Na metade da trama, “Dona Beja” consolida conflitos sobre liberdade feminina, racismo, desejo e poder, enquanto a gravidez da protagonista redefine os rumos da novela

A chegada do episódio 20 de “Dona Beja” marca a metade da trama no streaming. A releitura criada por Daniel Berlinsky e António Barreira, com direção de Hugo de Sousa, apostou desde o início em ritmo acelerado, estética moderna e discurso direto sobre liberdade feminina. Ao longo dos capítulos, a novela reorganizou conflitos, aprofundou personagens e ampliou o debate sobre moralidade e poder.

Inspirada livremente na história de Ana Jacinta de São José, mulher que viveu no século XIX em Araxá (MG), a produção deixou claro nos cinco primeiros episódios que não se tratava de remake. A proposta sempre foi atualizar o debate. Por isso, adotou estrutura não linear, alternando passado e presente. Além disso, priorizou a centralidade da protagonista e sacrificou, em alguns momentos, o desenvolvimento dos coadjuvantes.

Episódios 1 a 10: formação da protagonista e vilania em ascensão

Nos capítulos iniciais, Dona Beja (Grazi Massafera) surge como mulher que enfrenta normas sociais rígidas. Desde cedo, a personagem é alvo de julgamento coletivo. Ainda assim, aprende a reagir. A transformação é gradual. Beja não nasce pronta. Ela se constrói diante das adversidades.

O que esperar da nova série da HBO Max "Dona Beja"
Grazi Massafera como Dona Beja | Crédito: Reprodução/IMDB

A atuação de Grazi sustenta esse arco narrativo. Assim, a protagonista deixa de agir apenas por impulso e passa a adotar postura estratégica. Ao mesmo tempo, Antônio (David Junior) surge como contraponto emocional. Ele simboliza tradição e racionalidade. No entanto, desde cedo, a relação entre os dois revela instabilidade. Por isso, aproximações e afastamentos passam a marcar o romance em “Dona Beja“.

Entre os episódios 6 e 10, a novela desacelera o ritmo. Com isso, ganha densidade dramática. Além do conflito amoroso, o enredo amplia o debate sobre racismo estrutural, repressão sexual e hipocrisia social. Nesse contexto, Cici (Deborah Evelyn) deixa de ser antagonista pontual e assume posição mais sólida na trama. Sua vilania é discreta, porém constante. Ela transforma reputação em instrumento de controle.

Paralelamente, Josefa (Thalma de Freitas) enfrenta disputa patrimonial que evidencia preconceito racial. O conflito é direto. Não há suavização. Ao mesmo tempo, a novela reforça a representatividade ao ampliar o espaço de Severina (Pedro Fasanaro). Dessa forma, discussões sobre corpo, identidade e pertencimento passam a integrar o centro da narrativa de “Dona Beja“.

Por fim, o episódio 10 encerra essa etapa com uma revelação decisiva envolvendo Maria (Indira Nascimento). O amor reprimido por Beja vem à tona. A partir desse ponto, ressentimento e inveja passam a orientar suas ações. Consequentemente, a tensão entre as personagens se intensifica para a sequência da novela.

"Dona Beja" chega na metade
Indira Nascimento como Maria

Episódios 11 a 15: escândalo público e suspense

Na sequência, os episódios 11 a 15 ampliam o drama. Flashbacks revelam que Maria foi responsável por entregar Beja ao ouvidor do rei (Virgílio Castelo). A traição ganha nova camada psicológica. O amor não assumido se transforma em agressividade e raiva.

Cici aprofunda seu comportamento conservador. Obcecada por imagem perfeita, intensifica ataques indiretos. Ao mesmo tempo, Beja enfrenta confronto público. A cena em que cavalga usando calças e, depois, surge nua sobre um cavalo branco, reforça domínio sobre o próprio corpo. O gesto é calculado e tensiona a moral da cidade.

Além disso, a tentativa de assassinato contra Beja movimenta o suspense. Antônio assume investigação, suspeitos se acumulam. O mistério é parcialmente resolvido no episódio 15. Ainda assim, novas dúvidas surgem.

Paralelamente, Carminha (Catharina Caiado) deixa de ser apenas alívio cômico. Seu relacionamento com Honorato (Gabriel Godoy) ganha peso emocional. Fortunato (João Villa) enfrenta conflito interno ligado à sexualidade. O tema retorna de forma pontual, mas relevante.

Catharina Caiado e Gabriel Godoy em "Dona Beja"
Catharina Caiado e Gabriel Godoy | Crédito: HBO Max/Divulgação

Episódios 16 a 20: gravidez e reorganização de forças

A atual leva, do 16 ao 20, desloca o foco para a gravidez. Primeiro, Angélica (Bianca Bin) enfrenta luto. A dor se converte em desejo de vingança. Em seguida, Beja descobre que também está grávida, revelação que altera o eixo narrativo. Agora, a protagonista enfrenta dilema íntimo: ter ou não o filho de Antônio? A dúvida expõe vulnerabilidade. Quando comunica a gestação, a reação dele é fria. O distanciamento amplia a crise do casal e o romance, que já era instável, entra em fase de frustração constante.

Enquanto isso, Maria intensifica manipulação sobre Angélica, o amor reprimido por Beja se transforma em ressentimento. A vilania se fragmenta, Cici reduz protagonismo momentâneo e Maria assume espaço mais impulsivo. No núcleo cômico, Augusta (Kelzy Ecard) descobre a gravidez de Carminha e força casamento com Honorato. A tentativa de mudar a aparência do rapaz para enganar a cidade introduz exagero típico de folhetim. Ainda assim, a crítica à obsessão pela reputação permanece.

Ao chegar à metade, “Dona Beja” mantém coerência temática. Liberdade feminina, racismo, desejo e moralidade continuam como pilares. No entanto, o episódio 20 encerra sem grande clímax e o conflito permanece em suspenso. A segunda metade precisará responder a três eixos centrais: o destino da gravidez de Beja, a resolução do romance com Antônio e os desdobramentos da vilania de Maria. Até aqui, a novela construiu um percurso de tensão contínua. Agora, o público aguarda consequências mais decisivas.

Imagem de capa: HBO Max/Divulgação