E quando um amor inesperado chega em sua vida, e bagunça toda a ordem que você achou que teria colocado nela? E quando você, sem ao menos saber, se entrega a uma possibilidade que poderá destruir tudo o que você imagina saber sobre amor? Do diretor e roteirista Emmanuel Mouret (“A Arte de Amar” e “Romance à Francesa“), Crônica De Uma Relação Passageira nos faz perguntar “o que é amor?”.

O filme

Na trama, durante uma festa, Charlotte, uma mãe solteira, conhece Simon, um homem casado. Este novo casal concorda em se ver apenas por diversão, sem vivenciar nada além. Porém, essa relação sem futuro fica perturbada quando novos sentimentos aparecem.

A partir desse ponto, a relação entre Charlotte e Simon evolui de forma gradativa e intensa, demonstrando claramente que ambos buscam algo que ainda não sabem. O filme aborda de forma cômica e sensível a traição e a autodescoberta. Se libertando das amarras do conservadorismo, a história não questiona o certo e o errado da traição de forma explicita, mas as implicações da mesma sob os envolvidos. O que não quer dizer que não exista, muito pelo contrário, Simon se questiona a todo momento, se o que ele está fazendo está correto. Isso porque, como dito anteriormente, Charlotte não tem esse problema, ela é solteira e uma mulher com uma visão mais aberta sobre relacionamentos.

Porém, ao decorrer da história, contada em dias e semanas (o que é uma maneira bem inteligente de nos mostrar a regularidade dos encontros), vemos que ambos iniciam a nutrição de sentimentos mais fortes um com o outro. Simon, vivido por Vincent Macaigne, inicia grandes monólogos durante toda a trama. Essa maneira de expor esse personagem serve para nos dizer como ele se sente confuso e perdido em meio a seus pensamentos. Já Charlotte, vivida por Sandrine Kiberlain, demonstra todo seu interesse (e desinteresse) por pequenas frases, olhares e ações cotidianas. Essa dualidade de demonstrações é um equilíbrio interessante para o relacionamento dos dois.

Foto: Pascal Chantier Moby Dick Films

Direção acerta ao manter o ritmo do filme intenso

Um dos pontos mais interessantes do longa é sua maneira de contar a história. Seguindo uma cronologia de dias, meses e anos, Emmanuel Mouret garante que o espectador perceba como o tempo passa na vida dos dois. E principalmente, como a frequência dos encontros deles ditam a maneira como eles sentem amor um pelo outro. Claro, esse amor não começa no começo, e não termina no fim, mas é uma construção da regularidade. Esse questionamento a respeito das traições fica evidente, não é possível se abstrair do sentimento quando se convive, e esse é o maior perigo de uma relação extraconjugal. A tentativa fracassada de domar os sentimentos e os desejos fica evidente a cada novo encontro.

Outro ponto interessante do filme é a fotografia, muito característica do cinema francês. Detalhes de fundo, paisagens que às vezes não fazem parte do foco da cena, além do movimento da câmera que acompanha os atores dentro dos cenários. A coloração das cenas também é muito característica, deixando o aspecto geral lindíssimo, com cores quentes e vivas.

Vale a pena assistir?

Esse é um romance francês, ou seja, grandes diálogos e poucas mudanças bruscas. Mas é um filme leve, interessante, cômico e de certa forma reflexivo. Claro, não é um filme moralista, ele não se apega ao fato concreto ou ao factual da traição, mas se apega as possibilidades que a vida pode impor a qualquer pessoa. Porque a vida é assim, e podemos lutar sempre contra essa visão, mas a verdade é que ainda que obscura, a realidade emocional das pessoas existem. Mas é importante dizer, que o filme deixa claro sobre a livre e espontânea vontade de, ou sucumbir, ou repelir tais desejos.