição. Filmes considerados inadequados para exibição dentro do país muitas vezes são autorizados a circular no exterior e até representar o Irã em festivais e premiações internacionais. Dessa forma, o regime impede o acesso da população a determinadas obras, mas se beneficia do reconhecimento cultural e econômico obtido fora de suas fronteiras.
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Filmes iranianos conquistam reconhecimento internacional

Mesmo com a censura ainda vigente, muitos cineastas encontraram maneiras de driblar as restrições impostas pelo governo.
Uma das estratégias mais comuns é recorrer a coproduções internacionais. Inclusive, um exemplo recente é “Foi Apenas um Acidente”, indicado ao Oscar neste ano. Seu diretor, Jafar Panahi, chegou a ser preso sob acusação de fazer “propaganda contra o sistema”. Durante o período em que esteve detido, ele ouviu relatos de outros prisioneiros sobre torturas e abusos.
Após recuperar a liberdade, Panahi decidiu transformar essas histórias em filme. A produção foi realizada de forma clandestina, sem o conhecimento das autoridades. As filmagens ocorreram dentro do Irã, enquanto o material bruto foi enviado à França para edição, evitando que fosse confiscado.
Caso conquiste a estatueta de Melhor Filme Internacional, “Foi Apenas um Acidente” será o terceiro longa-metragem de um diretor iraniano a vencer a categoria. O país já celebrou as vitórias de A Separação (2012) e O Apartamento (2017), ambos de Asghar Farhadi. Somando-se ao curta de animação In the Shadow of the Cypress (2025), o talento do audiovisual iraniano já contabiliza três estatuetas na história do Oscar.
Atualmente, o cinema do Irã é conhecido por sua linguagem contemplativa e pela delicadeza narrativa. Em vez de grandes cenas de ação, os cineastas apostam em sutilezas, simbolismos e metáforas para criticar a realidade política e social do país.
Assim, mesmo diante de restrições e censura, o cinema do Irã conseguiu quebrar barreiras e consolidou-se como uma das expressões mais relevantes do audiovisual mundial.
Imagem de capa: Reprodução/IMDb
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