“Dona Beja” aprofunda conflitos, expande vilanias e consolida sua protagonista como símbolo de autonomia
Aviso de spoilers: a análise aborda elementos que antecipam momentos chave da obra
Após um início marcado por ritmo acelerado e apostas narrativas ousadas, “Dona Beja” entra em sua segunda leva de episódios (6 ao 10) com mais segurança dramática e clareza de propósito. Se os capítulos iniciais apresentavam o tabuleiro e testavam os limites da releitura, agora a novela se permite aprofundar personagens, tensionar discursos e sustentar suas escolhas com mais densidade emocional. O resultado é uma obra que amadurece, incomoda e, sobretudo, se afirma.
Nesta etapa, a novela deixa claro que não está interessada apenas em contar a história de uma mulher à frente de seu tempo. O que se vê é uma narrativa que usa o passado como espelho do presente, abordando racismo, moralidade seletiva, repressão sexual, amor-próprio e hipocrisia social sem subterfúgios. “Dona Beja” cresce justamente quando desacelera e olha com mais atenção para quem a rodeia.
Vilania social e o peso das aparências
Um dos movimentos mais relevantes desses episódios é o fortalecimento de Cici, personagem de Deborah Evelyn. A vilã deixa de ser apenas uma presença incômoda para se tornar um retrato perturbador da elite moralista. Cici utiliza os chamados “bons costumes” como arma. Ela ataca Beja não por virtude, mas por conveniência. Sua vilania é silenciosa, cotidiana e profundamente racista.

Casada com um homem negro, Cici demonstra vergonha explícita dessa união, ao mesmo tempo em que se esforça obsessivamente para manter uma imagem social impecável. É uma personagem que vive de fachada, e Deborah Evelyn entrega uma atuação precisa, cheia de camadas. O desconforto que ela provoca é intencional, e necessário. Trata-se de um tipo de antagonismo que não grita, mas corrói.
Beja cresce, sem pedir licença
Enquanto isso, Dona Beja, vivida por Grazi Massafera, segue em curva ascendente. Aqui, a personagem deixa definitivamente de reagir apenas às agressões externas e passa a agir por convicção própria. Beja se afirma como mulher independente, consciente de seus desejos e, sobretudo, de sua autonomia. Não há mais espaço para que alguém tente “segurar suas rédeas”.
Grazi aprofunda ainda mais sua entrega. A atriz já havia declarado, em coletiva, que mergulhou na personagem como nunca antes, e isso se reflete na tela. Beja agora é menos impulsiva e mais estratégica. Sua força não vem do confronto direto, mas da recusa em se dobrar. É uma protagonista que entende o jogo social e aprende a se mover dentro dele sem perder sua essência.

Josefa e o racismo escancarado
Outro arco que ganha destaque é o de Josefa (Thalma de Freitas). A personagem passa a ocupar mais espaço quando a família de seu falecido marido surge para reivindicar a casa onde ela vive. O que poderia ser apenas um conflito patrimonial se transforma em uma denúncia clara do racismo estrutural.
Josefa precisa provar publicamente que foi seu trabalho que sustentou o lar. A violência simbólica é explícita, incômoda e bem conduzida. A série não suaviza o preconceito, nem o transforma em discurso didático. Ela expõe a ferida do jeito que deve ser exposta. Thalma entrega uma atuação firme, digna, que sustenta um dos momentos mais potentes dessa leva de episódios.
Humor como respiro e crítica
Mesmo com temas pesados, “Dona Beja” não abandona o humor. Personagens como Carminha (Catharina Caiado), Honorato (Gabriel Godoy), Augusta (Kelze Ecard) e Alfredo Costa Pinto (Otávio Müller) garantem momentos de leveza que funcionam como respiro narrativo. O humor não dilui o drama; ele o humaniza.
Além disso, esses personagens ajudam a equilibrar o tom e evitam que a novela se torne excessivamente sisuda. É um humor que nasce da observação social, das contradições e dos afetos, e não da caricatura.

Amor-próprio, corpo e identidade
Talvez o maior mérito dos episódios 6 a 10 esteja na forma como abordam amor-próprio e autoaceitação. A cena de Beja com Severina (Pedro Fasanaro), na cachoeira, é emblemática. Ao incentivar a amiga a aceitar seu corpo e viver o momento, a novela traduz em imagem um discurso poderoso, sem soar panfletária.
O mesmo acontece com Carminha, constantemente atacada pela mãe por estar acima do peso e não ter conseguido casar até o momento. O apoio de Severina, o elogio de Honorato e, principalmente, a compreensão de que ela pode ser amada, e se amar, independentemente do corpo que tem, constroem um arco sensível e necessário.
Há ainda o momento mais duro dessa leva: Fortunato (João Villa) e sua luta interna contra a própria sexualidade. O preconceito internalizado o leva a um limite extremo, interrompido por Beja de forma quase inconsciente. É uma cena forte, delicada e bem resolvida, que reforça o impacto silencioso da protagonista sobre quem a cerca.
Cabe, no entanto, uma observação crítica importante: a escolha de um ator cisgênero para interpretar Severina enfraquece parte da potência representativa da narrativa. Embora Pedro Fasanaro entregue sensibilidade e respeito à personagem, a decisão reforça uma lógica recorrente na dramaturgia brasileira, que ainda limita o acesso de mulheres trans a papéis centrais, inclusive quando a história pede essa vivência específica.
Em uma obra tão comprometida com diversidade, corpo e identidade, a ausência de uma atriz trans no papel soa como uma oportunidade perdida de ampliar a autenticidade do discurso que a própria novela se propõe a defender.

Surpresa final e linguagem visual
Assim como nos primeiros cinco episódios, o fechamento dessa segunda parte reserva uma grande revelação. Maria (Indira Nascimento) deixa transbordar o desejo reprimido por Beja e expõe que toda a humilhação anterior era, na verdade, amor contido. O choque não é gratuito. Ele reorganiza afetos, ressignifica conflitos e adiciona novas camadas à narrativa.
Visualmente, a novela segue impecável. Fotografia e figurino continuam como pontos altos. As roupas situam época e classe com precisão, enquanto a trilha sonora permanece atual, certeira e sempre bem posicionada. Seja sensual, cômica ou dramática, a música entra no momento exato para potencializar a cena.
Os episódios 6 a 10 de “Dona Beja” mostram uma obra que encontrou seu eixo. A novela se torna mais segura, mais profunda e mais provocadora. Se ainda há excessos e escolhas que podem dividir opiniões, há também coragem narrativa e consistência temática.
“Dona Beja” não quer agradar a todos. Quer provocar, expor contradições e discutir poder, corpo, raça e desejo sob uma ótica contemporânea, mesmo ambientada no século XIX. E isso, por si só, já a torna relevante.
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Vale a pena assistir “Dona Beja”
Sim. Os episódios 6 a 10 confirmam que “Dona Beja” não é apenas uma releitura estética, mas uma novela com discurso, identidade e ambição. Com uma protagonista cada vez mais forte, vilanias bem construídas, temas sensíveis tratados com coragem e uma produção técnica refinada, a série se consolida como uma das apostas mais interessantes da HBO Max no formato. É incômoda, imperfeita e, justamente por isso, marcante.
Imagem de capa: HBO Max/Divulgação
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