Um estudo intenso sobre ambição, ego e autodestruição, embalado por energia caótica e performances magnéticas

Dirigido por Josh Safdie, “Marty Supreme” não é um filme confortável, e nunca pretende ser. Trata-se de uma obra que mergulha fundo na obsessão pela grandeza, acompanhando um protagonista movido menos por talento e mais por uma necessidade quase patológica de ser visto, respeitado e lembrado. O resultado é um drama esportivo que transcende o gênero, flertando com o retrato psicológico, o estudo de personagem e a crítica ao mito do sonho americano.

Narrativa e personagens: quando vencer não basta

A trama acompanha Marty Mauser (Timothée Chalamet), um jovem cuja ambição não encontra eco em ninguém ao seu redor. Desde cedo, o filme deixa claro que não estamos diante de um herói tradicional. Marty é impulsivo, egocêntrico, contraditório e, ainda assim, estranhamente hipnótico.

Safdie e o roteirista Ronald Bronstein constroem um protagonista que provoca desconforto constante: não é fácil torcer por ele, mas é impossível ignorá-lo. Essa ambiguidade sustenta o filme por quase duas horas e meia, mesmo quando a narrativa parece se perder em desvios e subtramas que nem sempre encontram resolução clara.

Direção e estilo: energia bruta, sem concessões

Josh Safdie imprime aqui o mesmo estilo nervoso e sufocante visto em Good Time (2027) e Uncut Gems (2019). A câmera está sempre próxima demais, o ritmo é agressivo e a sensação de ansiedade nunca abandona o espectador. É cinema de impacto sensorial, que aposta na exaustão como linguagem.

No entanto, essa escolha cobra seu preço. O filme é longo e, em determinados momentos, parece resistir ao próprio corte. Algumas sequências se estendem além do necessário, diluindo o impacto emocional e reforçando a sensação de excesso que, embora coerente com o personagem, pode afastar parte do público.

Marty Supreme (2025) - Timothée Chalamet e Tyler the Creator
Marty Supreme (2025) | Timothée Chalamet e Tyler the Creator
em cena do filme | Credito: A24\IMDB

Atuações: Chalamet domina, o elenco orbita

Timothée Chalamet entrega uma de suas atuações mais intensas. Seu Marty é carismático e repulsivo na mesma medida, sustentando o filme quase sozinho. É uma performance física, emocional e verbalmente exaustiva, e exatamente por isso tão eficaz.

O elenco de apoio funciona melhor quando integrado à lógica caótica do universo do filme. Gwyneth Paltrow, por exemplo, surge de forma curiosamente apagada, quase como um símbolo vazio de status e desejo, enquanto Tyler, The Creator adiciona uma presença inesperada e energética, ainda que episódica. Nada aqui é convencional nem mesmo quando parece ser.

Marty Supreme (2025) - Gwyneth Paltrow em cena do filme - Credito - A24-IMDB
Marty Supreme (2025) | Gwyneth Paltrow em cena do filme | Credito: A24\IMDB

Temas e leitura: a falência do sonho

“Marty Supreme” fala menos sobre esporte e mais sobre obsessão, masculinidade tóxica, vício em validação e a ilusão da ascensão social. O filme sugere, de forma nada sutil, que a busca pela grandeza pode ser apenas outra forma de autodestruição, especialmente quando não há propósito além do próprio ego.

Não é uma narrativa inspiradora no sentido clássico. Pelo contrário: é amarga, repetitiva, incômoda. E justamente por isso, honesta.

Marty Supreme (2025) - Cartaz oficial do filme em PT-BR - Credito - A24-IMDB
Marty Supreme (2025) | Cartaz oficial do filme em PT-BR | Credito: A24\IMDB

Vale a pena assistir?

O filme tem estreia nos cinemas brasileiros em 22 de janeiro de 2026.

Imagem da capa credito: A24