“Dona Beja” marca a entrada das novelas no streaming e propõe uma leitura contemporânea de uma personagem histórica cercada por preconceitos
A novela “Dona Beja” chega ao streaming como uma releitura, e não como um remake, de uma história conhecida da teledramaturgia brasileira. O projeto aposta em uma atualização temática para dialogar com questões sociais atuais, mantendo como eixo central uma mulher que desafia normas morais e estruturas de poder.
No elenco estão Grazi Massafera, Deborah Evelyn, Erika Januza, David Junior, Thalma de Freitas, André Luiz Miranda, Indira Nascimento, Pedro Fasanaro, Bianca Bin, entre outros. Ao falar de Dona Beja, Daniel Berlinsky, roteirista e coautor, afirmou que a proposta foi criar uma personagem à frente do seu tempo em 2026, partindo da ideia original de uma mulher deslocada em relação à sociedade em que vive.
Para ele, a consciência social avançou mais do que as estruturas em si. Esse descompasso amplia o alcance da protagonista, que passa a enxergar mais longe e a influenciar outros personagens ao seu redor. A releitura também se apoia na escassez de registros históricos sobre Ana Jacinta de São José, figura real que inspirou a obra.

Uma novela pensada para o streaming
Para Renata Rezende, executiva da Warner Bros., “Dona Beja” ocupa um lugar estratégico no mercado audiovisual. Nesse contexto, a produção inaugura um novo movimento de novelas desenvolvidas diretamente para plataformas de streaming. Ao mesmo tempo, o formato dialoga com hábitos de consumo mais recentes. Ainda assim, não abandona a estrutura narrativa clássica do gênero. Com isso, a proposta fortalece a presença da teledramaturgia brasileira em um ambiente historicamente dominado por séries internacionais.
Além disso, o projeto amplia debates já existentes na obra original. No entanto, essas discussões ganham novos contornos na atualidade. Temas como autonomia feminina, julgamento moral e controle social atravessam toda a narrativa. Nesse sentido, a protagonista surge como uma figura que foge à norma. Por isso, a comunidade passa a observá-la de forma constante.
Consequentemente, esse olhar externo constrói conflitos centrais da história. Esses conflitos, por sua vez, dialogam com experiências vividas por mulheres hoje. Especialmente, no ambiente digital. Assim, “Dona Beja” estabelece uma ponte entre passado e presente. E reforça a atualidade de seus temas no cenário audiovisual contemporâneo.
“Beja é uma inspiração. A obra trata de coragem, poesia, intuição e ousadia. O projeto propõe a abertura de caminhos para discussões que já existiam naquele período e que seguem atuais. Beja representa ousadia e coragem”, afirmou durante a coletiva de imprensa da novela.

Representatividade e diversidade no centro da narrativa
O elenco e a equipe refletem um esforço consciente de ampliar a diversidade em frente e atrás das câmeras. André Luiz Miranda, que interpreta João, destaca a presença de profissionais negros em diferentes funções da produção. Para o ator, o projeto rompe com a ideia de que pessoas negras compartilham os mesmos pensamentos ou trajetórias.
“É um projeto importante por reunir muitas pessoas pretas em um espaço onde, historicamente, não somos vistos. João é fruto de um amor vivido em um período marcado por casamentos arranjados e dotes. Ele cresceu cercado por afeto e não tem medo de expressar o que sente nem de declarar o quanto ama. Também luta de forma firme pelos próprios ideais. Pessoas pretas sempre foram colocadas em um mesmo lugar, como se pensassem da mesma forma, e essa nova produção mostra o contrário: somos muitos, diversos e plurais”, disse.
David Junior, intérprete de Antônio, aponta a relação do personagem com ancestralidade e legado. A narrativa constrói uma linhagem que conecta passado e presente, reforçando a noção de identidade coletiva. Já Thalma de Freitas, que vive Jozefa, observa que a obra dialoga com o ambiente das redes sociais. Para ela, críticas e reações negativas fazem parte do jogo contemporâneo e podem ser transformadas em posicionamento público sobre valores, ética e estética.
“Sinto que, nesses anos de redes sociais, aprendemos a transformar críticas em força. Qualquer ataque mais pesado se torna uma oportunidade de deixar claros nossos valores, nossa ética e nossa estética. Podemos usar tanto as atenções negativas quanto as positivas para nos fortalecer”, afirmou Thalma.

Dona Beja e o julgamento moral ontem e hoje
A trajetória de Dona Beja estabelece um paralelo direto com o modo como mulheres ainda são julgadas. Grazi Massafera, que interpreta a protagonista, afirma que a personagem ensina sobre resistência e persistência. A narrativa mostra uma mulher que não se molda às expectativas alheias e constrói sua liberdade ao longo do caminho, sem seguir um roteiro pré-definido.
“O que Beja ensina hoje é a resistência, a persistência e a capacidade de transformar adversidades em aprendizado. Ela não sucumbe às regras e permanece aberta a constantes mudanças. Beja não está pronta; ela se constrói ao longo do caminho e abre espaço para outras mulheres. É assim que constrói a própria liberdade”, contou a atriz.
Deborah Evelyn, que interpreta Ceci, reforça que Ana Jacinta foi uma mulher real. Desde o início, sua trajetória foi marcada pelo preconceito. Afinal, por ser solteira, independente e mãe de dois filhos de pais diferentes, sua imagem passou a ser associada à de uma cortesã. Nesse sentido, segundo a atriz, essa leitura diz mais sobre a sociedade que a julgou do que sobre a mulher em si. Assim, a novela retoma esse debate. Ao longo da narrativa, mostra como discursos preconceituosos se constroem. E, sobretudo, como eles se perpetuam ao longo do tempo.
Da mesma forma, Erika Januza, intérprete de Candinha, destaca que a força de Beja surge da necessidade de enfrentar adversidades constantes. Ainda assim, a personagem segue em frente. Mesmo diante dos comentários. E apesar da vigilância social. Para a atriz, portanto, esse percurso dialoga diretamente com a realidade atual. Especialmente com mulheres que lidam, hoje, com exposição permanente e julgamento nas redes sociais.
“Beja construiu a força necessária para atravessar os problemas, apesar de tudo o que lhe aconteceu. Hoje, nem todas as pessoas estão psicologicamente preparadas para lidar com isso nas redes sociais. A mesma força que Beja precisou desenvolver é a que precisamos construir agora. As mulheres precisam entender que essa força interna ajuda a seguir em frente, mesmo diante das críticas”, afirmou.

Personagens femininas e novas leituras de afeto
Outras personagens ampliam o debate proposto pela novela. Indira Nascimento, que vive Maria, relata que a personagem a fez refletir sobre o papel das emoções. Para ela, sentimentos funcionam como alertas, mas podem se tornar perigosos quando dominam as ações. A vivência da personagem evidencia como decisões impulsivas afetam não apenas o indivíduo, mas todo o entorno.
Pedro Fasanaro, intérprete de Severina, chama atenção para a valorização de afetos que vão além do amor romântico. A novela desloca o foco para relações de amizade e parceria, propondo uma leitura menos idealizada das conexões humanas. Esse olhar amplia as possibilidades de identificação do público com a trama. “As vezes percebemos que o amor das nossas vidas são nossos amigos. Tirar esse foco do amor romântico também é muito importante”, disse.
Além disso, a obra também aborda temas como diversidade sexual e questionamento da heterossexualidade compulsória. Indira Nascimento observa que a ausência de referências na juventude impacta trajetórias pessoais. A presença de personagens que vivem outras possibilidades afetivas contribui para ampliar o debate, ainda que de forma gradual.
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Uma história do passado com impacto no presente
Para Daniel Berlinsky, o arquétipo da mulher livre atravessa o tempo porque toca em um desejo coletivo: o de ser quem se é. A novela propõe que a contradição faz parte desse processo. A mensagem central não é oferecer um modelo ideal, mas afirmar a importância da autonomia individual. Ao recuperar a figura de Dona Beja, a trama também revisita todas as “Anas Jacintas” que desafiaram normas ao longo da história.
Além disso, ao trazer esse debate para o streaming, “Dona Beja” se posiciona como uma obra que conecta passado e presente. A novela utiliza a arte e a cultura como ferramentas de questionamento social. Em um cenário de transformações constantes, a releitura reafirma que histórias antigas ainda podem provocar discussões atuais.
Imagem de capa: Reprodução/IMDB
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