“Quando os pobres dão aos ricos, o diabo ri”Benvenuto Cellini

“Eles Vão Te Matar” (They Will Kill You) chega como aquele tipo de filme que entra chutando a porta, coberto de sangue e com um sorriso no rosto. Dirigido por Kirill Sokolov, o longa aposta sem medo em uma mistura de comédia ácida, violência estilizada e referências escancaradas ao cinema de Quentin Tarantino.

Não, o filme não atinge o nível do mestre, mas também não tenta esconder isso. O filme certamente busca ser uma homenagem exagerada, caótica e, acima de tudo, divertida.

Uma história simples… que só existe para sangrar

Zazie Beetz em "Eles Vão Te Matar"
Zazie Beetz em “Eles Vão Te Matar” | Crédito: Warner Bros. Pictures/Divulgação

A trama acompanha Asia (Zazie Beetz), uma empregada que começa a trabalhar no misterioso edifício Virgil, em Nova York, um lugar frequentado pela elite, mas que esconde algo muito mais sombrio por trás das portas luxuosas.

Enquanto busca respostas sobre sua irmã Maria (Myha’la), Asia se vê presa em um jogo mortal envolvendo um culto insano e moradores completamente desequilibrados. Entretanto, o filme possui um grande problema. O roteiro tenta ser mais profundo do que realmente é. A tentativa de comentar sobre desigualdade social e relações familiares existe… mas é superficial, previsível e claramente reciclada de outros filmes.

A sensação é inevitável, você já viu isso antes, só que melhor executado.

Direção e roteiro: estilo acima de qualquer substância

Sokolov e o roteirista Alex Litvak parecem ter seguido um mantra bem simples: “se for copiar, copia com estilo”. As influências são gritantes, deKill Bill a “Casamento Sangrento”. Em alguns momentos, o filme beira o descarado, como na repetição de piadas e construções visuais quase idênticas.

E sim… isso pode incomodar. Mas ao mesmo tempo, é impossível ignorar, já que quando o filme entra no modo ação, ele funciona absurdamente bem.

A direção abraça o exagero. A câmera de Isaac Bauman passeia pelos corredores, dutos e salas do prédio como se estivesse participando da carnificina. Já os confrontos são fantásticos. O trabalho de dublês transforma cada confronto em um espetáculo coreografado, brutal, estiloso e deliciosamente absurdo.

O roteiro pode ser fraco, mas o ritmo não deixa você pensar muito nisso.

Elenco, personagens e o brilho absoluto de Zazie Beetz

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Crédito: Divulgação Warner Bros Pictures.

Zazie Beetz entrega uma atuação intensa, carismática e física, que claramente bebe da fonte de Beatrix Kiddo, de Kill Bill, mas sem soar como uma cópia vazia. Ela traz identidade própria, presença e, principalmente, energia.

Ao lado dela, o elenco entra no jogo do absurdo com gosto. Patricia Arquette surge como uma figura caótica e ameaçadora. Heather Graham abraça o humor grotesco com liberdade total. Tom Felton adiciona mais uma camada de estranheza ao elenco, e que cai muito bem com ele.

Mas quem realmente sustenta o filme é a dinâmica entre Asia e sua irmã. Mesmo com um roteiro raso, a relação entre elas traz um mínimo de peso emocional em meio ao caos.

Violência, humor e uma estética que não pede desculpa

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Crédito: Divulgação Warner Bros Pictures.

Aqui é onde o filme se diverte e onde ele ganha. O gore é exagerado, estilizado e, em alguns momentos, até propositalmente brega. Cabeças decepadas, sangue jorrando em níveis quase cartunescos e mortes criativas fazem parte do pacote. Em alguns momentos o nojento se torna divertido, como na cena do olho perseguindo Asia.

Tem uma vibe clara de Evil Dead misturada com a estilização de Tarantino e isso funciona muito bem, mais do que deveria na verdade. Além disso, o humor surge nos momentos mais absurdos possíveis, quebrando a tensão de forma quase irresponsável… mas incrivelmente divertida. Impossível não dar algumas gargalhadas.

É aquele tipo de filme que te faz pensar “Que diabos eu acabei de ver?” e logo em seguida morrer de tanto rir. E isso é um elogio. Entretanto, a trilha sonora poderia ter sido mais ouzada. Diversas cenas de ação poderiam ficar melhores se tivessem tocando algo mais marcante. Certamente nas mãos de Tarantino ficaria épico.

Vale a pena assistir “Eles Vão Te Matar”?

“Eles Vão Te Matar” aposta em uma comédia de terror sangrenta com forte influência do estilo de Quentin Tarantino, combinando violência estilizada e humor ácido, enquanto Zazie Beetz se destaca com uma personagem intensa e carismática, que remete à força e presença de Beatrix Kiddo, de Kill Bill.

“Eles Vão Te Matar” é o exemplo perfeito de um filme que não funciona no papel, mas funciona na prática. O roteiro é fraco. As críticas sociais são superficiais. As referências são óbvias demais. Mas… A energia é contagiante. A ação é absurda. E a experiência é genuinamente divertida.

Não é um novo clássico. Não reinventa nada. E definitivamente não chega perto do nível de Tarantino. Mas como homenagem funciona muito bem. É aquele filme gostosinho de se ver, sem compromissos de grandes interpretações. Um ótimo filme para reassistir numa sexta-feira à noite.

Não é uma obra de arte, mas diverte. E às vezes, isso já é mais do que suficiente.

“Eles Vão Te Matar” está em cartaz nos cinemas.

Crédito da capa: Divulgação Warner Bros Pictures.

“Eles Vão Te Matar” (They Will Kill You)
Estados Unidos, África do Sul, 2026,  1h 34min
Direção: Kirill Sokolov
Roteiro: Alex Litvak, Kirill Sokolov
Elenco Principal: Zazie Beetz, Patricia Arquette, Heather Graham
Produção: New Line Cinema, Noturna
Fotografia: Isaac Bauman
Música:  Carlos Rafael Rivera
Classificação: 18 anos
Distribuição: Warner Bros Pictures.

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Crédito: Divulgação Warner Bros Pictures.