Novo longa dirigido por Alex Prager, “DreamQuil mistura horror corporal, IA e crítica social ao acompanhar uma mulher que descobre ter sido substituída por sua versão robótica

O filme “DreamQuil” surge como uma proposta inquietante dentro do cinema contemporâneo. Estrelado por Elizabeth Banks e John C. Reilly, o longa aposta em elementos de horror corporal, ficção científica e sátira social para discutir temas como identidade, tecnologia e o impacto da inteligência artificial na vida cotidiana. A produção marca a estreia da artista visual Alex Prager na direção de longas-metragens, em roteiro escrito ao lado de sua irmã, Vanessa Prager.

Ambientado em um futuro próximo, o filme imagina um mundo em que condições ambientais perigosas obrigam a população a viver isolada dentro de casa. Nesse cenário, a vida passa a acontecer principalmente no ambiente virtual. A ideia surgiu ainda durante a pandemia de 2020, quando as irmãs Prager começaram a refletir sobre o impacto psicológico do isolamento e sobre a possibilidade de uma crise global se tornar permanente.

A origem da história: da pandemia ao cinema

A semente de “DreamQuil” nasceu de um meme chamado “YearQuil”, uma paródia do remédio NyQuil que prometia fazer as pessoas dormirem até que o mundo voltasse ao normal. A brincadeira levou as irmãs Prager a uma pergunta inquietante: “e se aquele momento de crise nunca acabasse?”

Elizabeth Banks em "DreamQuil"
Banks no filme | Crédito: Divulgação

A partir dessa provocação, surgiu a ideia de um futuro em que as pessoas vivem confinadas e buscam soluções tecnológicas para lidar com a frustração e o esgotamento emocional. Segundo Alex Prager, o filme também reflete sobre a maneira como a sociedade tenta evitar experiências desconfortáveis.

Para a diretora, sentir desconforto é parte da experiência humana. No entanto, ela observa que a tecnologia contemporânea frequentemente oferece caminhos para anestesiar essas sensações. “DreamQuil” explora exatamente essa contradição: o desejo de escapar da realidade pode gerar consequências imprevisíveis.

A trama: quando uma versão melhor de si mesma surge

Na história, Elizabeth Banks interpreta Carol, uma mulher que vive presa em uma rotina doméstica sufocante. Seu casamento com o personagem de Reilly parece cada vez mais distante, enquanto a repetição das tarefas diárias faz sua vida perder sentido.

Em busca de uma solução, Carol decide participar de um retiro digital chamado DreamQuil, administrado por uma empresa misteriosa que promete rejuvenescimento e transformação pessoal. No entanto, ao retornar para casa, ela descobre algo perturbador: sua família já está sendo cuidada por Carol Dois, uma versão robótica de si mesma.

Essa nova Carol parece perfeita. Mais eficiente, mais alegre e sempre pronta para atender às expectativas da família. Aos poucos, a presença da duplicata cria uma tensão crescente. Afinal, se a versão artificial é considerada melhor, qual será o lugar da Carol original?

DreamQuil
Um filme cheio de tensão | Crédito: Divulgação

Estética surreal e crítica à tecnologia

Visualmente, “DreamQuil” aposta em uma estética que mistura referências de diferentes épocas. A produção utiliza cenários pintados à mão e uma fotografia estilizada que cria a sensação de um tempo indefinido, algo que pode ser tanto passado quanto futuro. Para alcançar esse efeito, a diretora contou com profissionais experientes, como o diretor de fotografia Lol Crawley e a diretora de arte Annie Beauchamp.

Ao mesmo tempo, o filme dialoga diretamente com temas atuais, principalmente o avanço da inteligência artificial e a construção de identidades digitais. Para Banks, o terror corporal funciona como uma metáfora para o modo como as pessoas criam versões idealizadas de si mesmas nas redes e nas plataformas digitais.

Segundo a atriz, já vivemos em um mundo onde filtros e tecnologias alteram a aparência e a forma como nos apresentamos aos outros. Nesse contexto, DreamQuil leva essa lógica ao extremo ao imaginar uma substituição literal da identidade humana.

Um retrato inquietante da busca por perfeição

À medida que a história avança, a convivência entre Carol e sua versão robótica revela questões profundas sobre identidade, maternidade e expectativas sociais. A duplicata representa uma imagem idealizada da esposa e mãe perfeita, sempre sorridente e sem frustrações.

Essa dinâmica também dialoga com debates contemporâneos sobre papéis de gênero e a pressão sobre mulheres dentro da estrutura familiar. Ao confrontar sua própria substituta, Carol passa a questionar não apenas sua identidade, mas também o sistema que valoriza versões artificialmente perfeitas das pessoas.

Assim, DreamQuil se junta a uma tendência recente do cinema que explora o fascínio pela autotransformação e pela criação de versões aprimoradas do próprio corpo.

Um primeiro longa ambicioso

A produção do filme levou anos para ser concluída. Desde o desenvolvimento do roteiro até a pós-produção, Alex Prager enfrentou desafios típicos de um primeiro longa-metragem. Ainda assim, a diretora manteve sua visão artística baseada em cenários construídos e estética teatral.

Para Elizabeth Banks, que também participou do projeto como produtora, a experiência foi diferente de tudo que já havia feito. A atriz destacou que interpretar duas versões da mesma personagem exigiu um trabalho físico e emocional intenso.

O resultado é um filme que combina humor ácido, surrealismo e inquietação existencial. Ao explorar o medo de ser substituído por uma versão melhor de si mesmo, “DreamQuil” transforma um pesadelo contemporâneo em narrativa cinematográfica, e, ao mesmo tempo, convida o público a refletir sobre os limites entre tecnologia, identidade e humanidade.

Imagem de capa: Divulgação