“Ângela Diniz: Assassinada e Condenada” revisita o assassinato da socialite para expor como o feminicídio segue sendo relativizado no país
A nova minissérie da HBO, “Ângela Diniz: Assassinada e Condenada”, dirigida por Andrucha Waddington, estreia como um drama histórico que se recusa a permanecer no passado. Baseada no podcast Praia dos Ossos, a produção reconstrói um dos crimes mais emblemáticos do Brasil para mostrar que, quase cinco décadas depois, os mecanismos sociais, jurídicos e simbólicos que sustentam a violência contra a mulher seguem assustadoramente familiares.
Trata-se de uma série de drama histórico e judicial, com forte carga política, que tem como ideia central devolver humanidade e protagonismo a uma mulher que foi julgada, exposta e condenada antes mesmo de ser assassinada. Desde os primeiros episódios, fica claro que o foco não está no crime em si, mas no sistema que o permitiu, e que, sob novas formas, ainda opera.

A força de Marjorie Estiano e o peso de uma atuação central
O grande pilar da série é, sem dúvida, a atuação de Marjorie Estiano, que entrega uma das performances mais maduras e complexas de sua carreira. Desde as primeiras cenas, sua Ângela Diniz foge de qualquer idealização fácil: não é mártir, tampouco uma heroína moldada para o conforto do espectador. Ao contrário, surge como uma mulher livre, contraditória, sensual, vaidosa e intensa, e é justamente por essas características que se torna alvo de uma violência brutal.
Nesse sentido, Marjorie constrói essa Ângela com extrema precisão emocional. Há, sobretudo, potência nos silêncios, nos gestos contidos e nos olhares que revelam a consciência permanente de estar sendo observada, julgada e controlada. Assim, a série deixa claro que o assassinato não começa com os disparos, mas muito antes deles: inicia-se no cerco moral, na vigilância constante e na tentativa insistente de enquadrar uma mulher que se recusava a caber nos limites impostos pela sociedade.
Como resultado, essa atuação sustenta toda a proposta dramática da série. Ao optar por colocar Ângela no centro da narrativa, a produção rompe com uma tradição do gênero que frequentemente desloca o protagonismo para o criminoso ou para o aparato investigativo. Aqui, diferentemente, a vítima é sujeito, não objeto, uma escolha narrativa que reforça o impacto político e emocional da obra.

Um elenco afiado a serviço da denúncia
O elenco de apoio reforça a potência dramática da minissérie. Emilio Dantas, como Doca Street, evita qualquer romantização do assassino. Sua interpretação é fria, calculada e desconfortável, revelando um homem que se vê legitimado por uma estrutura que historicamente o protegeu. A série é clara ao não oferecer atenuantes: a violência é exposta como escolha, não como impulso.
Yara de Novaes, no papel da mãe de Ângela, imprime dor e rigidez a uma personagem que carrega o peso de uma sociedade conservadora, especialmente no contraste entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro. Já Antonio Fagundes, como o advogado Evandro Lins e Silva, traz densidade ao debate jurídico, revelando os bastidores de um sistema que aceitou, por décadas, a absurda tese da “legítima defesa da honra”.
Além disso, nomes como Thiago Lacerda, Camila Márdila, Renata Gaspar e Joaquim Lopes ajudam a compor o ecossistema social da época, evidenciando como amigos, imprensa e opinião pública colaboraram, ativa ou passivamente, para a construção de uma narrativa que culpabilizava Ângela por sua própria morte.

Direção, estética e diálogo com o presente
Andrucha Waddington opta por uma direção que privilegia o incômodo, não o espetáculo. A violência não é gráfica, mas estrutural. A fotografia acompanha o arco emocional da protagonista: cores mais quentes nos momentos de liberdade, tons mais frios e sombrios à medida que a narrativa avança para o julgamento e a condenação simbólica de Ângela.
A trilha sonora funciona como elemento narrativo, quase um personagem. As músicas ajudam a localizar a época, mas também operam como comentário emocional, reforçando contrastes entre celebração, opressão e luto. Nada parece gratuito: cada escolha estética está a serviço da dramaturgia.
O maior mérito da série está em seu diálogo direto com o presente. Embora ambientada nos anos 1970, a narrativa ecoa as manchetes atuais sobre feminicídio, violência doméstica e discursos que seguem relativizando crimes contra mulheres. A série não permite ao espectador se refugiar no conforto do “isso ficou no passado”.

Vale a pena assistir “Ângela Diniz: Assassinada e Condenada”?
“Ângela Diniz: Assassinada e Condenada” convence como drama, como reconstrução histórica e como denúncia. Não é uma série fácil, nem pretende ser. Seu impacto vem justamente da recusa em suavizar o que precisa ser enfrentado. Ao invés de respostas simples, oferece perguntas urgentes: o quanto realmente avançamos? Quem ainda paga o preço da liberdade?
A produção é potente porque entende que memória também é ferramenta política. Recontar essa história não é insistir na dor, mas impedir o esquecimento, e, sobretudo, expor continuidades que muitos prefeririam ignorar.
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Portanto, sim, vale a pena assistir. A minissérie se impõe como uma das produções nacionais mais relevantes dos últimos anos, sustentada por uma atuação extraordinária de Marjorie Estiano, um elenco coeso e uma direção consciente de seu papel social. Mais do que revisitar um crime, a série escancara um padrão. E ao fazer isso com rigor artístico, sensibilidade e coragem política, transforma indignação em reflexão, algo raro, necessário e profundamente marcante.
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