Em “Os ratos vão para o céu?”, Vitor Miranda convida o leitor a questionar não só vivências pessoais que possam se identificar, mas também o mundo em que vivemos e a história do outro. A obra se apresenta como uma coletânea de contos que beiram à crônicas e prosa poética. 

Logo no prefácio, Xico de Sá já alerta aos leitores que o livro é sobre “ratos, homens pequenos e grandes, com diálogos para comover”. O livro foi lançado pelo Selo Neomarginal e conta com ilustrações de Fernanda Bart

Um convite para revisitar a infância com outros olhos 

Apesar de não serem longos, os contos de Vitor Miranda transportam o leitor para uma viagem intensa com os personagens. O autor narra as situações em primeira pessoa, e em grande maioria acompanha a vida de crianças ou relações familiares.

Dessa forma, as histórias vão de momentos comuns até críticas sociais – como abusos, violência e a situação política do país. Logo, cria-se uma coletânea de contos que refletem sobre a vida e a morte a partir do olhar infantil.  

“os ratos transmitem cerca de cinquenta e cinco doenças para o ser humano. resta saber quantas doenças os seres humanos transmitem para os ratos. mas isso pouco importa. o ser humano se fez o personagem principal aqui nesse mundo. por isso vivemos contando a história da humanidade.”

Sendo assim, no breve vislumbre da vida dos personagens – muitas vezes desconfortável, mas preciso –, é também perceptível o humor ácido e a literatura crua do ator. A estrutura textual é marcada por uma escrita não convencional, não sendo apegada a letras maiúsculas ou grandes formalidades. De certa forma, é como ouvir Vitor Miranda e seus personagens contarem uma história verbalmente. 

Além disso, a coletânea se destaca pela fluidez entre tantos cenários e histórias. Ao longo das páginas, Miranda aborda temas como memória e sobrevivência sem recorrer ao sentimentalismo excessivo. Ainda assim, o autor conduz sua narrativa com maestria ao evitar estereótipos e retrata cada vivência com delicadeza.

Afinal, os ratos vão para o céu?

Particularmente, conto é um dos meus gêneros favoritos. Acredito que é incrível a habilidade de marcar o leitor com uma narrativa tão curta – ouso dizer que é quase como um superpoder na literatura. Não é necessário apresentar o passado, o futuro ou até o presente da situação. A breve história, por si só, é o suficiente para ensinar, alertar e até gritar conosco. Assim como algo que sempre me chama atenção também, é saber contar histórias a partir do olhar de crianças.

Logo, foi uma surpresa maravilhosa a leitura de “Os ratos vão para o céu?”. A obra me levou a refletir não só por horas, mas por dias. E, temo que estou até hoje pensando sobre cada um dos contos. Foi uma montanha-russa acompanhar as páginas de Vitor Miranda, sendo possível sentir desde amor e alegria até raiva e nojo.

Além da poética, é também assombroso revisitar algumas cenas familiares comuns (como “se livrar” de um rato que está dentro de casa) a partir do olhar de uma criança. Miranda preserva uma inocência perante a observação do olhar infantil do ato, que não significa ser menos esperta do que a conclusão de um adulto. Dessa forma, me fez refletir sobre quantas outras situações a vida adulta rotineira nos fez normalizar. 

Ainda assim, o conto que nomeia o livro não esteve entre os meus favoritos ao final da leitura. Isso porque há muitas camadas que são desenvolvidas ao decorrer dos contos. Destaco “por favor, enterrem meu pai”, “perdoando o pai” e o breve diálogo em “manda publis”. Além de uma menção especial ao conto “Iorv”, que foi como passar por todos os estágios do luto de uma vez só – ainda que não seja especificamente sobre a morte.

Imagem de capa: Flavia Gomes