Um filme sobre espera, medo e poder que transforma o espectador em prisioneiro do próprio tempo

Até que ponto uma pessoa pode ficar presa sem ter cometido nenhum crime e ninguém se importar, essa é a premissa de Dois Procuradores, novo filme de Sergei Loznitsa. A história acompanha um jovem promotor que tenta abrir uma investigação contra um centro de detenção soviético após descobrir métodos de tortura empregados contra um preso político, um antigo procurador do Partido Comunista. Embora seja uma ficção, o filme se inspira no romance homônimo de Georgy Demidov, físico que passou 14 anos em campos de concentração soviéticos, e essa origem já carrega para a narrativa um peso moral difícil de ignorar.

Acompanhamos a busca de justiça desse promotor local contra agentes da polícia secreta, a NKVD, dentro de um sistema que não protege quem tenta fazer o certo. O filme se passa em 1937, em um período anterior à Segunda Guerra Mundial, e a fotografia reforça a frieza daquele universo. Não é apenas o clima soviético que parece gelado, o comportamento das pessoas também carrega essa rigidez. A câmera registra esse mundo com uma distância quase clínica, como se tudo fosse observado por alguém que já conhece o desfecho.

Um filme que aposta na inércia


A narrativa não aposta em grandes reviravoltas. O diretor constrói o filme a partir de longos planos sequência, diálogos extensos e, em muitos momentos, ausência completa de fala. Essa escolha divide o público, porque Loznitsa decide contar a história como se estivéssemos vivendo cada minuto ao lado do protagonista. Quando o promotor precisa esperar, nós esperamos com ele. A câmera mostra cada pessoa entrando antes dele, cada silêncio, cada segundo que passa. Diferente de outras produções que cortam o tempo com transições elegantes, aqui o tempo existe em sua duração real.

Os dois procuradores aposta em fotografia fria e meticulosa.
Foto: SBS e Retrato Filmes


Essa insistência transforma a espera em angústia. O espectador experimenta o mesmo enclausuramento que define a vida dos personagens. Não é apenas o preso político que vive a tensão, o próprio promotor carrega o medo constante de se tornar a próxima vítima. Ele sabe que tudo é possível, porque o sistema não está a favor dele, o sistema está contra qualquer um que ameace sua estabilidade. E o filme é interessante justamente por não tratar isso como uma crítica simples ao Partido Comunista soviético, mas como o retrato de um grupo que usa a prisão como instrumento de perseguição interna contra possíveis figuras de poder.
Alguns diálogos são fortes, outros parecem deliberadamente burocráticos, e essa oscilação reforça a monotonia opressiva daquele cotidiano. O protagonista, Alexander Kornyev, interpretado por Aleksandr Kuznetsov, é um personagem quase apático, mas essa apatia funciona como escudo. Ele se move com cuidado, consciente de que qualquer gesto pode ser interpretado como traição.

Loznitsa afirmou em entrevistas que acredita que nenhuma lição foi plenamente aprendida com os eventos de 90 anos atrás. O filme retoma esse período mostrando apenas um recorte daquele regime totalitário, mas o faz com a intenção de alertar sobre a repetição histórica. O diretor, conhecido por documentários ligados a conflitos contemporâneos, como A Invasão, sobre o cotidiano da Ucrânia devastada pela guerra, retorna a um passado que ainda ecoa no presente.

Dois Procuradores é lento, profundamente político e pouco interessado em agradar quem busca ação. Ainda assim, é um filme bonito, rigoroso e muito bem contado. Ele fala sobre perseguição, silêncio e ausência de investigação contra opositores políticos, temas que continuam visíveis em diferentes sistemas atuais. Não existe mais uma hegemonia clara de opressão, o que existe é a repetição de estruturas autoritárias em várias frentes. O filme transforma essa constatação em experiência sensorial e propõe uma reflexão que vai além do período histórico retratado

Ficha técnica
Diretor e Roteirista: Sergei Loznitsa
Baseado em uma história de: Georgy Demidov
Diretor de Fotografia: Oleg Mutu
Diretor Artístico: Kirill Shuvalov
Diretores de Arte: Jurij Grigorovič, Aldis Meinerts
Designer de Som: Vladimir Golovnitski
Compositor: Christiaan Verbeek
Direção de Elenco: Maria Choustova
Figurinista: Dorota Roqueplo
Maquiadora: Marly Van De Wardt
Editor: Danielius Kokanauskis
Primeiro Assistente de Direção: Marek Cydorowicz
Produtor Executivo: Mārtiņš Eihe
Produtor: Kevin Chneiweiss
Empresa Produtora: SBS Productions – Saïd Ben Saïd
Empresas Coprodutoras: LOOKSfilm, ATOMS & VOID, White Picture, Avanpost Media, Studio Uljana Kim e The Match Factory

foto de capa: sbs e retrato filmes