Releitura de “Dona Beja” aposta em narrativa frenética, trilha moderna e forte discurso sobre liberdade feminina nos primeiros cinco episódios
Nos primeiros cinco episódios de “Dona Beja”, a nova aposta da HBO Max para o formato de novelas no streaming, fica claro que a produção não pretende caminhar pelo terreno da reverência nostálgica. A série assume, desde o início, o risco de atualizar uma história conhecida, apostando em ritmo, estética e discurso alinhados ao presente. O resultado inicial é ambicioso, irregular em alguns momentos, mas inegavelmente instigante.
Inspirada livremente na vida de Ana Jacinta de São José, mulher real que viveu no século XIX em Araxá (MG), a novela apresenta uma protagonista que desafia normas morais, estruturas de poder e o julgamento constante de uma sociedade conservadora. Aqui, é importante destacar: trata-se de uma releitura, não de um remake da versão exibida pela TV Manchete em 1986. Essa escolha guia toda a construção da obra.
Uma releitura consciente do gênero
A narrativa criada por António Barreira e Daniel Berlinsky adota uma estrutura não linear, alternando passado e presente para explicar como os personagens se tornaram quem são. A ideia é clara: aproximar o público contemporâneo de uma história de época sem engessá-la em convenções antigas. Funciona em boa parte do tempo, especialmente quando o foco está em Dona Beja (Grazi Massafera).

Nos cinco episódios iniciais, a trama vai do ponto A ao ponto B de forma direta e, por vezes, acelerada demais. A montagem frenética faz com que temas importantes, como racismo, sexualidade e conflitos dos coadjuvantes, surjam e desapareçam rapidamente. Isso gera a sensação de que há mais a ser dito do que o tempo permite mostrar. Ainda assim, essa opção reforça a centralidade absoluta da protagonista, o que foge do modelo tradicional de novelas, mas faz sentido dentro da proposta.
Grazi Massafera sustenta a narrativa
O maior acerto dessa primeira leva de episódios, portanto, está na evolução da personagem-título. Grazi Massafera entrega uma atuação segura, intensa e, sobretudo, progressivamente mais complexa. Já nos cinco primeiros capítulos, é possível identificar uma transformação clara em Dona Beja. Essa mudança se manifesta nos planos emocional, simbólico e narrativo. Trata-se de uma personagem que aprende com os erros, reage às pressões externas e se reconstrói diante das adversidades.

Nesse sentido, essa construção dialoga diretamente com a ideia central defendida pela obra. Beja não nasce pronta. Ao contrário, ela se forma ao longo do caminho. Assim, a força da personagem não está em sua posição social. Está, principalmente, na capacidade de resistir, se adaptar e seguir em frente. Isso ocorre mesmo sob constante vigilância e julgamento moral, elementos que atravessam toda a narrativa.
Além disso, David Junior, no papel de Antônio, funciona como um contraponto emocional relevante. Seu personagem incorpora a noção de legado e ancestralidade. Dessa forma, atua como uma âncora racional em meio ao turbilhão que envolve Beja. Consequentemente, a química entre os dois sustenta com eficiência o arco central da trama e fortalece o envolvimento do público com a história.
Vilania em construção
Se Dona Beja cresce rapidamente, o mesmo pode ser dito da vilania. Maria (Indira Nascimeto) desponta como uma antagonista facilmente detestável, movida por emoções reprimidas, mal elaboradas e ressentimento. Já Ceci, vivida por Deborah Evelyn, surge como uma vilã potencialmente mais perigosa. Seu racismo velado, inserido em um casamento interracial, é tratado de forma desconfortável, como deve ser.
Deborah entrega uma atuação precisa, deixando claro que Ceci ainda tem muito a revelar. A personagem carrega uma vilania mascarada, socialmente aceita, que promete ganhar camadas ao longo da novela. É um dos pontos mais promissores da narrativa.

Representatividade, estética, trilha e ambientação
Visualmente, “Dona Beja” impressiona. Os cenários, figurinos e o design de produção são impecáveis e transportam o espectador para 1815 com eficiência. A direção de Hugo de Sousa acerta ao variar enquadramentos e iluminação para diferenciar tempos narrativos e estados emocionais.
Outro destaque é a trilha sonora. Moderna, precisa e bem posicionada, ela entra nos momentos-chave, sempre acrescentando significado emocional. É um recurso usado com inteligência, que reforça a identidade da obra.
A novela também se destaca pela representatividade evidente. Mulheres livres, personagens negros, diversidade sexual e corpos fora do padrão ocupam espaço central, não como discurso isolado, mas integrados à narrativa. Ainda que alguns desses temas apareçam de forma rápida demais nos primeiros episódios, sua presença é constante e clara.
O episódio 5 encerra o primeiro ciclo da novela com um plot twist eficaz, que reorganiza o tabuleiro narrativo e cria expectativa real para os próximos capítulos, previstos para estrear em 9 de fevereiro. A sensação é de fechamento e, ao mesmo tempo, de abertura para conflitos mais profundos.

Uma novela que arrisca e provoca
“Dona Beja” se apresenta como uma produção ousada, frenética e pouco confortável. Nem sempre acerta o ritmo, sacrifica coadjuvantes e exige atenção constante do público. Ainda assim, entrega algo raro no formato: uma protagonista complexa, um discurso atual e a coragem de não ser puritana.
Se os próximos episódios conseguirão equilibrar melhor tempo, profundidade e desenvolvimento de personagens, só o avanço da temporada dirá. Por enquanto, os cinco primeiros capítulos deixam uma impressão clara: esta é uma novela que quer provocar, incomodar e dialogar com o presente.
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Vale a pena assistir “Dona Beja”
Sim. Os primeiros cinco episódios de “Dona Beja” justificam a aposta. Apesar de excessos de ritmo e algumas escolhas narrativas apressadas, a novela se sustenta pela força da protagonista, pela trilha sonora eficiente, pela estética cuidadosa e pelo discurso relevante. É uma releitura que entende seu tempo, assume riscos e aponta caminhos interessantes para a teledramaturgia no streaming.
Imagem de capa: Reprodução/IMDB
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