O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights) é a nova adaptação do clássico de Emily Brontë para o cinema em 2026. Dirigido e roteirizado por Emerald Fennell, a produção traz Margot Robbie como Catherine Earnshaw e Jacob Elordi como Heathcliff, com participação de Hong Chau, Shazad Latif e Alison Oliver. O filme é uma coprodução britânico-americana com música de Anthony Willis e estreia em fevereiro, perto do Valentine’s Day.
A premissa original de Brontë é pura obsessão, vingança, desigualdade social e amores destrutivos, elementos que tornam “O Morro dos Ventos Uivantes” um dos romances góticos mais intensos de todos os tempos. Entretanto, a adaptação de 2026 acabou escolhendo outro caminho. E particularmente, um caminho desnecessário, e que infelizmente fará sucesso.
Um romance erótico “leve”

A produção ainda segue a história de amor apaixonada e tumultuada e explora o relacionamento intenso e destrutivo entre Heathcliff e Catherine Earnshaw. Mas, infelizmente, a produção decepciona ao transformar esse épico emocional e brutal em algo mais próximo de um romance erótico “leve” para o público moderno. Desde os trailers, já estava claro que a abordagem visual e narrativa daria ênfase excessiva ao erotismo e à tensão sexual entre os protagonistas, muitas vezes à custa da profundidade psicológica, da vingança e dos temas mais sombrios do livro. É fato que o filme está mais interessado em chocar ou sensualizar do que em explorar a complexidade moral e emocional do material original.
Nessa versão tudo é sexo, desde um enforcamento, o amassar de uma massa de pão e até bizarramente um peixe morto dentro de uma gelatina tem conotação sexual. Além disso, o amor de Heathcliff e Catherine é tão intenso que eles fazem sexo em diversos lugares, inclusive dentro da mansão de Catherine, com o marido dela e outras pessoas dentro da casa.
Cortes narrativos e a mutilação do romance
Além disso, Fennell mudou o foco narrativo e omitiu\reduziu personagens importantes e subtramas que são essenciais para o impacto do romance. A obra de Brontë, em sua essência, é construída sobre a crueldade das relações familiares, a marginalização de Heathcliff (tema ligado a questões de raça e classe) e a espiral de vingança que atravessa gerações. Ao suavizar essas nuances ou cortá-las para priorizar um olhar mais sensual e estético, a adaptação perde muito do peso trágico e social que torna o original tão marcante. Ao modificar a história, o filme termina praticamente na metade do livro. Não existe toda a trama relacionada aos filhos de Catherine, Heathcliff e muito menos do irmão de Cathy, que nem existe nessa versão.
Elenco e estética erótica
A escolha do elenco e da estética também reforça essa sensação de que a adaptação buscou uma versão “instagramável” do clássico, afastando-se da rudeza e da violência emocional contidas nas páginas do livro. Enquanto algumas produções anteriores tentaram pelo menos manter a feiura e a brutalidade da relação entre Catherine e Heathcliff, aqui a relação é frequentemente moldada sob um prisma mais convencional de romance cinematográfico, mais excitante do que devastador.
Fennell manteve cenários de pobreza e nojeiras típicas do século XVIII, mas tudo isso acaba passando batido perto de tantas cenas com conotação totalmente erótica/sexual. A diretora usa de uma dualidade de cores fortes e o cinza para mostrar a riqueza contra a pobreza. Entretanto, isso deixa tudo muito fantasioso, fugindo da realidade. O exagero em alguns cenários joga o filme para um lado mais surreal, indo mais para o absurdo do que para o fantástico. Exemplo disso são as cores das paredes do quarto de Catherine, inspiradas em seu rosto, pintas e veias.
Margot Robbie traz uma Catherine Earnshaw interessante. Entretanto, ela parece uma mistura de Arlequina com Bárbie. Uma mulher de classe, mas louca e obsessiva, repleta de luxúria e sem pudores. Jacob Elordi traz um Heathcliff bruto, misterioso, e que tem uma louca paixão por Catherine. Entretanto, é escancarada a intenção da diretora de colocar um símbolo sexual da geração Z para protagonizar essa adaptação erótica para “vender mais”.
A questão racial


A escolha de Jacob Elordi para viver Heathcliff é o ponto mais controverso da adaptação. No romance de Emily Brontë, o personagem é descrito como um homem racialmente deslocado, constantemente associado à marginalização, à violência e ao preconceito. Essa condição não é apenas estética, mas estrutural: ela molda sua exclusão social e alimenta sua trajetória de ressentimento e vingança. Ao ignorar esse aspecto e escalar um ator branco para o papel, o filme esvazia uma camada essencial da narrativa. Ao transformar Heathcliff em apenas mais um anti-herói romântico, acaba desconectando ele do peso simbólico que sustenta suas motivações no livro.
A inversão racial promovida pela adaptação, com Shazad Latif interpretando Edgar Linton, altera profundamente o eixo dramático da história. Linton deixa de representar o privilégio racial associado à elite britânica, enquanto Heathcliff perde a dimensão do preconceito étnico que o define. Com isso, o conflito central se reduz a uma disputa social e econômica, apagando as tensões raciais que ampliam o alcance crítico da obra original. O resultado é uma releitura que opta por suavizar os temas mais incômodos do romance. Dessa forma, enfraquece sua força política e social em favor de um drama romântico mais “saboroso”, e muito menos provocador.
Vale a pena assistir “O Morro dos Ventos Uivantes” (2026)?

No fim das contas, O Morro dos Ventos Uivantes (2026) pode ser visualmente impressionante e carregado de química entre os atores, mas fracassa em capturar a verdadeira essência do romance de Brontë: a vingança que corrói, a ferida que nunca cicatriza e o olhar implacável sobre classes, injustiça e sofrimento. Para os fãs do livro, digo que isso não é apenas uma escolha estilística, é uma diluição da história que fez desse clássico um ícone do terror emocional/psicológico e da literatura gótica.
O Morro dos Ventos Uivantes (2026) estreia dia 12 de fevereiro nos cinemas.
O Morro dos Ventos Uivantes
Estados Unidos, 2026, 2h 16m
Direção: Emerald Fennell
Roteiro: Emerald Fennell
Elenco Principal: Margot Robbie, Jacob Elordi, Hong Chau, Alison Oliver e Shazad Latif.
Produção: MRC Film, LuckyChap, Lie Still
Fotografia: Linus Sandgren
Música: Anthony Willis
Classificação: 16 anos
Distribuição: Warner Bros. Pictures

Crédito da capa: Divulgação Warner Bros.
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