O livro “Quase agora” (Folheando), do escritor brasileiro Danilo Heitor, é uma coletânea de vinte e cinco contos distópicos. Assim, a obra usa a ficção científica para comentar sobre a importância do que é trivial em um mundo tomado pela tecnologia.

Com o intuito de montar um mosaico de cenários distantes, mas, ao mesmo tempo, familiares, o autor divide a obra em quatro temas. O primeiro, e o maior deles, se chama “Novas Tecnologias”, comentando sobre a relação entre o homem e a inovação. Já o segundo, intitulado “Viagens”, aborda narrativas sobre viagem no tempo e espaço. Assim como, o terceiro se chama “Distopias”, e o quarto “Utopias”.

Em sua apresentação no início do livro, Danilo compartilha que grande parte dos contos selecionados nasceram de desafios de escrita. Dessa forma, o estilo colaborativo incentivado pelas comunidades de escritores que ele faz parte – com destaque para a Revista Mafagafo e Editora Escambau – enriquecem a obra.

“Quase agora” e a invenção tecnológica

A partir de uma linguagem repleta de expressões que ressoam o familiar da sociedade contemporânea, Danilo tem a chance de propor diversas pequenas e instigantes reflexões. Dessa forma, o autor consegue explorar a absurdidade das convenções sociais de uma maneira criativa.

Em um dos contos mais interessantes da obra, “Alarme”, Danilo conta a história de uma pessoa que, ao apertar o botão da “cochileta russa” do alarme do celular, acaba sendo sugado para dentro do dispositivo. Com acesso limitado aos aplicativos, ele consegue compartilhar a sua história por meio de um fio no Twitter. Assim, a sua namorada consegue entender o que está acontecendo e, ao chegar em casa após um dia de trabalho, trazê-lo de volta para a realidade.

No conto “Ruídos”, que vem antes do mencionado acima, a personagem principal instalou um aparelho de transmissão de pensamento – o problema é que ela baixou a versão pirata do programa. Assim, enquanto ela passa por uma região específica da sua cidade, ela consegue ouvir o pensamento de cada pessoa que vive em cada casa, e acaba ficando exausta quando o percurso chega ao fim.

A tecnologia para além das máquinas

Nas últimas três seções de “Quase agora”, o livro traz uma ideia de tecnologia ligada à componentes que ainda não nos são naturais – a viagem no tempo e a visita dos extraterrestres. Além disso, a obra explora a interseção da tecnologia com a política.

Em “Exorcismo”, por exemplo, o personagem principal tem visões de um futuro em que ele é capaz de matar os policiais que assassinaram todos os membros de sua família. Em função dessa visão, ele consegue se sentir pronto para cumprir o destino que ele mesmo construiu.

A partir da exploração de temas que são mais diretamente ficcionais, Danilo consegue construir uma escrita um pouco mais arriscada e menos direta:

“Eu sou um morto-vivo, um não enterrado, um corpo sem nome. Eu sou muitos e não sou ninguém. Eu sou a Candelária, o Carandiru e o Jacarezinho. Eu sou aquele um que escapou, o centésimo décimo segundo, e que voltou para te matar.” – página 119

No conto “Apocalipso”, o autor descreve uma pandemia dançante, em que as pessoas não conseguiam parar de dançar. Já no texto “Não eram europeus, eram extraterrestres”, Danilo retrata a invasão alienígena como um povo que não sente a necessidade de colonizar outro. Com empatia, ele descreve os extraterrestres como uma espécie que luta pelo bem-estar coletivo e que deixa um legado de generosidade.

Impressões sobre o livro

Em um depoimento na contracapa do livro, o escritor convidado Moacir Fio sintetiza de maneira pontual a obra:

“Em tempos de futuro condenado, o convite ao sonho do presente […] Por mais avançados, utópicos ou distópicos que os próximos anos possam parecer, nunca nos esqueçamos do agora, o que nos faz humanos, o que talvez nos salve. Ou quase.”

Danilo Heitor tece um comentário sobre a influência onipresente da tecnologia na sociedade contemporânea e em sua imaginação. No entanto, ele destaca como o que verdadeiramente importa para uma vida feliz já está entre nós – nossa capacidade de viver de forma coletiva não demanda nenhuma tecnologia extraordinária.

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