A escritora Luciana Palhares, além de se dedicar ao universo literário, é atriz e terapeuta holística. Nasceu no Rio de Janeiro e se formou pela CAL (Casa de Artes de Laranjeiras), tendo trabalhado em teatro, cinema e produção cultural. Em entrevista ao GeekPop News, a autora falou de seu trabalho mais recente “Para Entender uma História de Amor”, do equilíbrio entre as carreiras e de como enxerga o cenário literário e cultural atualmente.

Você menciona que a autoficção funciona como um “mecanismo de sobrevivência psíquica”. De que maneira a sua atuação como terapeuta holística influencia na sua escrita?

Que pergunta maravilhosa! Sempre fui muito curiosa e observadora. Acho que minha experiência como terapeuta me deu mais nuances e camadas para essas observações, aumentou o meu vocabulário emocional e ampliou a minha empatia para histórias que antes eu não sabia de que forma me aproximar.

De que forma a sua visão terapêutica sobre os encontros e desencontros afetivos molda as suas narrativas? 

“Para Entender” foi escrito antes de eu começar a atuar como terapeuta, mas acredito que se escrevesse o “Para Entender Uma História de Amor 2″ele seria muito diferente. Eu mudei demais nesses 20 anos que separam a Luciana que o escreveu desta que vos fala, 12 dos quais venho atuando como terapeuta e 8 dos quais estou em celibato. A Luciana de hoje aprendeu muito de si, destrinchando o passado, desconstruindo personagens pouco nutritivos e revendo os conceitos de amor, relação, pertencimento de uma forma muito profunda. 

Você acredita que escrever é, em si, um ato terapêutico?

Sim! Escrever é, em si, um ato terapêutico. Quando aprendemos a deixar as palavras irem traduzindo nossos pensamentos, impressões e emoções, vamos desenhando um mapa da gente mesmo. Escrever nos conecta a partes desconhecidas de nós.

O seu livro combina narrativas curtas, ensaios e poesia. Por que escolher esse estilo “fragmentado” em vez de uma estrutura linear? Isso seria um reflexo de como nossa memória e nossas emoções funcionam?

Sim,  exatamente. A fragmentação é uma metáfora viva da contemporaneidade. Também me debruço constantemente sobre a linha que separa a realidade da ficção, o fato, da narrativa deste fato. Essa linha pontilhada, que por vezes parece inexistente hoje em dia, me ativa bastante, me faz refletir.

Nossa memória é muito influenciada pelo efeito emocional; por isso, é comum que pessoas que viveram a mesma cena tenham memórias distintas da mesma, cada um tem seu filtro único. O estilo fragmentado também é resultado de minha intimidade com o conto e a crônica e da minha preferência por concisão, por depurar os sentidos.

Você cita autores como Milan Kundera e Anaïs Nin. Como essas influências ajudaram você a encontrar a coragem para misturar o ensaio autobiográfico com a licença poética?

Sempre que me perguntam sobre essa coragem, eu me espanto, pois creio que esse tipo de escrita vem da necessidade de expressão e de encontro. Não há coragem, há falta de opção. De certa forma, já não posso mais conter essa expressão dentro de mim, preciso  externalizá-la.

A influência desses autores é palpável para mim, pois ambos souberam falar do íntimo de forma natural, poética, por vezes cômica ou trágica, o que me parece uma boa representação da experiência humana. E eu persigo essa forma de traduzir o humano na minha escrita, natural e sem juízo de valor, por vezes direta, por vezes poética.

Lançar um livro de forma independente muitas vezes é um desafio. Quais foram os maiores obstáculos que você enfrentou desde a concepção da ideia até o livro chegar às mãos do leitor?

De novo essa palavra! (Risos) Você está me fazendo refletir sobre ela. E sim, você tem toda a razão, coragem e persistência são imprescindíveis, acrescentaria a paciência para fechar o grupo. O primeiro obstáculo é o interno. Será que o que escrevi é pertinente para os demais? Este livro foi escrito há 2 décadas e estou muito feliz que não o lancei no mundo de então!

Vejo o mundo de hoje mais preparado para a forma como eu abordo o tema do amor. O segundo é o momento de vida, energia e recursos financeiros para parir e cuidar desse filho. Escrever é a parte mais fácil! O terceiro é o trabalho em volta de lançar, desde revisão, leitura crítica, capa, diagramação, registro, etc.

Quando chegar até o leitor, continuo buscando veredas! É difícil furar certas bolhas, ainda mais de forma independente: encontrar uma livraria disposta a lançar seu livro, conseguir uma resenha que tenha autoridade e alcance, conseguir espaços para divulgação. Haja paciência, resiliência e criatividade. Ah, e verba para financiar!

Como você enxerga o cenário atual para escritores brasileiros?

Vejo que vivemos um momento especial. Se por um lado nunca foi mais fácil publicar, auto publicar em especial, por outro tem tanta gente publicando e buscando um espaço que parece que estamos batendo cabeça. Às vezes parece que estamos todos tentando vender algo uns para os outros nos grupos de autores e de literatura. Pode ser o melhor momento ou o pior momento, dependendo do tipo de autor que você é.

Eu, por exemplo, adoraria escrever o livro apenas e deixar todo o resto do trajeto para outras pessoas, mas não tenho essa possibilidade. Redes sociais fazem grandes booms para alguns autores que tenham facilidade de estar ali interagindo e investindo tempo, energia e dinheiro, obviamente! Assim, os cenários são mais pessoais do que de mercado em certa medida.

Em um mundo cada vez mais digital e acelerado, como tem sido a recepção do público brasileiro a uma obra que exige pausa, reflexão e mergulho na sensibilidade?

Sou um peixe pequenino em um oceano bem grande e competitivo. No entanto, os feedbacks que recebo são em geral bastante bons! Fico muito feliz ao saber que minhas palavras reverberam em quem as leu, que a minha experiência encontra eco em outras pessoas. Mas acho sim que uma parte do público brasileiro gosta da literatura que faço. Só falta a gente se encontrar. 

Quais são seus planos? Pretende lançar um novo livro ou algo em outra área?

O próximo lançamento será os áudios de Ficção que chamo de Eu – Infância, uma coletânea de fragmentos de histórias minhas que foram bem no Wattpad e agora vão para o Spotify, SoundCloud e Youtube.

Além de seguir buscando um caminho para o Para Entender Uma História De Amor, tenho outros 2 livros prontos na fila para lançar: “A Vida não sabe de Pontos Finais” é uma coletânea de contos, e “A Noite em que os espinhos viraram flores” é um livro de poesias.  No segundo semestre será o lançamento da minha mentoria de escrita terapêutica, o Escreva-se! Com as opções de 6 e 12 semanas de processo de reescrita pessoal.

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