A escolha de elenco em “O Morro dos Ventos Uivantes” levantou debates sobre o embranquecimento de personagens racializados no cinema

O longa “O Morro dos Ventos Uivantes”, nova adaptação do clássico de Emily Brontë, chega aos cinemas brasileiros na próxima quinta-feira (12). Dirigido por Emerald Fennell, o filme narra o romance conturbado entre Catherine (Margot Robbie) e Heathcliff (Jacob Elordi).

No entanto, apesar de ser inspirada em uma obra consagrada da literatura, a produção vem enfrentando duras críticas antes mesmo de sua estreia. Das escolhas estéticas ao elenco, o projeto divide opiniões entre o público e a crítica especializada. Um dos pontos mais debatidos é a escalação de Jacob Elordi para viver Heathcliff. Mas por que essa decisão é tão polêmica? Entenda a seguir.

A fisionomia de Heathcliff

No romance original, Heathcliff é descrito como um homem não branco. Embora sua etnia nunca seja explicitamente confirmada, o texto deixa claro que sua aparência difere drasticamente da dos demais personagens — aristocratas britânicos de pele clara.

Logo no primeiro capítulo, o narrador o descreve como “um cigano de pele escura na aparência”. Em outro trecho, desta vez no capítulo quatro, sua fisionomia também é destacada.

” — Veja só, mulher! Nunca vi coisa igual; mas você tem de encará-lo como uma dádiva do Senhor, embora seja tão escuro que mais pareca vir do Diabo.

Juntamo-nos à volta dele e, espiando por cima da cabeça de Cathy, vi um garoto de cabelos pretos, sujo e esfarrapado.”

Além disso, existe a insinuação de que Heathcliff não seria europeu como os outros personagens da obra. Nelly Dean, a empregada da residência da família de Catherine, levanta hipóteses de que o menino pudesse ter ascendência chinesa ou indiana, reforçando sua caracterização como alguém racialmente deslocado naquele contexto social.

Esses elementos indicam que Heathcliff ocupa uma posição de estranheza dentro da narrativa, marcada não apenas pela pobreza, mas também pela diferença racial.

Jacob Elordi como Heathcliff na nova adaptação de "O Morro dos Ventos Uivantes"
Jacob Elordi como Heathcliff na nova adaptação de “O Morro dos Ventos Uivantes”. Crédito: Reprodução/IMDb

Exclusão social como motor da vingança

O conflito central do personagem envolve Edgar Linton, aristocrata que se casa com Catherine. Mais do que um rival amoroso, Linton representa tudo aquilo que Heathcliff não pode alcançar: privilégio social, estabilidade financeira e aceitação.

Descrito como branco, loiro, de olhos azuis, educado e pertencente a uma família estruturada, Edgar simboliza o padrão ideal da elite britânica. Já Heathcliff é um órfão marginalizado, privado de educação e alvo constante de violência e preconceito.

Dessa forma, Linton é um espelho que reflete os preconceitos sofridos por Heathcliff. Quando Catherine afirma que jamais poderia assumir um relacionamento com Heathcliff e escolhe casar-se com Edgar por conveniência econômica e social, o jovem “cigano” perde mais uma batalha contra a sociedade britânica.

Essa exclusão molda sua personalidade e alimenta seu desejo de vingança. Inclusive, o próprio Heathcliff lamenta não possuir a aparência de Linton, associando traços físicos claros a uma vida mais fácil e respeitada.

” — Nelly, mesmo que eu o derrubasse vinte vezes, isso não o tornaria menos bonito nem a mim menos feio. Como eu queria ter o cabelo louro e pele clara, vestir-me e comportar-me bem e ter uma chance de vir a ser tão rico como ele!” — Trecho do capítulo sete de “O Morro dos Ventos Uivantes”.

Portanto, as diferenças raciais e sociais entre os dois não são meramente estéticas. Suas fisionomias são fundamentais para o desenvolvimento dramático da história.

A inversão de papéis na adaptação

Na versão de Emerald Fennell, Heathcliff é interpretado por Jacob Elordi, ator branco australiano. Já Shazad Latif, ator britânico de ascendência paquistanesa, assume o papel de Edgar Linton.

Essa inversão altera profundamente a dinâmica simbólica entre os personagens. Apesar de sua riqueza, Linton deixa de representar o privilégio racial, enquanto Heathcliff perde a dimensão do preconceito étnico que sustenta parte de sua trajetória.

Dessa forma, o embate entre os dois passa a ser apenas econômico e social, esvaziando as discussões raciais sugeridas pelo texto original.

Shazad Latif em "O Morro dos Ventos Uivantes"
Shazad Latif como Edgar Linton em “O Morro dos Ventos Uivantes”. Crédito: Reprodução/Warner Bros

Sem o debate racial, o que sobra em “O Morro dos Ventos Uivantes”?

Em entrevista ao Fandango, Emerald Fennell afirmou que seria impossível realizar uma adaptação totalmente fiel ao livro, defendendo o filme como uma releitura do clássico. No entanto, ao ignorar questões raciais presentes na obra de Brontë, a narrativa perde camadas importantes de significado. As críticas à escalação de Elordi não dizem respeito ao talento do ator, mas ao histórico recorrente de embranquecimento de personagens racializados em produções hollywoodianas.

Assim, sem essa dimensão estrutural do preconceito, “O Morro dos Ventos Uivantes” corre o risco de se reduzir a mais uma história de amor proibido, clichê nas histórias de romance, enfraquecendo a complexidade social que tornou o romance original tão relevante desde seu lançamento em 1847.

Imagem de capa: Reprodução/Warner Bros