Uma tradição popular marcada por riso, crítica social e violência simbólica revela um lado perturbador que parece saído diretamente de um filme de terror folk
Uma tradição que atravessa séculos
A cada ano, durante o período da Páscoa, ruas e praças de diversas cidades brasileiras se tornam palco de uma tradição curiosa e, se olharmos com mais atenção, profundamente inquietante. A chamada “Malhação de Judas” consiste em espancar, enforcar ou queimar um boneco que representa Judas Iscariotes, o traidor de Jesus Cristo.
A prática tem origem em costumes europeus medievais, quando punições públicas, ainda que simbólicas, serviam como forma de controle social e catarse coletiva. Ao chegar ao Brasil, o ritual ganhou novas camadas e passou a refletir também o contexto social de cada época.
Com o passar do tempo, o boneco de Judas deixou de representar apenas a figura bíblica e passou a incorporar personagens contemporâneos, políticos, figuras públicas e até pessoas da comunidade. Ou seja, o ritual se transformou em um verdadeiro julgamento popular.
Essa adaptação torna a tradição ainda mais complexa: não é apenas sobre religião, mas sobre crítica, insatisfação e a necessidade de apontar culpados. É quase como um “vilão da vez”, escolhido coletivamente para ser punido diante de todos.

Violência como espetáculo e catarse coletiva
É aqui que o tom muda completamente. A “Malhação de Judas” não é só simbólica, ela encena violência de forma explícita. O boneco é espancado, arrastado, destruído e muitas vezes queimado em público, enquanto espectadores assistem e participam ativamente.
Em algumas regiões, a leitura do chamado “testamento de Judas” antecede a execução, trazendo críticas sociais em tom sarcástico. Esse momento mistura humor com julgamento moral, criando uma atmosfera que lembra um ritual coletivo, algo que facilmente poderia ser transportado para um filme de terror psicológico ou folk horror.
Culturalmente, a tradição funciona como uma válvula de escape. É uma forma de extravasar frustrações, criticar estruturas de poder e simbolicamente “expulsar o mal” antes de um novo ciclo.
Mas, olhando por outro ângulo, existe algo mais perturbador. Existe a necessidade humana de encontrar um culpado e concentrar nele toda a raiva coletiva. O famoso bode expiatório ganha forma física, e é destruído diante de todos.

Malhação de Judas e Midsommar: quando a cultura encontra o horror
Se você olhar com atenção, a conexão entre a Malhação de Judas e “Midsommar – O Mal Não Espera a Noite”, de Ari Aster, é mais natural e perturbadora do que parece. Ambos partem de um mesmo princípio, são rituais coletivos que fazem sentido dentro de um contexto cultural, mas que, vistos de fora, causam um desconforto quase imediato.
Nos dois casos, existe uma comunidade reunida em torno de um ato simbólico que envolve punição e violência. Em Midsommar, tudo é iluminado, bonito e até acolhedor, até que os sacrifícios começam. Já na Malhação de Judas, o clima é festivo, com humor e crítica social, mas o ato central continua sendo a destruição pública de um “culpado”. A estética muda, mas o impacto é o mesmo,algo ali não deveria parecer tão normal.
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O bode expiatório e a violência ritualizada

Esse paralelo fica ainda mais forte na ideia do bode expiatório. Tanto no ritual brasileiro quanto no filme, alguém é escolhido para carregar a culpa coletiva. Na Malhação de Judas, isso recai sobre o boneco que representa Judas ou figuras odiadas. Em Midsommar, a escolha é literal, alguém precisa ser sacrificado para manter o equilíbrio do grupo. É um conceito simples, mas profundamente assustador, porque revela algo muito humano: a necessidade de punir para seguir em frente.
Outro ponto em comum é a forma como a violência é organizada. Nada é caótico. Existe preparação, significado e até uma certa “justificativa moral”. Na Malhação de Judas, há leitura de testamento e execução pública. Em Midsommar, cada ato segue regras e simbolismos próprios. Quando a violência deixa de ser impulsiva e passa a ser ritualizada, ela se torna ainda mais perturbadora.
Talvez o mais inquietante seja perceber que, enquanto Midsommar é ficção, a Malhação de Judas é real, acontece todos os anos e faz parte da cultura popular. O filme apenas exagera algo que já existe, que é a capacidade humana de transformar tradição em espetáculo de punição.
No fim, a comparação deixa uma sensação incômoda. Porque mostra que o verdadeiro terror não está apenas nas histórias inventadas… mas nas práticas que a gente aprendeu a aceitar como normais.
Quando o terror sai das telas
Com o passar dos anos, algumas cidades passaram a abandonar a prática por conta do desconforto que ela gera, enquanto outras seguem mantendo o ritual como parte de sua identidade cultural.
Esse contraste mostra como a tradição está sendo reinterpretada. E talvez esse seja o ponto mais interessante e assustador. Porque no fim, a “Malhação de Judas” prova que o terror não vive apenas no cinema. Ele está nas tradições, nos rituais e, principalmente, na forma como lidamos com culpa, punição e justiça.
Crédito: Imagem gerada por IA
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