Ryan Murphy retorna ao terror corporal com “The Beauty” sátira afiada, excesso calculado e uma crítica incômoda aos padrões de beleza contemporâneos

Depois de uma sequência de projetos irregulares, Ryan Murphy reaparece em forma com “The Beauty: Lindos de Morrer“, série que, já nos três primeiros episódios, deixa claro que não se trata apenas de mais um exercício de choque visual. A produção aposta no exagero, no grotesco e no absurdo para construir uma narrativa que mistura terror corporal, investigação criminal e comentário social, recuperando parte da potência criativa que marcou a fase mais elogiada do produtor na televisão.

Uma abertura que anuncia o tom

A série começa sem pedir licença. Logo na sequência inicial, uma supermodelo interpretada por Bella Hadid atravessa Paris em um surto de violência, destruindo tudo ao redor antes de um desfecho literalmente explosivo. O impacto não está apenas na carnificina, mas no simbolismo: a beleza, elevada ao status máximo na cultura da moda, torna-se também um agente de morte. É um cartão de visitas claro para o espectador, “The Beauty” não pretende ser sutil.

Essa abertura funciona como síntese da proposta. O choque visual não é gratuito; ele estabelece o universo da série, no qual glamour, consumo e horror caminham lado a lado. Diferentemente de projetos recentes de Murphy que se perdiam no excesso, aqui o exagero parece calculado, organizado dentro de uma estrutura narrativa mais consciente.

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Bella Hadid em “The Beauty” | Crédito: FX/Divulgação

Terror corporal como comentário social

Inserida firmemente no gênero do terror corporal, a série explora transformações físicas extremas, corpos que se modificam, adoecem e colapsam. A diferença é que, em vez de tratar a deformidade como ameaça, “The Beauty” inverte a lógica: o perigo nasce da perfeição. O vírus que se espalha sexualmente torna seus hospedeiros mais jovens, mais saudáveis e mais belos, antes de levá-los a mortes públicas e grotescas.

A ideia dialoga diretamente com debates contemporâneos sobre padrões estéticos irreais, procedimentos invasivos, cultura da performance e mercantilização do corpo. Murphy e o cocriador Matthew Hodgson não escondem o subtexto. A crítica está na superfície, às vezes de forma escancarada, mas sustentada por uma narrativa que se mantém ágil e provocativa nos episódios iniciais.

Investigação, intimidade e contradições

No centro da trama estão os agentes do FBI Jordan Bennett (Rebecca Hall) e Cooper Madsen (Evan Peters), enviados para investigar uma sequência de mortes de supermodelos na Europa. A relação entre os dois, marcada por intimidade, desejo e negação emocional, oferece um contraponto humano ao caos ao redor.

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“The Beauty” estreou com 3 episódios | Crédito: FX/Divulgação

Jordan é uma personagem especialmente significativa dentro do discurso da série. Mesmo ocupando uma posição de poder e autoridade, ela não escapa das pressões estéticas que moldam a sociedade. Sua decisão de fazer implantes de silicone, apresentada sem dramatização excessiva, reforça um dos pontos mais interessantes da narrativa: ninguém está imune à tirania da beleza, nem mesmo quem teoricamente deveria estar acima dela.

O vínculo entre Jordan e Cooper, embora inserido em um universo satírico, é um dos elementos mais autênticos dos três primeiros episódios. Murphy parece consciente de que, para sustentar o excesso, precisa ancorar a história em relações emocionalmente críveis, algo que faltou em parte de sua produção recente.

O poder, o mercado e a estética como produto

À medida que a investigação avança, a série apresenta Byron Forst (Ashton Kutcher), bilionário da tecnologia que se autodenomina “A Corporação” e é o criador da substância original chamada “A Beleza”. O personagem encarna uma crítica direta ao capitalismo tecnológico e à lógica de mercado aplicada ao corpo humano. Nada é ético, legal ou médico o suficiente para impedir a monetização da aparência.

Review - The Beauty
Ashton Kutcher na série | Crédito: FX/Reprodução

Kutcher entrega uma performance deliberadamente exagerada, quase caricatural, mas alinhada ao tom da série. Seu Forst não é apenas um vilão tradicional, mas a personificação de um sistema que transforma inseguranças em lucro. Ao seu redor, figuras como o assassino interpretado por Anthony Ramos (Twisters) ajudam a expandir o universo da série para além do thriller investigativo, aproximando-o de uma sátira violenta sobre controle, imagem e poder.

Episódios fragmentados, mundo em expansão

Um dos acertos dos primeiros episódios está na estrutura fragmentada. Inspirada nos quadrinhos que originaram a série, “The Beauty” se permite sair do eixo central da investigação para apresentar vinhetas e histórias paralelas. Há espaço para dilemas familiares, conflitos identitários e pequenas tragédias pessoais causadas pela promessa da perfeição.

Esses desvios impedem que a série se torne repetitiva e ampliam o alcance temático da narrativa. Nem todas as subtramas têm o mesmo peso dramático, e algumas beiram a caricatura, mas o conjunto contribui para a construção de um mundo coerente, ainda que caótico.

"The Beauty" de Ryan Murphy
Cena da série | Crédito: Reprodução/IMDB

Entre o excesso e o controle

É verdade que “The Beauty” não busca sutileza. Seus diálogos por vezes explicitam demais ideias que poderiam ser apenas sugeridas. Algumas transformações físicas se tornam previsíveis após a repetição. E há uma contradição evidente, personagens “comuns” interpretados por atores extremamente atraentes, que enfraquece parte do discurso crítico.

Ainda assim, nos três primeiros episódios, esses problemas não comprometem a experiência. Diferentemente de outros trabalhos recentes de Murphy, aqui o excesso não sufoca a narrativa. Ele a impulsiona.

Vale a pena assistir “The Beauty: Lindos de Morrer”

Nos episódios iniciais, “The Beauty: Lindos de Morrer” se mostra um retorno sólido de Ryan Murphy a uma forma mais inspirada de contar histórias. A série combina terror corporal, sátira social e investigação criminal em uma narrativa que, embora escancarada em suas intenções, é envolvente, provocativa e visualmente marcante.

Não é uma obra sutil nem pretende ser. Mas é consistente, criativa e surpreendentemente bem estruturada dentro do caos que propõe. Para quem acompanha a trajetória de Murphy, a série representa um alívio e uma retomada de identidade. Para o público em geral, é uma experiência desconfortável, instigante e, acima de tudo, difícil de ignorar.

Imagem de capa: Reprodução/IMDB