Um final que fecha ciclos… e abre feridas

Após sete episódios intensos, It: Bem-vindos a Derry encerra sua primeira temporada com “Fogo de Inverno”, um final ambicioso que fecha o sangrento capítulo de Derry em 1962 e, ao mesmo tempo, escancara o quanto a série é profundamente enraizada na mitologia de Stephen King. Aprodução funciona como um grande mosaico de easter eggs espalhados por toda a obra do autor, sendo mais do que uma simples prequela.

ATENÇÃO! É POSSÍVEL QUE DAQUI PARA FRENTE VOCÊ ENCONTRE SPOILERS! CUIDADO!

Pennywise livre e o terror fora de época

O Nevoeiro It Bem vindos a derry
Crédito: Warner Bros. Pictures / Reprodução

Com Pennywise (Bill Skarsgård) rompendo as amarras que o mantinham contido, a entidade ressurge antes do esperado, aparentemente disposta a ignorar seu ciclo tradicional de 27 anos. Sua libertação vem acompanhada de uma névoa misteriosa que envolve Derry em frio, gelo e neve fora de estação, um evento que imediatamente remete a “O Nevoeiro“, conto clássico de King presente no livro “Tripulação de esqueletos“.

Embora os criadores afirmem que os fenômenos não são os mesmos, a associação é inevitável. Assim como em Bridgton, a névoa em Derry funciona como um véu para o horror, ampliando o medo coletivo e sugerindo que forças maiores, talvez militares, talvez cósmicas, estejam novamente brincando com o que não deveriam.

Desaparecidos, ecos visuais e a memória do horror

Richie Tozier It Derry
Crédito: Warner Bros. Pictures / Reprodução

Entre os momentos mais perturbadores do episódio está a descoberta de cartazes de crianças desaparecidas espalhados pela cidade. A imagem remete diretamente a um dos sustos mais famosos de It (2017), quando Richie Tozier encontra um cartaz com seu próprio rosto na casa da Rua Neibolt. Aquela cena foi realmente de assustar.

Já a série usa o mesmo recurso para reforçar uma ideia central do universo de King, que Derry lembra. A cidade registra suas tragédias, mesmo quando tenta enterrá-las, literalmente.

Referências literárias espalhadas pela estrada

A fuga das garotas pela névoa leva a uma sequência carregada de referências mais profundas à bibliografia de King. O caminhão de leite abandonado evoca os contos “Entregas Matinais” e “Rodas Grandes”, ambos de “Tripulação de esqueletos”, enquanto a menção ao aprendizado ao volante remete diretamente a “A Caminhonete do Tio Otto”, outra história marcada pela culpa que ganha forma física.

Tais detalhes reforçam o quanto “It: Bem-vindos a Derry” funciona como um grande ponto de convergência das obsessões narrativas de King, culpa, memória e objetos amaldiçoados.

Dick Hallorann, Maturin e o horror cósmico

Dick Hallorann em Bem-Vindos a Derry
Foto: Brooke Palmer/HBO

Nenhum personagem representa melhor essa conexão ampliada do que Dick Hallorann (Chris Chalk). Ao ter sua mente invadida por Pennywise, ele liberta espíritos presos em um “cofre mental”, conceito retirado diretamente de “Doutor Sono“. Para combatê-los, Dick recorre a um chá feito com raiz de Maturin, a mesma substância usada em “It: Capítulo Dois”.

Além disso, Maturin, é a lendária tartaruga cósmica da obra de King, um contraponto benevolente à entidade devoradora de mundos. A menção ao Espaço Todash, mesmo sem ser nomeada explicitamente, ancora a série no lado mais metafísico do autor, conectando “It“, “A Torre Negra” e outros mundos além do nosso.

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Do Exército ao Hotel Overlook

Surpreendentemente, a despedida de Hallorann é um dos momentos mais elegantes do episódio. Ao mencionar que deixará o Exército para trabalhar como cozinheiro em um hotel, a série traz, sem sutileza alguma, a referência de “O Iluminado“. A piada sobre “que tipo de problema um hotel pode causar?” funciona como um presságio cruel e irresistível para fãs de King.

Marge, Richie e o peso do destino

Margaret Tozier It Bem vindos a Derry
Crédito: Warner Bros. Pictures / Reprodução

No clímax emocional, Pennywise chama Marge de Margaret Tozier, confirmando teorias antigas dos fãs: ela é a futura mãe de Richie Tozier, membro do Clube dos Perdedores. A revelação transforma sua sobrevivência em algo ainda mais simbólico, ligando diretamente sua trajetória à eventual queda da entidade.

A conversa entre Marge e Lilly reforça o tema do tempo cíclico, outro pilar da obra de King. O mal retorna, mas cada geração terá sua própria luta. Nem todas as batalhas precisam ser vencidas pela mesma pessoa.

Guardiões de Derry e a herança dos Hanlon

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Crédito: Warner Bros. Pictures / Divulgação

Enquanto isso, Rose assume o papel de sentinela e entrega aos Hanlon a missão de vigiar Derry e manter os Pilares protegidos. Desse modo, a decisão ecoa diretamente o futuro de Mike Hanlon, o único Perdedor que permanece na cidade, dedicando sua vida a registrar sua história violenta.

É aqui que a série deixa claro que It: Bem-vindos a Derry é, essencialmente, a dramatização dos interlúdios do livro It, as anotações que explicam por que essa cidade é do jeito que é.

Juniper Hill, Beverly Marsh e ninguém que morre realmente em Derry

A cena pós-créditos leva o público a Juniper Hill, onde Ingrid Kersh delira sobre o palhaço assassino. O salto temporal até 1988 conecta diretamente a série aos eventos dos filmes, com a aparição de Beverly Marsh ainda criança e a frase arrepiante: “ninguém que morre em Derry realmente morre”.

Essa fala, repetida anos depois em It: Capítulo Dois, fecha o ciclo narrativo do episódio, e do próprio título “Fogo de Inverno”, que também remete ao poema romântico enviado a Beverly por Ben Hanscom.

Uma prequela que é mais do que prequela

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Imagem: Reprodução / Warner Bros

Tecnicamente, It: Bem-vindos a Derry antecede os filmes de 2017 e 2019. Na prática, porém, a série funciona como uma celebração ambiciosa do universo de Stephen King. Assim, ao misturar horror cósmico, drama humano, conspirações militares e mitologia ancestral, a produção se permite expandir o material original sem perder sua essência.

Certamente não se trata apenas de reconhecer referências ou caçar easter eggs. Trata-se de entender que, em Derry, o mal é hereditário, a memória é uma maldição e o palhaço sempre encontra um jeito de voltar.

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Imagem da capa: Warner Bros. Pictures / Adaptação