Em “Candura”, a jovem autora revisita seis anos de escrita para construir um livro visceral em que a reconstrução de um corpo violentado vira ato de resistência
“Candura” (editora Toma Aí Um Poema), primeiro livro da autora Alice Puterman, nasceu a partir da necessidade de encontrar na escrita uma ferramenta de sobrevivência. Escrito ao longo de seis anos, a obra explora o que significa ser mulher em um país onde os índices de estupro não param de crescer. A obra terá sessão de lançamento na Casa Gueto, durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), no final de julho.
Aviso de conteúdo: esta reportagem aborda violência e pode conter descrições que causam desconforto. Recomendamos cautela ao prosseguir com a leitura.
Aviso de conteúdo: esta matéria aborda temas relacionados à saúde mental e suicídio.
No prefácio, Puterman estabelece o tom da obra em uma frase sucinta, mas potente: “Não sei dizer onde a violência começa em minha vida, mas a violência que eu cometo à mim mesma termina com estas páginas”. Ao longo de 94 páginas, o livro reconta um momento traumático que a autora viveu aos 17 anos – um estupro coletivo. Durante o isolamento físico da pandemia, ela pode começar a processar essa violação que sofreu a partir da escrita.
Com o diagnóstico de Transtorno de Estresse Pós-Traumático, a autora seguiu escrevendo não com a intenção de publicar, mas para criar um lugar onde a dor pudesse existir. Assim, seu objetivo é que sua obra promova conversas sinceras, para que as vítimas dessa violência sexual se sintam confortáveis de compartilhar suas histórias.
Mais sobre o livro
No desenvolver da obra, o corpo feminino aparece como território ocupado, mas também como espaço de resistência. Portanto, a escrita de Puterman se recusa a oferecer respostas fáceis e busca ir além da subserviência que a violência propaga. Em versos que alternam a dor bruta com uma delicadeza esperançosa, a autora convida o leitor a mergulhar, ouvir e respeitar a potência dessa história. Um elemento de destaque é a metáfora da casa, que percorre o fio narrativo, e transforma o corpo que precisa ser redescoberto depois da invasão.
“A partir do momento que eu redecorar as paredes, a casa será outra, mas não é, é a mesma que eles arrombaram e depredaram”, escreve a autora.
Ainda mais, o título “Candura” carrega um significado que complementa a visceralidade dos poemas. Segundo ela, o substantivo é uma qualidade de quem é ingenuamente crente, amável e puro. Na intenção de subverter o cândido como “fraco”, ela repensa como as mulheres foram ensinadas a irem atrás dessa pureza, e como encontram a força dentro da norma.
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A saúde mental é outro eixo central da obra, que aborda temas densos como tentativas de suicídio, internações, eletrochoques. No entanto, o livro também explora o processo de aprender a conviver com o diagnóstico recebido. A ideia é mergulhar em como a escrita não sara feridas, mas dá nome aos atos violentos e diminui um pouquinho o seu poder.
Se você ou alguém que você conhece precisa de ajuda, entre em contato com as autoridades e ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) e faça uma denúncia anônima.
Se você ou alguém que conhece precisa de apoio emocional, procure ajuda profissional ou entre em contato com o Centro de Valorização da Vida pelo telefone 188. O atendimento é gratuito e funciona 24 horas em todo o Brasil.
Imagem de capa: Divulgação
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