Produções usam biografias, obras autorais e repertórios consagrados para narrar trajetórias artísticas através de musicais brasileiros

O teatro musical brasileiro ampliou sua presença no circuito cultural ao longo da última década. Parte desse movimento está associada a produções desenvolvidas no próprio país, que utilizam a música como eixo narrativo e ferramenta de reconstrução histórica. Esses espetáculos dialogam com diferentes períodos do Brasil e ajudam a organizar memória, contexto social e repertório artístico no palco.

Grande parte dessas montagens parte de trajetórias reais. Cantores, compositores, comunicadores e personagens centrais da cultura popular brasileira se tornam protagonistas. Em outros casos, obras consagradas do teatro e da música servem como ponto de partida. Em comum, está o esforço de traduzir experiências individuais em narrativas coletivas, acessíveis a públicos de diferentes gerações.

A seguir, uma lista de musicais criados no Brasil que ajudam a mapear a evolução do gênero no país. As produções abordam nomes fundamentais da música popular brasileira, da televisão e do teatro. Elas também refletem transformações estéticas e narrativas do musical nacional ao longo dos anos.

Elis, A Musical (2024)

Musicais brasileiros
Laila Garin como Elis Regina | Crédito: Caio Gallucci/Divulgação

Elis, A Musical” conta com Laila Garin no papel de Elis Regina (1945-1982), uma atuação que marcou sua carreira e se tornou referência na cena musical brasileira. Desde a estreia, em 2013, o musical soma mais de 350 apresentações e um público superior a 325 mil espectadores, consolidando-se como um dos maiores sucessos do teatro musical nacional. A obra revisita a vida e a trajetória artística de Elis por meio de mais de 50 números musicais, que recriam momentos emblemáticos e canções que marcaram sua voz e sua época.

Com texto de Nelson Motta e Patrícia Andrade, o espetáculo percorre episódios centrais da vida da cantora, como o início da carreira, as relações pessoais e profissionais, além de parcerias decisivas, sempre tendo como pano de fundo o contexto político e cultural do Brasil das décadas de 1950, 1960 e 1970. Premiado por importantes instituições do teatro, “Elis, A Musical” reafirma sua relevância ao preservar e recontar o legado de uma das maiores intérpretes da música brasileira.

Tim Maia – Vale Tudo (2025)

Musicais brasileiros - Tim Maia
Elenco no palco | Crédito: Stephan Solon/Divulgação

Tim Maia – Vale Tudo” apresenta a trajetória do Síndico em um musical que combina humor, emoção e música ao vivo. Tudo isso para contar a história de um dos artistas mais intensos da música brasileira. A montagem acompanha Tim (1942-1998) desde a juventude entre os Estados Unidos e o Rio de Janeiro até a consagração. Assim, apostando em um texto ágil que dialoga diretamente com o público e rompe a quarta parede.

Thór Junior interpreta Tim Maia com forte presença cênica e vocal, enquanto um elenco afiado sustenta a narrativa e as falas cantadas, criando um espetáculo que funciona tanto como biografia quanto como celebração. Com cerca de 20 sucessos no repertório, o musical transforma o teatro em um show participativo, revisita encontros marcantes da carreira do cantor e reafirma a força, a contradição e o legado de um artista que segue vivo na memória coletiva.

Chacrinha, o Musical (2015)

Chacrinha, o Musical
O musical recria a atmosfera do Cassino do Chacrinha | Crédito: Caio Gallucci / Divulgação

Chacrinha, o Musical” reconstruiu a trajetória de Abelardo Barbosa (1917-1988), o Velho Guerreiro, a partir de diferentes fases de sua vida artística. A encenação acompanhou o caminho do comunicador desde as origens em Pernambuco até a consolidação como uma das figuras centrais do rádio e da televisão brasileira. Stepan Nercessian assumiu o papel principal e conduziu a narrativa que destacou a criação de bordões, a relação direta com o público e o espaço ocupado por Chacrinha como revelador de artistas da música popular brasileira.

Com texto de Pedro Bial e Rodrigo Nogueira, o espetáculo marcou a estreia de Andrucha Waddington na direção teatral. A montagem reuniu direção musical e arranjos de Delia Fischer, coreografias e direção de movimento de Alonso Barros, figurinos de Claudia Kopke e cenografia de Gringo Cardia. A trilha sonora incorporou mais de 60 canções que circulararam pelos programas do apresentador e ajuda a contextualizar o impacto cultural de Chacrinha na história do entretenimento nacional.

O Musical Mamonas (2016)

O Musical Mamonas
O mote da peça é: os Mamonas contando sua história | Crédito: Rodrigo Rosa/Divulgação

O Musical Mamonas” partia de uma proposta metalinguística ao colocar os próprios integrantes da banda como narradores de sua trajetória. A história começa em um espaço simbólico, próximo ao céu, onde o quinteto recebe a missão de contar sua própria vida no formato de musical. A encenação acompanha a transformação da banda Utopia nos Mamonas Assassinas. Passando desde a entrada de Dinho, passando pela criação das músicas que marcaram os anos 1990 e pela rápida ascensão nacional.

No palco, os atores tocam ao vivo releituras de canções como “O Vira”, “Robocop Gay”, “Pelados em Santos” e “Sabão Crá-Crá”. O texto de Walter Daguerre adota o humor escrachado que caracterizou a banda. Enquanto isso, a direção de José Possi Neto, com direção musical de Miguel Briamonte estrutura a narrativa entre comédia, memória e música.

Ópera do Malandro – Musical (2026)

Musicais brasileiros - Ópera do Malandro
Amaury Lorenzo e Valéria Barcellos | Crédito: Priscila Prade/Divulgação

Ópera do Malandro – Musical” retorna aos palcos como uma releitura contemporânea. A nova montagem celebra quase cinco décadas do texto de Chico Buarque e propõe uma encenação atual, provocadora e conectada ao tempo presente. Sob direção de Jorge Farjalla, o espetáculo atualiza a obra sem diluir seu caráter crítico e político.

A dramaturgia dialoga diretamente com “A Ópera dos Três Vinténs“, de Bertolt Brecht, ao mesmo tempo em que incorpora elementos do sincretismo popular brasileiro. A presença de referências à umbanda e às entidades do “povo da rua” amplia a dimensão simbólica da narrativa e reforça o tom irônico e carnavalesco que atravessa a encenação. José Loreto assume o papel de Max Overseas Navalha, personagem central que conduz a trama em meio a relações marcadas por oportunismo, alianças instáveis e disputas de poder.

Nossa História com Chico Buarque (2025)

Nossa História com Chico Buarque
O musical passeia pela história de 21 personagens | Crédito: Renato Mangolin/Divulgação

Nossa História com Chico Buarque” utiliza a obra do compositor como eixo narrativo para revisitar momentos recentes da história do Brasil. Idealizado e produzido por Andréa Alves, da Sarau Cultura Brasileira, o musical parte de três marcos temporais: 1968, 1989 e 2022; para articular música, teatro e contexto político.

A dramaturgia, assinada por Rafael Gomes e Vinícius Calderoni, propõe uma leitura do país a partir das canções, dos textos e das peças de Chico Buarque, conectando ditadura, redemocratização e pandemia em uma mesma linha de reflexão. Com mais de 50 músicas integradas à narrativa e novos arranjos sob direção musical de Alfredo Del-Penho, o espetáculo constrói um retrato coletivo ao reunir diferentes gerações em cena.

Rita Lee – Uma Autobiografia Musical (2025)

Rita Lee - Uma Autobiografia Musical
Um tributo para a rainha do rock | Crédito: João Caldas/Divulgação

Rita Lee – Uma Autobiografia Musical” parte do próprio livro da artista para construir uma narrativa cênica baseada em memória, relato direto e trajetória profissional. Estrelado por Mel Lisboa, o espetáculo revisita episódios centrais da vida de Rita Lee. Desde a infância aos anos de consagração, passando pela prisão durante a ditadura, pelas formações musicais que marcaram sua carreira e pelo ativismo que atravessou sua obra.

A dramaturgia organiza esses acontecimentos sem idealização, acompanhando os altos e baixos relatados pela própria cantora em sua autobiografia. Em cena, a encenação articula música e depoimento para mostrar como Rita construiu sua identidade artística em meio a censura, transformações culturais e disputas de mercado. A resposta do público, que frequentemente reage como em um show, reforça o caráter coletivo da obra de Rita Lee. Assim, evidenciando como sua trajetória segue mobilizando diferentes gerações.

Silvio Santos Vem Aí (2023)

Silvio Santos Vem Aí
Crédito: Adriano Dória/Divulgação

Silvio Santos Vem Aí” utiliza a linguagem do musical para revisitar a trajetória de Senor Abravanel (1930-2024) a partir da memória televisiva que marcou gerações. A encenação opta por uma narrativa não linear, estruturada como uma viagem do próprio apresentador por momentos decisivos de sua vida pessoal e profissional. Programas emblemáticos do SBT são um dos fios condutores.

O espetáculo desloca o foco das controvérsias mais recentes para a construção midiática do comunicador, explorando bastidores, relações afetivas e ambições empresariais. A interação constante com a plateia reforça a dimensão de auditório que caracterizou a carreira de Silvio Santos, enquanto a interpretação de Velson D’Souza busca equilíbrio entre reconhecimento público e humanização do personagem.

Djavan – O Musical: Vidas pra Contar (2025)

Djavan – O Musical Vidas pra Contar
Cena da peça | Crédito: Reprodução Instagram/@djavanomusical

Djavan, o Musical: Vidas pra Contar” constrói sua narrativa a partir da relação entre vida e obra do cantor alagoano, sem seguir uma ordem cronológica rígida. O espetáculo utiliza as canções como eixo dramático para apresentar diferentes fases da trajetória de Djavan. Assim, conectando experiências pessoais, processos criativos e temas recorrentes de sua música.

Raphael Elias interpreta o artista com foco na construção vocal e corporal, evitando a imitação direta. A encenação alterna momentos dramáticos e passagens pontuais de humor. Ela é apoiada por um elenco que representa figuras centrais da MPB e por um narrador que conduz as transições temporais. O musical propõe uma leitura cênica da obra de Djavan como memória coletiva e elemento estruturante da narrativa.

Clara Nunes – A Tal Guerreira (2025)

Musicais brasileiros - Clara Nunes - A Tal Guerreira
Emanuelle Araújo como Clara Nunes | Crédito: Flavia Canavarro/Divulgação

Clara Nunes – A Tal Guerreira” propõe uma leitura simbólica da trajetória da cantora a partir de uma construção cênica que mistura memória, espiritualidade e música popular brasileira. O musical acompanha Clara em um processo de transição entre vida e eternidade, guiada por Bibi Ferreira e por referências às religiões de matriz africana.

A encenação transforma um barracão de escola de samba em eixo narrativo, onde passado, presente e futuro se sobrepõem. Com Emanuelle Araújo (Samantha!) no papel principal, o espetáculo utiliza canções do repertório de Clara Nunes para abordar temas como identidade, religiosidade, cultura popular e a presença da mulher na música brasileira, destacando sua importância histórica no mercado fonográfico e na construção de um imaginário coletivo ligado ao samba e à fé.

Imagem de capa: Caue Moreno | Adriano Dória | Flavia Canavarro/Divulgação