“All Her Fault” aposta em tensão doméstica e personagens ambíguos para investigar até onde vai a responsabilidade, e quem paga o preço quando tudo desmorona

A série se insere de forma precisa no atual ciclo de thrillers televisivos que deslocam o suspense do ato criminal para o impacto emocional que ele provoca. Adaptada do romance homônimo de Andrea Mara e desenvolvida para a TV por Megan Gallagher, a série utiliza o desaparecimento de uma criança como ponto de partida para um drama psicológico centrado em culpa, maternidade, casamento e dinâmicas de poder. O evento criminal existe, mas não domina a narrativa.

Nesse contexto, o crime funciona como gatilho narrativo. A tensão real emerge das relações afetivas, dos silêncios e das fissuras emocionais entre os personagens. Ao priorizar conflitos íntimos e escolhas morais, a série se alinha a uma tendência do gênero que aposta menos na investigação e mais nas consequências humanas do trauma.

Um ponto de partida direto e eficaz

All Her Fault” começa sem rodeios. Marissa Irvine, interpretada por Sarah Snook, chega para buscar o filho Milo, de cinco anos, em um encontro com colegas da escola. O endereço está errado. A mãe que atende à porta não conhece a criança, nem a anfitriã original, nem a babá responsável pela organização. Em poucas cenas, “All Her Fault” estabelece o caos. Milo desapareceu. Seu rastreador foi encontrado destruído. Não há pedido de resgate. Não há respostas.

Esse início funciona porque dispensa artifícios. A tensão nasce da banalidade da situação. Um erro cotidiano. Um detalhe ignorado. A série entende que o terror contemporâneo mora na rotina. A partir daí, a narrativa se expande em múltiplas direções, apresentando uma rede de personagens cujas versões dos fatos nunca se encaixam perfeitamente.

Sarah Snook venceu o Critics Choice Awards 2026
Sarah Snook em “All Her Fault” | Crédito: Reprodução/IMDB

Snook e o peso emocional da maternidade

Sarah Snook (Succession) sustenta “All Her Fault” com uma atuação central e contínua. Desde o início, sua Marissa Irvine não é apresentada como heroína. E também não surge como uma vítima idealizada. Ao contrário, ela é uma mãe em colapso, tomada pela culpa antes mesmo de qualquer julgamento externo. Nesse contexto, Snook constrói o desespero sem recorrer ao excesso. Em vez disso, aposta no desgaste progressivo. O olhar permanece em alerta. A respiração é curta. O corpo nunca relaxa.

Ao longo da narrativa, a série insiste em expor como a maternidade é tratada como responsabilidade exclusiva da mulher. Por isso, Marissa se culpa por decisões mínimas. Em seguida, a mídia reforça essa pressão. Logo depois, a comunidade escolar reage. Por fim, o próprio marido amplia esse cerco emocional. Dessa forma, o título da série deixa de soar apenas provocativo. Ele passa a funcionar como um diagnóstico social claro.

Mesmo assim, Snook sustenta a personagem com presença física e emocional. A atuação é exausta, mas controlada. Ainda que o roteiro mantenha Marissa em sofrimento constante, a atriz consegue adicionar camadas. Como resultado, a personagem prende o espectador não pela ação direta. Principalmente, ela envolve pela resistência silenciosa e contínua.

Sarah Snook em "All Her Fault"
Sarah Snook em “All Her Fault” | Crédito: Reprodução/IMDB

Jake Lacy e o retrato do controle disfarçado

Se Sarah Snook concentra o peso emocional da narrativa, por outro lado, Jake Lacy (“The White Lotus”) funciona como o principal vetor de desconforto em “All Her Fault“. Seu Peter Irvine é construído a partir da dissimulação. À primeira vista, ele surge como o marido dedicado e o provedor silencioso. No entanto, essa imagem inicial é apenas uma superfície cuidadosamente controlada. Com o avanço da trama, o verniz se rompe.

Lacy apresenta um Peter falso, manipulador e sem escrúpulos. O personagem utiliza o gaslighting como estratégia cotidiana. Nesse processo, ele distorce fatos. Minimiza sentimentos. Redefine a realidade para manter o controle. Como resultado, a série expõe de forma direta como esse comportamento compromete toda a estrutura familiar. A dependência emocional cresce. A culpa se espalha. Nada permanece estável.

Ainda assim, não se trata de uma vilania caricata. Peter se torna perigoso justamente por ser reconhecível. Em vez de confrontos diretos, ele prefere o sussurro ao grito. Da mesma forma, evita assumir responsabilidades sempre que possível. Consequentemente, transfere o peso das decisões para as mulheres ao redor ou para o irmão com deficiência. Nesse sentido, Jake Lacy compreende o alcance desse perfil e o interpreta com frieza controlada e coerente com a proposta da série.

Review - "All Her Fault"
Jake Lacy em “All Her Fault” | Crédito: Reprodução/IMDB

Comunidade, classe e silêncio

All Her Fault” dialoga com produções como “Big Little Lies” e Safe, ao investigar comunidades de classe média alta que operam sob códigos próprios. Casas amplas. Escolas exclusivas. Relações mediadas por aparência e status. O desaparecimento de Milo expõe fissuras que já existiam.

A série trabalha bem personagens secundários. A nova amiga Jenny, vivida por Dakota Fanning, representa outro tipo de maternidade atravessada por culpa e cobrança. A presidente da associação de pais e mestres, Sarah Larsen (Melanie Vallejo), funciona como síntese do julgamento social travestido de boas intenções. A polícia, representada pelo detetive interpretado por Michael Peña, atua mais como observadora das tensões do que como agente resolutivo.

O suspense se constrói pela fragmentação. Informações surgem fora de ordem. Verdades são omitidas. Memórias entram em conflito. A narrativa deixa claro que não existe uma versão limpa dos fatos. Todos escondem algo. Alguns por medo. Outros por conveniência.

"All Her Fault" - Review
Dakota Fanning e Sarah Snook | Crédito: Reprodução/IMDB

Limites do roteiro e impacto final

Apesar da construção cuidadosa, a série enfrenta problemas de ritmo. O miolo da temporada se arrasta em determinados momentos. Algumas revelações parecem surgir de forma abrupta, sem preparação suficiente. Certos arcos secundários recebem mais atenção do que deveriam, enquanto peças essenciais da motivação central são mantidas à margem por tempo excessivo.

Ainda assim, o saldo é positivo. “All Her Fault” se sustenta pela coerência e pelas atuações centrais. A série não busca conforto. Não oferece respostas fáceis. Seu maior acerto está em mostrar que o desaparecimento é apenas o ponto de partida para discutir poder, culpa e controle dentro das relações familiares.

Vale a pena assistir “All Her Fault”?

Vale a pena assistir “All Her Fault” se você busca um suspense psicológico que prioriza personagens e conflitos emocionais. A série convence ao transformar um crime em espelho social. Sarah Snook entrega uma atuação intensa e comprometida. Jake Lacy constrói um antagonista silencioso e perturbador.

Mesmo com falhas de ritmo, a obra se mantém relevante e incômoda. O que ela entrega não é apenas mistério, mas reflexão. E isso, no atual cenário das séries de suspense, é o que a torna marcante.

Imagem de capa: Sarah Enticknap/AP