Dirigido por Natasha Neri e Gizele Martins, o documentário valoriza vozes locais e levanta um alerta sobre os limites da atuação militar em territórios civis
“Cheiro de Diesel” é um retrato intenso sobre militarização nas favelas do Rio de Janeiro, que combina depoimentos reais, tensão diária e resistência comunitária na luta por direitos e igualdade social.
Dirigida por Natasha Neri e Gizele Martins, o documentário acompanha experiências individuais e coletivas marcadas por violência, medo e pela constante busca por dignidade. Nesse contexto, a organização coletiva, a solidariedade e as redes de apoio se mostram fundamentais para que a comunidade enfrente as adversidades e reafirme sua existência em meio à vulnerabilidade e exclusão social.
Mais do que apresentar uma realidade dura, o longa-metragem contribui para um importante e necessário debate sobre as desigualdades, segurança pública e efeitos da militarização no Brasil.
Os impactos da presença militar nas comunidades

O documentário “Cheiro de Diesel” revisita episódios de militarização iniciados em abril de 2014, durante os megaeventos esportivos. Essas operações, amparadas pela Garantia da Lei e da Ordem (GLO), foram justificadas como medidas de segurança e de visibilidade internacional.
Nesse contexto, o longa se concentra no Complexo da Maré, evidenciando o sofrimento dos moradores diante da violência praticada pelas Forças Armadas. Em vez de proporcionar segurança para a comunidade, a presença militar se revela como um fator de medo, tensão e instabilidade no cotidiano.
O que deveria ser um período de celebração, marcado pela realização da Copa do Mundo no Brasil, tranforma-se em um cenário de terror na Zona Norte do Rio de Janeiro. Os entrevistados relatam práticas recorrentes de invasões em domicílios, sensação de vigilância permanente e abordagens agressivas. Soma-se a isso a dor da perda de familiares e de vizinhos atingidos pela violência, o que aprofunda ainda mais o peso emocional nos depoimentos.
Ao mesmo tempo, o longa vai além da denúncia ao destacar a resistência coletiva, permitindo que os moradores compartilhem suas memórias, experiências e registros como forma de afirmar suas vivências e enfrentar o silenciamento.
Assim, a obra adota uma abordagem direta e sensível, aproximando o espectador da realidade das favelas e mostrando o contraste entre o discurso de segurança e a experiência cotidiana marcada por um estado de alerta permanente.
Desigualdade, violência e democracia em risco
Ao expor os impactos das Forças Armadas nas favelas, “Cheiro de Diesel” levanta a seguinte questão: até que ponto a militarização de territórios populares é compatível com os princípios democráticos?
Desta forma, o documentário convida o espectador à reflexão sobre o papel do Estado nos espaços periféricos. A presença militar, apresentada como estratégia de segurança, revela-se como fator de tensão na relação entre a população e o poder público. Bem como a dúvida quanto à garantia dos direitos humanos.
O filme também evidencia uma desigualdade clara que vai além do Complexo da Maré, atingindo outras áreas vulneráveis. Enquanto algumas regiões da cidade vivenciam a cidadania como acesso pleno aos direitos, outras são marcadas por práticas de controle e vigilância. O resultado é uma democracia que não funciona da mesma forma para todos.
Natasha Neri e o protagonismo das vozes locais

Sem recorrer a especialistas ou dados formais, a diretora Natasha Neri prioriza os próprios moradores, proporcionando maior autenticidade e impacto emocional ao relato. A escolha reforça o caráter testemunhal e evidencia efeitos que vão além dos episódios de violência, incluindo os momentos de silêncio, as ausências e as marcas deixadas no cotidiano. No entanto, a ausência maior da contextualização pode dificultar a compreensão de espectadores menos familiarizados com o tema.
A construção narrativa valoriza as experiências, evitando uma abordagem excessivamente técnica. Para isso, a diretora combina diferentes registros audiovisuais, como entrevistas, imagens de arquivo e gravações compartilhadas pela própria população. Essa alternância entre os formatos torna a narrativa mais autêntica, mas compromete o ritmo em alguns momentos.
Por outro lado, os momentos de silêncio ganham destaque, especialmente nas cenas em que a jornalista observa e grava com seu celular os desfiles militares. Nesses trechos, a ausência de intervenções, comentários ou trilha sonora intensifica a tensão do ambiente e evidencia a presença constante da organização militar no território.
Além disso, a presença de Natasha Neri ao longo do documentário ultrapassa a postura da observadora. Suas reações diante da violência e da atuação militar demonstram sensibilidade, dor e indignação; reforçando o caráter humano e sensível da obra.
Vale a pena assistir “Cheiro de Diesel”?
Sim, “Cheiro de Diesel” se mostra um documentário necessário ao expor, de modo sensível e impactante, os efeitos da militarização no cotidiano das comunidades e os limites da democracia brasileira. A obra evidencia como a presença das Forças Armadas atravessa a vida dos moradores e levanta questões sobre direitos humanos, desigualdade e cidadania.
Nesse sentido, o filme consegue dialogar com estudantes, pesquisadores e espectadores que têm interesse por temas sociais e políticos.
“Cheiro de Diesel” estreia em 02 de abril nos cinemas do Brasil.
Cheiro de Diesel
Brasil | 2025 | Documentário | 81 min.
Diretor: Natasha Neri e Gizele Martins
Roteiro: Natasha Neri e Gizele Martins
Direção de Fotografia: Leonardo Nabuco
Música Original: Dascha Dauenhauer.
Montagem: Gabriel Medeiros
Distribuidora: Descoloniza Filmes

Imagem de capa: Descoloniza Filmes/Reprodução
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