Quanto tempo é necessário para contar uma história? Às vezes, o cinema responde com simplicidade brutal, não é preciso muito. Basta precisão. “Dias e Dias” entende isso desde o primeiro minuto e constrói, em apenas 20 minutos, uma narrativa completa, complexa e cheia de nuances. O média-metragem entrega reviravoltas interessantes, sustenta um elenco muito competente e, sobretudo, revoluciona a forma como é possível contar histórias com economia de tempo e excesso de sentimento.

A trama acompanha um jovem aspirante a fotógrafo, Caíque, que trabalha em um cargo que despreza, enquanto sonha com uma vida maior do que a que lhe foi oferecida. Ao seu lado está a amiga Nara, aspirante a música, que também corre atrás de um futuro improvável, mas sem perder a esperança de uma vida melhor. Ambos vivem na periferia de São Paulo, território que o filme não romantiza, mas também não reduz a estatística. Caíque mora com o pai, Seu Raimundo, dono de uma lojinha de “faz-tudo”, mas que vive em crise financeira, e carrega a responsabilidade de ajudar em casa enquanto tenta preservar o direito de sonhar. Essa tensão entre dever e desejo move o filme e o torna profundamente humano, e facilmente identificável para quem passou por algo similar.

Caíque e Seu Raimundo – Foto: Fílmica

Dias e Dias observa com lucidez a dificuldade que jovens em condições socioeconômicas desfavoráveis enfrentam para perseguir seus objetivos. A diferença social não surge como pano de fundo decorativo, ela atua como força dramática que molda destinos. O filme deixa claro que o sucesso, muitas vezes, não depende apenas de talento ou esforço, mas do ponto de partida. Ainda assim, a narrativa encontra beleza na resistência cotidiana e transforma frustração em linguagem cinematográfica. O momento mais claro dessa diferença se dá quando Caíque quer pedir demissão de empresa que trabalha e o dono diz na sua cara que ele não pode pedir demissão, porque a empresa não quer. E claro, sem ter como argumentar, caíque acaba não sendo demitido. É a realidade da humilhação que acontece todos os dias em relações trabalhistas abusivas.

A fotografia do filme impressiona bastante. Mesmo com recursos limitados, a técnica revela um cuidado estético que amplia o impacto emocional das cenas e declama uma poesia visual da “quebrada”. Cada enquadramento parece dialogar com o silêncio dos personagens ou suas duras vivências. O elenco, por sua vez, sustenta a densidade do projeto. Os atores conseguem provocar no espectador a sensação de ter assistido a um longa-metragem inteiro. Isso acontece porque a interpretação ultrapassa o texto. O que importa não está apenas no diálogo, está nas entrelinhas, nos gestos contidos, nas pausas que dizem mais do que qualquer fala.

O roteiro de Guilherme Candido e a direção de Mary Abrantes e Peri, aposta em uma metalinguagem sutil, que comenta o próprio ato de contar histórias enquanto as vive. “Dias e Dias” entende que cinema também se faz do que não é dito. Em apenas 20 minutos, o filme constrói um universo completo e lembra que tempo de duração nunca foi sinônimo de profundidade, apenas de escolha.

Dias e Dias
Brasil, 2026, 20min
Gênero: Drama,
Direção: Mary Abrantes e Peri
Roteiro:
Guilherme Candido
Elenco Principal:
Bias (como Caíque), Larissa Diaz (como Nara), Nando Bárá (como Raimundo), Elias Cardoso (como Inácio), Felipe Paraguassu (como Sérgio).
Produção:
Fílmica / Cassius Cordeiro
Direção de Fotografia: Pedro Viana
Classificação: 12+
Distribuição:
Fílmica

Foto de capa: Fílmica