Quem diria que todas as freiras que precedem a modernidade já viveram o presente e conquistaram as respostas mais desafiadoras? É esse o escopo que o livro “A sabedoria das noviças – Conselhos do século XVI para problemas do século XXI” (BestSeller, selo Editora Record), de Ana Garriga e Carmen Urbita, aborda.
Com uma escrita atual e divertida, mas às vezes exagerada em seus detalhes, a obra comenta sobre como a cultura monástica está próxima da cultura pop contemporânea. De maneira a enfraquecer o imaginário coletivo de que todas essas figuras foram mártires absolutos, o livro reconta a vida pouco convencional das freiras dos séculos XVI e XVII.
Assim, “A sabedoria das noviças” comenta desde problemas com dinheiro, amizades que beiram a codependência, “ficantes premium”, até as complicações da vida corporativa. Ainda mais, o grande objetivo do livro é construir um guia para lidar com os problemas dos tempos modernos, de acordo com os conselhos das santas. Por isso, Santa Teresa de Jesus, Sor Juana Inés de la Cruz, María de San José e Benedetta Carlini são, curiosamente, algumas das figuras mais sábias do nosso tempo.
Desde cedo, as autoras construíram um fascínio pela ética religiosa e, em especial, pela iconografia católica. Ao se encontrarem na Brown University, Garriga e Urbita passaram a dedicar todo o seu tempo – de maneira tão devota que impressionaria as santas – ao estudo acadêmico das freiras. Assim, a dupla passou a desvendar biografias, correspondências e tratados espirituais das figuras.
Como o livro se organiza
Com pouco mais de 200 páginas, a obra divide seus ensinamentos em sete áreas: amigas, trabalho, corpo, amor, dinheiro, alma e fama. Assim, cada nicho passa por diferentes figuras emblemáticas da Igreja Católica dos séculos XVI e XVII, recontando histórias, dissecando cartas e decifrando textos complexos.
Na seção “Amigas”, elas contam a história da amizade codependente entre Teresa de Jesus e sua pupila, María de San José (antes María de Salazar). Entre as cartas trocadas, os presentes enviados e as intrigas não proclamadas, a relação das duas era intensa. Mas, além dessa amizade, as autoras criam um paralelo interessante entre os séculos:
“Essa resistência obstinada a algumas normas sociais talvez seja, em certa medida, o motivo do ressurgimento da estética das freiras. Vemos isso em desfiles de grandes marcas de roupas, como The Row, a empresa das gêmeas Olsen […] e nos memes que suas amigas enviam ameaçando largar tudo e levar o grupo de WhatsApp para um mosteiro.” – página 37.
Assim, a linha entre o passado e o presente fica não só mais forte, mas também complementar. Em “Trabalho”, por exemplo, elas comentam sobre a “alienação imposta pelos meios de produção capitalistas” (pág. 53) a partir da história de Sor Juana. A santa teve seu trabalho desrespeitado e teve que lutar ondas de misoginia para manter a cabeça erguida, mas fez isso com bastante cinismo e inteligência.
Livro versus podcast
Algo interessante é que as duas autoras conduzem essa investigação a partir de uma linguagem bem mais atual, que seria quase estrangeira às noviças. Por isso, o público de leitores, que já acompanha as escritoras desde o podcast Las Hijas de Felipe, que serviu de inspiração para o livro, mergulha no universo católico “descolado” com mais familiaridade.

Além disso, a escrita da dupla espanhola também mescla a realidade das noviças com o próprio processo de escrita e pesquisa. Se inserindo na história como algumas das pessoas que se beneficiariam ao ouvir os conselhos destacados, o livro cria uma espécie de diálogo interessante entre o escrever e o viver. Quando falando sobre o próprio podcast, elas resgatam as palavras de María de San José:
“[…] nas palavras de María ao descrever seu livro, ‘muitas coisas que parecem irrelevantes e servem apenas para tornar a obra prolixa, como as discussões entre freiras que apresento, além de outras conversas desimportantes que não têm a ver com o assunto’. Era isso que estávamos buscando […] aquela concessão ao nosso lado mais engraçado, aquela mistura relaxada, mas rigorosa, nos salvou de cairmos em uma monotonia irremediável” – página 75.
São essas mesclas entre tempos e personagens, sendo os personagens aqui as próprias autoras, que representam o ponto alto da narrativa. Por mais que, às vezes, as transições entre os séculos pareça brusca, elas funcionam como um bom respiro para os diverso nomes, pecados, injustiças e rebeliões.
Impressões sobre a obra
“A sabedoria das noviças” faz com que os desafios das freiras soeem não apenas interessantes, mas próximos da vida moderna. Existe uma certa beleza e calmaria que surgem no entender de que seus problemas não são inovadores, e muito menos insuperáveis.
Apesar de a riqueza nos detalhes ser necessária para a construção da obra, a leitura acaba ficando densa demais em certas seções. No entanto, a inserção das próprias autoras como narradoras quase personagens permite que o livro retome o bom ritmo assim que atinge uma queda.
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Em síntese, o livro é interessante, complexo em suas emoções, imperfeito e sem escrúpulos – como toda freira foi. Um guia divertido, sincero e impressionante sobre como sobreviver a contemporaneidade a partir do passado.
Imagem de capa: Amazon
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