Nova adaptação televisiva de “Como Água Para Chocolate” amplia o contexto histórico, mas suaviza a força do realismo mágico que consagrou a obra
A HBO apresenta sua versão de “Como Água Para Chocolate“, clássica obra de Laura Esquivel, agora adaptada em formato de série. Dirigida por Julián de Tavira e produzida por Salma Hayek, a primeira temporada tem seis episódios e retoma uma das histórias mais conhecidas da literatura latino-americana, marcada pela fusão entre romance, tradição familiar e realismo mágico.
A proposta central permanece a mesma: acompanhar a trajetória de Tita de la Garza (Azul Guaita), uma mulher impedida de viver seu amor e obrigada a canalizar emoções reprimidas por meio da comida, em um México atravessado por transformações políticas e sociais.
Desde o início, a série deixa claro que não pretende apenas repetir o caminho do filme de 1992, dirigido por Alfonso Arau. Ao optar pelo formato seriado, a produção busca expandir o universo narrativo, aprofundar personagens secundários e inserir a Revolução Mexicana como elemento mais ativo da trama. Essa escolha define o tom da adaptação e orienta suas principais virtudes e limitações.

Tradição, repressão e desejo como motores da narrativa
Ambientada no início do século XX, a história se passa majoritariamente no rancho Las Palomas, onde Tita cresce sob o controle rígido da mãe, Elena (Irene Azuela). A personagem é vítima de uma tradição familiar que determina que a filha mais nova nunca deve se casar, devendo dedicar a vida ao cuidado da mãe. Essa regra estrutura o conflito central da obra e serve como metáfora para o papel imposto às mulheres em uma sociedade patriarcal.
O amor entre Tita e Pedro Muzquiz (Andrés Baida) surge como força de oposição a essa ordem. No entanto, a decisão de Pedro de se casar com Rosaura (Ana Valeria Becerril), irmã mais velha de Tita, estabelece uma dinâmica marcada por frustração, silêncio e desejo contido. A série trabalha essa tensão de forma progressiva, apostando menos na explosão dramática imediata e mais na repetição cotidiana do sofrimento.
Nesse ponto, a adaptação se mantém fiel ao espírito do romance, mas atualiza o discurso ao contextualizar melhor as escolhas dos personagens. Pedro, por exemplo, ganha uma camada política ausente em versões anteriores. Aqui, ele se envolve com a Revolução Mexicana, participando do contrabando de armas e do apoio a guerrilheiros. A intenção é clara: torná-lo mais ativo e moralmente justificável aos olhos do público contemporâneo.

A força de Elena e o peso do antagonismo
Entre os personagens, Elena se impõe como o centro dramático da série. Irene Azuela constrói uma figura rígida, calculada e emocionalmente violenta, que dispensa exageros para causar impacto. Sua presença domina o espaço doméstico e funciona como representação direta da repressão familiar e social. A personagem chega a ser detestável em alguns momentos.
Ao contrário de Tita e Pedro, cuja relação ainda demora a ganhar densidade emocional, Elena surge plenamente definida desde os primeiros episódios. Sua postura autoritária, suas decisões implacáveis e sua incapacidade de demonstrar afeto sustentam boa parte da tensão narrativa. É nela que a série encontra seu elemento mais consistente.
Rosaura e Gertrudis (Andrea Chaparro), as irmãs de Tita, também se beneficiam do formato seriado. Rosaura deixa de ser apenas um obstáculo romântico e passa a representar a manutenção da ordem tradicional, enquanto Gertrudis encarna a ruptura, associada ao desejo e à liberdade. Ainda assim, essas camadas aparecem de forma gradual, sem grandes rupturas imediatas.

Realismo mágico diluído em nome do realismo histórico
Um dos pontos mais discutidos da nova adaptação é a abordagem do realismo mágico. No romance e no filme de 1992, as emoções de Tita se manifestam de forma explícita e quase fantástica por meio da comida, afetando fisicamente quem a consome. Na série, esse elemento existe, mas é tratado de maneira mais contida.
As cenas na cozinha são cuidadosas, bem filmadas e sensoriais, mas raramente assumem protagonismo absoluto. A culinária surge mais como extensão emocional do que como força narrativa transformadora. Isso aproxima a série de um registro mais naturalista, que privilegia o contexto histórico e psicológico em detrimento da magia cotidiana.
Essa escolha pode afastar parte do público que associa “Como Água Para Chocolate” diretamente ao excesso sensorial e à fantasia. Por outro lado, a série ganha coerência interna e maior integração com o pano de fundo da Revolução Mexicana, que aqui deixa de ser apenas decorativo.

Ritmo e ambição narrativa
O ritmo é irregular. Os episódios iniciais dedicam tempo considerável à construção do ambiente e das relações, o que pode gerar a sensação de demora. Ainda assim, essa escolha parece alinhada à proposta de explorar frustrações acumuladas e não resolvidas.
Além disso, a série demonstra ambição ao tentar equilibrar romance, drama familiar e contexto político. Nem sempre esse equilíbrio é alcançado, mas a tentativa é clara. Ao expandir personagens e conflitos, a adaptação se distancia da idealização romântica absoluta e se aproxima de uma leitura mais sóbria da obra.
“Como Água Para Chocolate” na versão da HBO não busca substituir o romance de Laura Esquivel nem competir diretamente com o filme de 1992. Seu objetivo é outro: reler a história sob uma lente contemporânea, mais histórica e menos fantasiosa. Essa decisão resulta em ganhos narrativos, mas também em perdas simbólicas.
A série convence quando trata da repressão, do silêncio e da frustração como experiências centrais da vida. Funciona menos quando tenta transformar essa contenção em emoção arrebatadora. Ainda assim, entrega uma leitura coerente, bem produzida e respeitosa com o material original.
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Vale a pena assistir “Como Água Para Chocolate”
Vale a pena assistir “Como Água Para Chocolate” se o interesse estiver na reinterpretação de um clássico sob outra perspectiva. A série oferece contexto, profundidade histórica e personagens mais desenvolvidos. No entanto, quem busca o impacto pleno do realismo mágico pode sentir falta da intensidade que marcou versões anteriores.
No conjunto, trata-se de uma adaptação sólida, que dialoga com o presente e propõe uma leitura mais contida da obra. Não substitui o romance nem o filme original, mas amplia o debate sobre como revisitar clássicos sem repeti-los.
Imagem de capa: Reprodução/IMDB
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