Nova leva de episódios de “Dona Beja”, estrelada por Grazi Massafera ampliam o drama e o suspense, porém encerram arcos importantes com pressa

Os episódios 36 a 39 de “Dona Beja” representam o momento mais intenso da reta final da novela. Depois de uma sequência de capítulos que vinha ampliando o suspense e aprofundando conflitos familiares, a produção agora tenta resolver múltiplas tramas ao mesmo tempo.

O resultado é ambicioso, mas também irregular. A novela, escrita por Daniel Berlinsky e ancorada no drama histórico com elementos de suspense policial, aposta em impacto emocional. Porém, algumas decisões narrativas enfraquecem a força do desfecho.

A ideia central destes episódios é clara: colocar Beja (Grazi Massafera) no centro absoluto da narrativa. Tudo gira em torno dela. Suas dores, vingança, culpa e sua tentativa de sobreviver em uma sociedade que nunca a aceitou completamente. O problema é que, enquanto a protagonista cresce, várias histórias paralelas parecem perder consistência.

Review - Dona Beja - Grazi Massafera
A novela chega em sua reta final | Crédito: HBO Max/Divulgação

Trauma, vingança e um passado que finalmente ganha peso

O ataque sofrido por Beja funciona como ponto de partida desta nova leva de episódios. A violência desbloqueia uma memória dolorosa ligada ao avô e à própria mãe. A novela tenta explicar mais a fundo de onde veio Dona Beja. Esse momento poderia ser um dos mais marcantes da trama. E, em parte, funciona.

A personagem passa a agir movida pela dor. Ela tem certeza de que Antônio (David Junior), é o responsável pelo ataque. A partir disso, a narrativa assume um tom mais sombrio. Beja deixa de ser apenas uma figura forte e passa a se tornar alguém dominado por ressentimento.

Ainda assim, a construção dessa virada parece apressada. A memória traumática surge com impacto. Porém, não é explorada com profundidade suficiente para justificar a intensidade das decisões que vêm depois. A sensação é de que a novela quer acelerar o caminho até a vingança.

Beja e seu avô
Roberto Bomtempo e Ana Carolina Leite | Crédito: HBO Max/Divulgação

Uma morte emocionante

O arco de Antônio concentra alguns dos momentos mais fortes destes episódios. Após ser brutalmente atacado por um capanga de Beja, o personagem se despede de todos. A cena é emocional. Ele pede perdão, reconhece erros e assume que não foi o homem que Angélica (Bianca Bin) e Candinha (Erika Januza) mereciam.

No entanto, o momento mais importante ocorre quando ele afirma para Beja que nunca a violentou. Apesar dela não acreditar, a revelação muda completamente a leitura da história. Contudo, para alguém à beira da morte, Antônio fala demais. Ainda assim, a sequência final com a avó Lueji (Elisa Lucinda), é delicada e simbólica. É um encerramento bonito para o personagem.

Personagens que crescem, personagens que desaparecem

Um problema evidente desta leva de episódios é o tratamento desigual dos personagens. Enquanto Beja ganha camadas, outros arcos são resolvidos de forma abrupta. A relação entre Maria (Indira Nascimento), e Padre Otávio (Miguel Rômulo) nunca atinge o potencial que prometia. A personagem até evolui ao longo dos episódios. Mas o padre termina como um personagem superficial.

O mesmo acontece com João (André Luiz Miranda) e Candinha. A relação entre os dois surge de forma abrupta, sem uma construção narrativa que sustente o envolvimento. Ainda assim, a trama promete encaminhar o casal para um desfecho emocionalmente positivo.

Além disso, algumas decisões parecem surgir sem explicação. A decisão de Joana (Danielle Olímpia) de entrar para o exército é um exemplo. A escolha poderia representar um momento de empoderamento feminino. No entanto, surge de forma repentina e sem construção dramática suficiente.

Erika Januza é Candinha
Erika Januza é Candinha | Crédito: HBO Max/Divulgação

Grazi Massafera domina completamente a reta final

Se há algo que realmente sustenta esses episódios, é a atuação de Grazi Massafera. Desde o início da novela, a atriz vinha entregando uma interpretação excelente. Mas, nesta reta final, ela assume o controle absoluto da narrativa.

Nos episódios 36 a 39, Grazi entrega uma sequência impressionante de emoções. Ódio, dor, raiva, tristeza, amor e medo aparecem de forma intensa. A prisão de Beja é um dos momentos mais fortes. Especialmente porque a personagem precisa enfrentar uma sociedade que nunca perdoou sua existência.

O momento em que Beja transforma o julgamento em um discurso de empoderamento feminino é simbólico. Mesmo com um tom teatral, a cena funciona. Não apenas pela força do texto, mas pela entrega da atriz. É o tipo de sequência que resume toda a trajetória da personagem.

Suspense policial avança, mas com irregularidade

O mistério em torno do assassino das “mulheres dama” e de quem violentou Beja continuam sendo os motores da narrativa. Uma descoberta de Candinha ajuda a mudar o rumo da história. Finalmente, a verdade começa a aparecer. Ainda assim, o suspense perde ritmo em alguns momentos.

Revelações importantes acontecem rápido demais. Algumas parecem surgir apenas para acelerar o final. Outras são resolvidas sem impacto suficiente. O arco de Fortunato (João Villa) e Belgard (Dudu Pelizzari) continua sendo um dos mais interessantes da reta final.

O lado amoroso dos dois acaba ficando em segundo plano, o que até faz sentido diante da proximidade do desfecho, já que a resolução dessa relação parece reservada para o último episódio. Ainda assim, o conflito entre policial e principal suspeito ganha um desenvolvimento inesperado e dramático.

Movido pelo sentimento que tem por Fortunato, Belgard toma uma atitude impulsiva que muda o rumo da investigação. Ao mesmo tempo, Fortunato também faz uma escolha decisiva que obriga o delegado a continuar em busca do verdadeiro assassino. Os dois atores sustentam esse arco com boas atuações e muita química em cena. Dudu transmite bem a intensidade e a determinação de Belgard, enquanto João constrói Fortunato a partir da timidez, do medo e da insegurança. Juntos, formam um dos relacionamentos mais fortes e convincentes da novela.

Review - Dona Beja
Dudu Pelizzari e João Villa na novela | Crédito: HBO Max/Divulgação

Um final que emociona, mas deixa perguntas

Os episódios 36 a 39 funcionam como preparação direta para o final da novela. Muitos ciclos se encerram. Alguns de forma justa. Outros de maneira abrupta. O retorno de personagens, revelações familiares e despedidas tentam criar a sensação de fechamento.

Vicente (Paulo Mendes), Carminha (Catharina Caiado) e Honorato (Gabriel Godoy) têm um dos desfechos mais bem construídos desta reta final. O retorno do casal funciona dramaticamente e traz uma sensação de amadurecimento dos personagens. Catharina e Gabriel apresentam versões mais maduras de Carminha e Honorato, marcadas por cicatrizes emocionais deixadas pelo tempo longe de Araxá e do próprio filho. No caso de Carminha, esse peso é ainda mais evidente, sobretudo pela rejeição da mãe ao seu retorno.

O momento em que Vicente finalmente aceita os pais funciona como um fechamento emocional consistente para a família. É uma resolução simples, mas eficaz. Ainda assim, a revelação feita por Alfredo Costa Pinto (Otávio Muller) acrescenta uma última tensão ao núcleo e impede que o final seja totalmente previsível. Nesse ponto, a novela acerta. O arco da família de Vicente entrega um desfecho coerente e emocionalmente satisfatório.

Vale a pena assistir “Dona Beja”?

Os episódios 36 a 39 de “Dona Beja” mostram uma novela que tenta ser intensa até o último momento. A atuação de Grazi Massafera é o grande destaque. Ela sustenta emocionalmente quase todas as cenas importantes. Sem ela, a reta final perderia muito do impacto.

Por outro lado, a narrativa sofre com resoluções apressadas e decisões que parecem surgir sem preparação. O resultado é uma sequência de episódios emocionalmente fortes, mas narrativamente irregulares. Ainda assim, para quem acompanhou a novela até aqui, vale a pena assistir “Dona Beja”.

Imagem de capa: HBO Max/Divulgação