De Frankenstein ao Monstro da Lagoa Negra, o cinema de horror construiu monstros que atravessaram décadas sem um nome próprio, reforçando a desumanização do “outro”
O horror clássico consolidou alguns dos personagens mais reconhecíveis da história do cinema. No entanto, muitos desses monstros nunca receberam um nome dentro das narrativas originais. Essa ausência não é casual. Ela cumpre uma função simbólica e narrativa que ajuda a entender como o gênero construiu suas ameaças ao longo do tempo.
Ao longo do século XX, o cinema de horror recorreu a criaturas que se tornaram universais justamente por não serem individualizadas. A falta de nome transforma esses personagens em conceitos, não em sujeitos. Isso afeta diretamente a forma como o público se relaciona com eles.
Frankenstein e o apagamento do indivíduo
O exemplo mais recorrente é o monstro de Frankenstein, criado por Mary Shelley em 1818 e adaptado inúmeras vezes pelo cinema. Apesar do uso popular, o nome Frankenstein identifica o criador, Victor Frankenstein, e não a criatura. A criatura, na obra original, não possui nome.

Essa escolha narrativa reforça a ideia de exclusão. A criatura nasce sem identidade social. Não pertence a lugar algum. Não é reconhecida como sujeito. O horror não vem apenas da aparência, mas da rejeição constante. No cinema clássico, especialmente na versão de 1931, essa ausência de nome contribui para a leitura do monstro como ameaça abstrata.
Sem nome, a criatura deixa de ser indivíduo. Ela passa a representar o medo do desconhecido, da ciência sem controle e daquilo que foge à norma social.
O Monstro da Lagoa Negra e a criatura como território
Outro caso emblemático envolve o “Monstro da Lagoa Negra“, apresentado em 1954. Na narrativa, a criatura, também chamada de Gill-man, não recebe um nome próprio. Em vez disso, o filme a define pelo espaço que ocupa. Trata-se do monstro da lagoa. Não de um indivíduo com história pessoal ou identidade reconhecida.

Nesse sentido, a construção do personagem dialoga diretamente com o contexto da época. O horror dos anos 1950, de forma recorrente, refletia tensões relacionadas à exploração territorial, ao avanço da ciência e ao medo do “outro” que vive fora da lógica da civilização. Assim, ao optar por não nomear a criatura, o filme reforça sua associação ao ambiente selvagem.
Além disso, a ausência de nome delimita o lugar do monstro dentro da narrativa, ele não pertence ao mundo humano. Ao contrário, ele surge como algo externo e exige observação à distância. Consequentemente, essa escolha facilita a leitura da criatura como obstáculo narrativo.
O monstro existe, sobretudo, para ser enfrentado, estudado ou eliminado. A ausência de identidade individual contribui para esse enquadramento e reforça uma lógica recorrente no horror clássico, na qual o cinema trata o desconhecido como uma ameaça que precisa controlar.
Outros monstros sem identidade própria
A lógica se repete em outros ícones do horror clássico. A Múmia, em muitas versões iniciais, é tratada apenas como uma entidade ancestral. O Lobisomem, frequentemente, é identificado pela condição, não pelo nome do homem afetado. O mesmo ocorre com diversas criaturas do cinema expressionista e do horror da Universal.

Mesmo quando existe uma identidade humana anterior, a narrativa costuma apagá-la no momento da transformação. O nome perde relevância. A condição monstruosa assume o controle da narrativa. Esse recurso simplifica conflitos e amplia o alcance simbólico. Um monstro sem nome pode representar qualquer ameaça. O público pode associá-lo a medos sociais, políticos ou culturais sem precisar de contextualização individual.
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Nomear é humanizar
A ausência de nome também funciona como estratégia de desumanização. Ao não nomear, o horror clássico cria distância emocional. O público não é convidado a compreender plenamente o monstro. Ele é visto como algo a ser temido ou contido. Em produções mais recentes, essa lógica começa a mudar. O horror contemporâneo tende a nomear, contextualizar e explorar subjetividades. Ainda assim, os monstros sem nome permanecem como referência estrutural do gênero.
Eles ajudam a entender como o cinema utilizou o medo como ferramenta narrativa. Apagar identidades foi uma forma de transformar personagens em símbolos duradouros. Ao revisitar essas figuras, fica claro que o horror clássico não apagava nomes por descuido. Fazia isso para construir monstros universais. Criaturas que atravessam gerações justamente por não pertencerem a ninguém.
Imagem de capa: Silver Screen Collection/Getty Images
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