Aviso de conteúdo: esta matéria aborda temas sensíveis, incluindo violência ou morte. A leitura pode ser desconfortável para algumas pessoas.
Em meio ao sucesso da adaptação de “A Empregada”, relembramos outro thriller de Freida McFadden que reafirma seu domínio sobre o gênero. “O Acidente” conduz o leitor por um labirinto de segredos, com a mesma estrutura ágil que se tornou sua marca registrada. Cada capítulo curto funciona como um convite para o próximo mistério que ronda a vida da jovem Tegan de 23 anos, grávida de oito meses. Leia a resenha de “O Acidente”.
A protagonista é Tegan, uma jovem de 23 anos, grávida de oito meses. A gravidez inesperada muda seus planos e quando se recorda de um evento traumático, ela toma a decisão impulsiva de pegar a estrada, em meio a uma violenta tempestade de neve. O objetivo é buscar refúgio na casa de seu irmão. No entanto, Tegan sofre um grave acidente. Desse modo, ferida, isolada e sem sinal de celular, ela entra em pânico.
Nesse momento surge Hank, um homem de aparência assustadora, mas que ajuda Tegan e a leva para o seu chalé isolado na floresta para ser cuidada por sua esposa Polly. De acordo com Hank, em breve ele a levará para o hospital, uma vez que as estradas estão fechadas.No início, o local parece um refúgio seguro e acolhedor, longe da tempestade e do perigo da estrada. Polly, que é enfermeira, constata que o tornozelo da jovem sofreu uma fratura grave, mas que tratada, poderá ser revertida.
É a partir desse momento que começa o enredo principal, e o mais interessante é que simultaneamente, a história é contada pelo ponto de vista de cada um dos personagens.
Perspectiva de Tegan
Grata por ser salva por Hank, Tegan precisa lidar com a sensação de que o homem é perigoso. Alto, com expressão séria e de poucas palavras, a jovem não confia nele, principalmente ao notar um ferimento no pulso da boa e gentil Polly.
A jovem fica assustada ao se dar conta que seu celular não está entre seus pertences além de não acreditar que o aparelho se perdeu no acidente. A dor pela fratura se mistura à ansiedade da jovem que insiste em ir para o hospital, uma vez que comportamentos estranhos do casal e conversas enigmáticas começam a assustá-la.
Discussões recorrentes entre o casal, a tentativa de Polly de impedir a todo o momento Hank de entrar no porão onde Tegan se recupera e a insistência da mulher em mantê-la lá deixam claro à jovem que ela corre grande perigo. Tegan finalmente percebe que está sendo mantida presa pelo casal e começa a pensar em como fugir dessa situação.
Polly: maternidade e conflitos
Polly fica sensibilizada pela situação de Tegan, mas não pela jovem em si, mas pela criança que ela carrega. Ao acompanhar a perspectiva de Polly, descobrimos que a enfermeira tentou durante anos ser mãe e nunca conseguiu.
Uma das maneiras de lidar com a dor, é se aproximar da vizinha Sadie, uma menina filha de um pai violento. No entanto, o homem não gosta das intromissões de Polly, inclusive expulsando-a de sua casa violentamente (o machucado no pulso).
Quando a grávida chega em sua casa, Polly fica abalada ao saber que Tegan espera uma menina, uma vez que considera a jovem irresponsável demais para ser mãe. Polly decide então que manterá Tegan presa e quando a criança nascer, precisará se livrar da mãe.
Hank: passividade e manipulação
A perspectiva de Hank é talvez a mais complexa. Fica claro que Polly tem graves problemas psicológicos por sua frustração em não conseguir ser mãe. Quando ele se dá conta da obsessão da jovem por Tegan, faz o possível para a esposa mudar de ideia. Porém, a narrativa deixa claro que Hank vai sempre proteger Polly, o que impede que ele tome uma atitude para livrar Tegan do cativeiro. Polly manipula o marido e o impede de se aproximar de Tegan, do mesmo modo em que insiste que ele seja seu cúmplice no roubo da criança.
Ele não aceita, mas também não toma uma atitude assertiva para frear a obsessão de Polly. Apesar de não ser o “vilão da história” como Tegan acredita, a passividade do personagem favorece o sofrimento da protagonista.
Ao final da trama, Hank rompe a cumplicidade com a esposa e resgata Tegan do cativeiro. A obsessão de Polly, no entanto, persiste e ela persegue a jovem até o hospital. O confronto final revela o limite da vilã, uma vez que, quando tem a chance, Polly não tem a coragem de atentar contra Tegan. Ela acreditava que era capaz de tudo para ser mãe, mas descobre-se incapaz de cometer um assassinato.
Impressões sobre o livro
Embora aborde temas importantes como violência sexual e alcoolismo, o cerne da narrativa é o triângulo psicológico entre Polly, Hank e Tegan. O suspense é alimentado pela percepção equivocada de Tegan, que demora a perceber que a real ameaça não é a figura intimidadora de Hank, mas a instabilidade de Polly.
Em “O Acidente”, Freida McFadden utiliza clássicos, como o isolamento geográfico e a viagem que termina em desastre, para construir um domestic thriller. Esse é um subgênero que reside nos segredos domésticos e na ameaça oculta em relacionamentos aparentemente comuns. Mais uma vez, a autora escreve um suspense onde os personagens não são o que aparentam ser com reviravoltas até o final.
Imagem de capa: Martins Fontes | Site Literatura Policial