Filme dirigido por Felipe Sholl, “Ruas da Glória” chega aos cinemas em 2 de abril e aborda solidão, obsessão e a dificuldade de homens gays em aprender o que é afeto
“Ruas da Glória” estreia nos cinemas em 2 de abril com uma proposta clara: colocar o espectador dentro de um relacionamento que nasce do desejo e rapidamente se transforma em dependência emocional. Dirigido e roteirizado por Felipe Sholl, o filme parte de uma história simples, mas aposta na intensidade para sustentar a narrativa. A crítica que surge a partir daí não está apenas no que o longa mostra, mas na forma como ele escolhe mostrar.
Desde a primeira parte, o filme deixa claro que quer provocar desconforto. A fotografia de Léo Bittencourt aproxima a câmera dos corpos, dos diálogos e dos silêncios. A sensação é de invasão constante. O espectador não observa a relação de fora, ele participa dela. Isso funciona em muitos momentos, mas também evidencia um problema do longa: a intensidade substitui a construção dramática em algumas cenas.
Entre o desejo e a falta de referências afetivas
A história acompanha Gabriel, interpretado por Caio Macedo, que se muda para o Rio de Janeiro após a morte da avó. O personagem chega à cidade tentando viver uma liberdade que nunca teve. Ao mesmo tempo, a ausência de referências sobre afeto, família e limites se torna o eixo central da narrativa. Gabriel não sabe o que é amar, ele apenas sabe desejar.

Quando conhece Adriano, vivido por Alejandro Claveaux, o filme passa a trabalhar um contraste que se torna a sua principal força dramática. Gabriel ainda está começando a se perder entre seus sentimentos e desejos. Adriano já passou se perdeu há muito tempo. Ele é um espelho de um possível futuro de Gabriel. É um recurso narrativo direto, pouco sutil, mas eficiente.
O roteiro também tenta ampliar essa discussão ao mostrar a rotina de garotos de programa nas ruas da Glória. No entanto, o filme não aprofunda esse universo. Ele o utiliza como pano de fundo para a relação entre os dois personagens. Falta desenvolvimento e entender melhor como esses personagens chegaram até ali.
Atuações sustentam o filme
Se a narrativa oscila, as atuações conseguem manter o filme em pé. Alejandro Claveaux entrega um personagem emocionalmente quebrado. A atuação funciona, Adriano não precisa explicar nada, o desgaste está no olhar e nos silêncios. Caio Macedo trabalha em outra direção. Gabriel é carente, obsessivo e profundamente solitário. O personagem insiste nos mesmos erros e o filme também insiste em mostrá-los, ao invés de evolução, há um ciclo.
Já Diva Menner aparece como um dos poucos pontos de equilíbrio da narrativa. Sua personagem, Mônica, funciona como uma espécie de porto seguro dentro de Gabriel e muitos outros personagens. A atriz também mostra presença em cena e poderia ter mais espaço. O filme reconhece sua importância.

Um filme que repete uma discussão necessária
É difícil não associar “Ruas da Glória” a outras histórias recentes que orbitam jovens gays buscando amor enquanto se perdem em ambientes que prometem mas não entregam nada e cobram um preço alto por isso. A diferença é que aqui a narrativa assume o desconforto como principal ferramenta.
O longa retoma uma discussão que ainda precisa continuar: a solidão. O jeito que muitos homens gays são ensinados, ou aprender por contra própria, a se relacionar. Isso faz com que, facilmente, o amor se confunda com fuga. Nesse sentido, o filme acerta ao não romantizar o relacionamento central. O desejo aqui é tratado como dependência, o afeto aparece como algo que os personagens não sabem reconhecer.
A sensação é de que o filme repete uma discussão já conhecida, mas sem aprofundá-la. A narrativa aponta para temas como dependência emocional, degradação causada pelas drogas e solidão afetiva, porém não desenvolve todos esses elementos com a mesma força.

Funciona mais pela atmosfera
A fotografia volta a ser o principal destaque. Léo Bittencourt cria uma estética que aproxima o público das relações de forma quase física. O filme é visceral, objetivo e intenso. Em alguns momentos, isso funciona muito bem, em outros, a sensação é de repetição.
O problema central é que o longa parece mais interessado em provocar do que em construir. Ele aposta no impacto imediato, mas deixa de lado o desenvolvimento emocional dos personagens. O espectador entende o que o filme quer dizer, mas nem sempre sente que a história evolui.
Mesmo assim, há uma leitura final que faz sentido: apesar da ausência de novidade, o filme insiste em reforçar que ainda existe esperança, mesmo quando parece que não há uma luz no fim do túnel. A mensagem não é complexa, mas continua relevante, especialmente quando o debate sobre saúde mental, dependência emocional e solidão dentro da comunidade LGBTQIAPN+ ganha cada vez mais espaço.
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Vale a pena assistir “Ruas da Glória”?
“Ruas da Glória” é um filme que funciona mais pela intensidade do que pela originalidade. As atuações sustentam a narrativa, especialmente Alejandro Claveaux e Caio Macedo. A fotografia também ajuda a criar uma experiência sensorial que aproxima o público da história.
Ainda assim, o roteiro repete ideias que já foram exploradas em outras produções semelhantes e não aprofunda todos os temas que apresenta. O resultado é um filme que provoca, incomoda e levanta discussões importantes. Para quem busca uma narrativa intensa e direta, vale a experiência. Para quem espera algo realmente novo, a sensação pode ser diferente.

Ruas da Glória
Brasil, 2024, 103 minutos
Direção: Felipe Sholl
Roteiro: Felipe Sholl
Elenco Principal: Alejandro Claveaux, Caio Macedo, Diva Menner
Produção: Sabrina Bitencourt, Lua Ebisawa, Daniel van Hoogstraten
Direção de Fotografia: Leonardo Bittencourt
Trilha Sonora: Orlando Scarpa Neto
Classificação: 18 anos
Distribuição: Retrato Filmes
Imagem de capa: Divulgação
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