Uma análise sobre a “taxa de dor” imposta às protagonistas para que conquistem autonomia
A celebração da força feminina esconde uma engrenagem narrativa incômoda na indústria do entretenimento. Na ficção contemporânea, o amadurecimento das mulheres raramente nasce da liberdade; pelo contrário, ele surge, quase invariavelmente, do sofrimento. Da melancolia ácida de Fleabag à violência bruta de The Last of Us, a cultura pop estabeleceu uma “taxa de dor” obrigatória para que uma protagonista conquiste sua autonomia.
AVISO DE CONTEÚDO SENSÍVEL: A reportagem abaixo pode ter descrição de violência contra a mulher ou violência de gênero
O corpo como sentença biológica e política: a dor imposta às protagonistas
O ponto de partida para essa reflexão reside no diálogo iconoclasta entre a protagonista de Fleabag e a executiva Belinda. Ao afirmar que as mulheres “já nascem com a dor embutida”, a série britânica ecoa o pensamento de Simone de Beauvoir em O Segundo Sexo. Para a filósofa, a sociedade lê o corpo feminino historicamente como um “fardo” ou uma “limitação”. Beauvoir argumenta, contudo, que essa condição não é uma sentença biológica inevitável, mas uma construção cultural. Ao longo da história, o patriarcado impôs à mulher a função de um objeto passivo, cuja existência se limita à biologia ( o parto, o cuidado, a imanência) , enquanto o homem reserva para si a transcendência e a ação.
Consequentemente, a ficção transpõe essa dor biológica (como cólicas, parto e menopausa) para o campo político. Personagens como June Osborne (The Handmaid’s Tale) e a Imperatriz Furiosa (Mad Max) habitam corpos que o Estado ou tiranos tratam como propriedade. Nelas, a resistência deixa de ser um ato de heroísmo clássico para se tornar uma resposta biológica direta à tentativa de aniquilação.

A “mulher forte” e o fetiche do sofrimento
Nesse contexto, a literatura feminista contemporânea, representada por autoras como Rebecca Solnit, questiona por que o silenciamento e a dor movem as histórias de mulheres. Solnit argumenta que, historicamente, o ‘não dito’ e o apagamento da agência feminina não são acidentes, mas mecanismos de controle narrativo. Em protagonistas como Sansa Stark (Game of Thrones), observamos a aplicação de uma “pedagogia do trauma”: a narrativa exige que ela enfrente casamentos forçados e abusos sistemáticos para que, finalmente, “aprenda” a jogar o jogo político. Tratando o trauma como o único atalho possível para a sua futura autonomia.”
Essa estrutura sugere, portanto, que a violência deve corrigir a inocência feminina, vista aqui como um defeito. Diferente da “Jornada do Herói” de Joseph Campbell (na qual o homem parte em busca de glória) a jornada da heroína moderna muitas vezes se limita ao amargo “Caminho da Sobrevivente”.
O olhar clínico e o espetáculo do desconforto
Tal pedagogia ganha contornos ainda mais cruéis no cinema através do que o olhar masculino (male gaze) define como realismo. Sob a justificativa de “causar desconforto” ou “denunciar a violência”, diretores frequentemente cruzam a linha entre a crítica e o fetiche. Vemos isso claramente em obras como Doce Vingança e na infame cena de dez minutos em Irreversível.
Embora o filme pretenda desconfortar o público geral, a prática deposita o peso desse mal-estar exclusivamente sobre o corpo feminino, transformando-o em um laboratório de tortura visual. Esse olhar clínico desumaniza a personagem justamente quando afirma “dar voz” à sua dor. Trata-se de uma catarse barata: para que a personagem demonstre força no terceiro ato, o cinema exige que a trama a destrua, de forma gráfica e prolongada, nos dois primeiros.

O espectro da dor na cultura pop:
- Wanda Maximoff (WandaVision): Define o luto como a única fonte de poder absoluto.
- Ellie (The Last of Us): Aceita a desumanização como o preço inevitável da sobrevivência.
- Annalise Keating (HTGAWM): Veste a armadura da invulnerabilidade imposta historicamente à mulher negra.
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A “mística da resiliência”: a dor das protagonistas e a exaustão da autonomia
Além das telas, a romantização dessa dor reverbera de forma perigosa no cotidiano. Ao transformar o sofrimento em um ‘combustível’ de superação, validamos a mercantilização das emoções. A cultura contemporânea impõe que o valor de uma mulher seja medido por sua resiliência diante do trauma. Nessa lógica, protagonistas que suportam crises sem desmoronar tornam-se o padrão, mascarando o fato de que a dor não é um rito de passagem necessário, mas uma ferramenta que limita a autonomia ao que é suportável pelo olhar alheio.
No entanto, como Belinda sugere em Fleabag, existe uma exaustão oculta que o mundo prefere ignorar. Essa resiliência não é um dom, mas uma imposição. Quando a mídia foca apenas na “superação”, ela convenientemente deixa de questionar quem causou a ferida original.
Por que a dor é o único caminho?
Por fim, surge uma provocação de ordem criativa e política: por que temos tanta dificuldade em imaginar mulheres poderosas que não tenham passado por traumas? A persistência desse tropo revela tanto uma falha de imaginação dos roteiristas quanto uma demanda perversa da audiência pelo espetáculo do sofrimento.
A verdadeira libertação só ocorrerá quando as narrativas permitirem que as mulheres existam além da sua utilidade ou da sua capacidade de absorver traumas. Enquanto roteiristas insistirem que a dor é o único motor de mudança para as protagonistas, elas permanecerão presas a uma falsa noção de força. Somente ao dissociar o sofrimento da conquista de sua autonomia, a ficção poderá, finalmente, apresentar mulheres que habitam o mundo pela escolha e não pela sobrevivência.
Caso você ou alguém próximo a você esteja passando por uma situação de violência, não hesite, ligue para 180 (Central de Atendimento à Mulher) e faça a denuncia anônima.
Foto de capa: Divulgação HBO
Estagiária sob supervisão de Mário Guedes