Maggie O’Farrell constrói uma narrativa que busca ressignificar a inspiração para Hamlet, uma das obras mais conhecidas de Shakespeare
Como o próprio título indica, Maggie O’Farrell reimagina a vida do poeta William Shakespeare em “Hamnet”. Entretanto, ao invés de colocar o dramaturgo no centro da narrativa, o romance volta seu olhar para a vida doméstica e para os laços familiares que cercam sua história.
Assim, “Hamnet” é uma ficção histórica, focada sobretudo nas pessoas e nos afetos por trás de um nome que ainda atravessa a cultura e a literatura popular.
Obra surgiu de pesquisas e registros históricos sobre o autor

Apesar de inspirado em Shakespeare, a obra é principalmente focada em Agnes, personagem inspirada na esposa do dramaturgo. Dessa forma, o romance constrói a história alternando com o passado do casal até o avanço inevitável da tragédia da morte de Hamlet, filho de Agnes e Shakespeare, ainda criança, no final do século XVI.
A partir desse episódio, sobre o qual existem poucos registros históricos, O’Farrell imagina o cotidiano da família e as diferentes formas como essa perda reverbera entre aqueles que permaneceram.
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Maggie O’Farrell constrói em Hamnet uma ficção dolorosamente real

Há um prazer silencioso de observar relações acontecendo através da narrativa de Maggie O’Farrell. Durante a leitura, é possível que o leitor se divirta acompanhando o cotidiano de Agnes e da família. Aos poucos, é possível enxergar cada personagem individualmente e, principalmente, a entender o tipo de amor que existia em cada vínculo.
Parte desse efeito está na forma como Maggie O’Farrell desenvolve seus personagens secundários. Diferente de muitos livros focados em relações familiares, os personagens não existem apenas dentro das funções familiares que ocupam – não são somente irmãos, só país ou só filhos. Assim, cada um ganha uma presença muito forte na narrativa e no imaginário do leitor.
O crédito da narrativa se tornar tão genuína também é devido ao desenvolvimento das relações. Apesar de a história se centralizar no desenvolvimento de Agnes e na relação com seus filhos, também é possível conhecer os laços que existem entre os demais personagens.
Já a figura de William Shakespeare, apesar de protagonista, aparece quase de forma anônima na história. Em nenhum momento ele é nomeado diretamente. Ao longo da história, ele surge apenas por descrições ou pela posição que ocupa dentro da família, como marido ou pai.
Para os leitores que são viciados em sempre ler o livro antes de assistir à adaptação no cinema, esse é com certeza um daqueles casos em que a leitura é indispensável para aproveitar a experiência por completo!
Vale a pena ler “Hamnet”?
Antes de começar o livro, eu tinha a impressão de que encontraria uma história centrada apenas em Agnes e Hamnet, ou talvez uma narrativa principalmente sobre maternidade e luto. No entanto, a obra se revelou muito mais ampla do que eu imaginava.
A presença da morte, e a maneira como cada personagem a percebe, é algo que está presente na narrativa. Ainda assim, seria injusto dizer que Hamnet é apenas um livro sobre perda e luto. Na verdade, é um livro profundamente cheio de afeto e com histórias de amor de diferentes formas. O’Farrell consegue mostrar como o afeto se manifesta de maneiras diferentes dentro de uma mesma família.
Outro momento incrível da leitura, para mim, foi o capítulo que explica o surgimento da praga que, mais tarde, alcança a família protagonista. Nele, Maggie O’Farrell acompanha o percurso de uma simples pulga de macaco. A princípio pareceu um desvio de narrativa, mas ao decorrer do capítulo é impossível não apreciar a forma que a autora escolheu para explicar algo tão delicado e tão importante para a ambientação da história.
A escrita é extremamente poética e delicada, algo que combina muito bem com o tom da história e com seus personagens. Entretanto, em alguns momentos senti que havia uma quantidade excessiva de metáforas e analogias para descrever determinadas situações.
Além disso, senti muita falta de diálogos. Diversas conversas entre personagens aparecem apenas resumidas pela narração, em vez de apresentadas com falas diretas. Em certos momentos, isso me deixou um pouco frustrada, porque eu queria acompanhar aquelas interações acontecendo de fato.
Ainda assim, “Hamnet” é, com certeza, uma das obras literárias que vale a pena ter na lista de leituras. Indico a todos que procuram conforto de experiências pessoais na arte, principalmente. Assim como Agnes, o leitor também pode descobrir que a arte é uma aliada terapêutica para entender sobre o amor e do luto.
Imagem de capa: Reprodução
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