Filme de Iván Fund, “A Mensageira” constrói atmosfera melancólica e provoca reflexões, mas ritmo arrastado dificulta o envolvimento

A Mensageira“, dirigido por Iván Fund, parte de uma proposta clara dentro do drama autoral contemporâneo: explorar silêncios, ambiguidades e zonas morais indefinidas. Estruturado como um road movie em preto e branco, o longa acompanha uma jovem com suposto dom mediúnico em uma jornada marcada por perdas, fé e sobrevivência. No entanto, ao apostar em um ritmo deliberadamente lento e em uma narrativa pouco explicativa, o filme constrói uma experiência que afasta quem assiste.

Desde o início, a obra estabelece seu tom. Há longos momentos de silêncio, as cenas se prolongam e a narrativa avança em pequenos gestos. Eventualmente, esses vazios são interrompidos por diálogos pontuais ou por uma trilha sonora que reforça o sentimento predominante: melancolia.

Essa escolha estética não é casual, pelo contrário, define a identidade do filme. Ainda assim, o excesso se torna um problema. Em vez de aprofundar a imersão, o ritmo arrastado compromete o engajamento do espectador ao longo de seus 90 minutos.

Anika Bootz
Anika Bootz no filme | Crédito: Divulgação

Ambiguidade como proposta central

O roteiro de “A Mensageira” se sustenta na dúvida. Não há respostas claras ou direcionamentos objetivos. A principal tensão está justamente na ambiguidade que envolve os personagens centrais. Os tutores da protagonista exploram seu “dom” como forma de sustento. No entanto, o filme não esclarece se há crença genuína ou oportunismo.

Essa indefinição é um dos pontos mais interessantes da obra, o espectador é constantemente provocado a interpretar o que vê. Trata-se de fé? De fraude? De sobrevivência? O filme não julga ou condena. Mas também não absolve, apenas observa.

Como resultado, a narrativa termina deixando mais perguntas do que respostas. Essa escolha dialoga com um cinema mais contemplativo e reflexivo. No entanto, exige um tipo específico de envolvimento. Nem todos os espectadores estarão dispostos a preencher essas lacunas.

Estética e atmosfera: acertos e limites

A opção pelo preto e branco pode não agradar a todos, mas cumpre uma função clara. A ausência de cor reforça o tom melancólico e cria uma atmosfera que dificilmente seria alcançada de outra forma. Há coerência estética e unidade visual.

Esse mesmo tom se estende à atuação de Anika Bootz, que conduz o filme com presença. É uma atuação contida, mas expressiva. Ao seu redor, Mara Bestelli e Marcelo Subiotto sustentam as ambiguidades do núcleo familiar com consistência.

A trilha sonora reforça essa construção. Cada inserção musical parece calculada para intensificar o sentimento de perda e introspecção. Funciona dentro da proposta. No entanto, somada ao ritmo lento e aos silêncios prolongados, contribui para uma experiência emocionalmente densa, e, em certos momentos, excessiva.

Mara Bestelli em "A Mensageira"
Mara Bestelli no filme | Crédito: Divulgação

Quando a proposta afasta

O principal desafio de “A Mensageira” está em seu equilíbrio. A insistência na melancolia e na contemplação, ao longo de toda a duração, reduz o impacto da narrativa. Em vez de criar tensão ou expectativa, o filme se mantém em um mesmo registro emocional.

Com isso, o que poderia ser instigante se torna repetitivo. A ausência de variações mais marcantes no ritmo e no tom faz com que a experiência se torne cansativa. Há uma sensação de estagnação. E isso compromete a conexão com o público. Ainda assim, é importante destacar que essa é uma escolha consciente. O filme não busca respostas fáceis, ele se posiciona como uma obra de observação.

Vale a pena assistir “A Mensageira”?

A Mensageira” é um filme que aposta na ambiguidade, na estética e na construção de atmosfera. Seus acertos estão na direção segura e na proposta de não oferecer respostas prontas. No entanto, o ritmo excessivamente lento e a repetição do tom melancólico limitam seu alcance.

Ao final, a experiência depende diretamente da disposição do espectador. Para quem aprecia um cinema contemplativo, aberto e interpretativo, o filme pode provocar reflexões relevantes. Para quem busca maior dinamismo ou envolvimento narrativo, a sensação pode ser de distanciamento.

Assim, a resposta é ponderada: vale a pena assistir A Mensageira? Como exercício estético e narrativo, sim. Mas com a ressalva de que sua proposta exige paciência e tolerância ao silêncio e à ambiguidade.

Crítica - A Mensageira

A Mensageira
Argentina, Espanha e Uruguai, 2025, 91 min.
Direção: Iván Fund
Roteiro: Iván Fund, Martín Felipe Castagnet
Elenco Principal: Anika Boot, Mara Bestelli e Marcelo Subiotto
Produção: Rita Cine, Insomnia Films
Direção de Fotografia: Gustavo Schiaffino
Trilha Sonora: Leandro de Loredo, Omar Mustafá
Classificação: 12 anos
Distribuição: Filmes do Estação

Imagem de capa: Divulgação