Nova leva de episódios de Dona Beja, criada por Daniel Berlinsky e António Barreira, equilibram comédia, conflitos familiares e reviravoltas, enquanto personagens secundários ganham espaço

A nova leva de episódios de “Dona Beja“, do capítulo 26 ao 30, marca uma retomada de ritmo após a fase mais contemplativa apresentada anteriormente. A novela volta a investir em reviravoltas narrativas, amplia a participação de personagens secundários e introduz novos conflitos que reorganizam a dinâmica da trama em Araxá.

Ao mesmo tempo, o bloco revela um curioso equilíbrio entre drama e humor. Situações cômicas surgem em núcleos que até então eram marcados por tensões sociais e morais. Esse contraste gera alguns dos momentos mais inesperados da narrativa recente da novela.

Embora nem todas as escolhas funcionem com a mesma força, a sequência de episódios demonstra que a produção ainda consegue renovar seus conflitos e recuperar parte da energia dramática que marcou os primeiros capítulos.

Review da novela "Dona Beja"
Grazi Massafera | Crédito: HBO Max/Divulgação

Passado, ressentimento e o ciclo entre Beja e Antônio

A abertura da nova leva aposta em um flashback. Antes de retomar os acontecimentos atuais, a novela apresenta cenas anteriores ao sequestro de Beja (Grazi Massafera). Nesse momento, o público vê um período em que ela e Antônio (David Junior) ainda eram noivos e viviam um relacionamento marcado pelo afeto.

A escolha cria um contraste imediato com a realidade atual. Quando a narrativa retorna ao presente, o conflito entre os dois permanece longe de qualquer reconciliação definitiva. Antônio insiste em assumir publicamente a paternidade de Teresa, interpretada por Manuela Dourado, enquanto Beja continua resistindo à ideia.

Essa disputa reforça um padrão narrativo que a novela já vinha explorando: a relação entre os dois personagens oscila constantemente entre aproximação e ruptura. Ainda assim, o roteiro tenta introduzir novas nuances nesse ciclo. O momento em que Teresa descobre quem é seu verdadeiro pai e decide fugir para pedir abrigo na casa dele altera a dinâmica familiar e abre um novo caminho dramático.

Ao mesmo tempo, Beja continua demonstrando um comportamento conservador em relação à educação das filhas. Esse aspecto da personagem segue chamando atenção. A mulher associada à liberdade e à transgressão social reproduz, dentro de casa, valores tradicionais que contrastam com sua imagem pública.

Antônio e Beja em pé de guerra
Antônio e Beija passam mais tempo brigando | Montagem: Gabriel Gameiro | Crédito: HBO Max/Divulgação

Humor inesperado e liberdade feminina

Se o núcleo central mantém o tom melodramático, outro grupo de personagens passa por uma mudança significativa. O episódio em que Beja decide enviar quitutes afrodisíacos para as “damas de bem” de Araxá marca uma virada inesperada para o humor. A situação culmina em uma sequência particularmente divertida envolvendo Ceci (Deborah Evelyn), Genoveva (Isabela Garcia) e Augusta (Kelzy Ecard). Ao provarem os doces e reagirem aos efeitos alucinógenos, as personagens protagonizam uma das cenas mais cômicas dessa leva.

O episódio ganha continuidade quando Beja organiza um sarau e convida as mesmas mulheres para um novo encontro, novamente acompanhado pelos doces. A surpresa não está apenas no evento em si, mas no fato de que muitas delas aceitam participar.

Essas cenas permitem explorar um aspecto pouco desenvolvido da narrativa: a convivência entre Beja, Severina (Pedro Fasanaro) e as mulheres da elite local. Aos poucos, a resistência inicial dá lugar a uma curiosidade silenciosa. Algumas personagens experimentam, ainda que temporariamente, uma liberdade que antes condenavam.

No entanto, o roteiro também mostra que essa abertura não acontece sem conflitos. Ceci é a primeira a resistir às mudanças, especialmente ao confrontar lembranças de seu passado. Augusta segue caminho semelhante após testemunhar um momento considerado escandaloso.

Review - Dona Beja
Genoveva, Ceci e Augusta | Montagem: Gabriel Gameiro | Crédito: HBO Max/Divulgação

Isabela Garcia transforma Genoveva em destaque dramático

Entre todos os personagens que ganham espaço nesta fase da novela, Genoveva surge como o desenvolvimento mais significativo. Interpretada por Isabela Garcia, a personagem deixa de ser apenas a esposa humilhada de Felizardo (Tuca Andrada) para assumir uma trajetória própria.

Até então, Genoveva aparecia quase sempre em segundo plano, acompanhando as outras mulheres da cidade ou servindo como alvo de agressões do marido. Nos episódios 26 a 30, no entanto, sua presença ganha novas camadas.

Durante o banquete organizado por Beja, Genoveva se permite experimentar uma liberdade inédita. Solta os cabelos, tira os sapatos na chácara do Jatobá e participa do mergulho coletivo na fonte. Em termos contemporâneos, essas ações podem parecer simples. Dentro do contexto histórico da trama, porém, representam gestos de ruptura.

Isabela Garcia conduz essa transformação com sensibilidade. A atriz combina ingenuidade, humor e emoção em uma atuação que evita exageros. Quando Genoveva é expulsa de casa por Felizardo e decide se abrir com Beja, revelando um segredo guardado por anos, o momento ganha peso dramático.

A personagem passa a representar uma dimensão importante da narrativa: a possibilidade de pequenas rebeliões individuais dentro de uma sociedade profundamente conservadora.

Isabela Garcia em Dona Beja
Isabela Garcia em Dona Beja | Crédito: HBO Max/Divulgação

Novos mistérios e tensões paralelas

Enquanto alguns núcleos caminham para o humor ou para a emancipação feminina, outros mergulham novamente no suspense. A trama de Olívia (Isabelle Nassar) ganha um novo desdobramento quando algo inesperado acontece com a personagem. O evento desencadeia um mistério que passa a mobilizar diferentes personagens.

A chegada do Inspetor Delgado (Dudu Pelizari), introduz um novo elemento investigativo na narrativa. Para o personagem, o ataque pode não ter como alvo a pessoa que todos imaginam. Isso amplia o alcance da novela, que passa a flertar com elementos de suspense. Mesmo com poucas cenas até agora, Dudu consegue marcar presença. O ator constrói um inspetor atento e seguro, que rapidamente chama a atenção do público. A atuação não se apoia apenas na presença física do personagem, mas também em um trabalho de interpretação preciso.

Outros personagens também recebem momentos específicos de desenvolvimento. Josefa (Thalma de Freitas) enfrenta o retorno de uma figura de seu passado, o que ameaça sua estabilidade familiar. Fortunado (João Villa) vive uma breve cena de libertação emocional ao se entregar a um desejo reprimido, embora ainda negue sua própria sexualidade.

Deborah Evelyn entrega um dos momentos mais densos da sequência ao protagonizar um monólogo no túmulo de Paulo (Bukassa Kabengele). A cena reforça as ambiguidades da personagem, dividida entre o luto, o orgulho social e os sentimentos contraditórios que nutria pelo marido.

Thalma de Freitas e Grazi Massafera em Dona Beja
Thalma de Freitas e Grazi Massafera | Crédito: HBO Max/Divulgação

Reconciliação apressada e despedida marcante

Nem todas as escolhas narrativas, porém, funcionam com a mesma consistência. A reconciliação entre Candinha (Erika Januza) e Siá Boa (Rita Pereira) surge de forma um pouco abrupta, quase desconectada de conflitos anteriores. Ainda assim, a cena se sustenta graças ao trabalho das atrizes. Erika continua construindo uma Candinha carismática e cheia de presença, equilibrando força e sensibilidade. Já Rita nos traz uma Siá Boa contida na medida certa, mostrando domínio da personagem. Mesmo em um momento que soa apressado, as duas conseguem entregar verdade.

Já a morte de Dorotéia, interpretada por Simone Mazzer, representa a saída de uma presença marcante dentro da narrativa. A personagem frequentemente ajudava a compor o clima descontraído em meio a densidade da trama. Mazzer construiu Dorotéia com presença, deixando sua marca na novela. Sua saída reforça o impacto dos acontecimentos recentes e abre espaço para novos desdobramentos na história.

Vale a pena assistir “Dona Beja”

Os episódios 26 a 30 de “Dona Beja” demonstram que a novela ainda possui capacidade de se reinventar dentro de sua própria estrutura narrativa. O retorno a um ritmo mais dinâmico, combinado com momentos de humor inesperado e novas linhas de mistério, recupera parte da energia que marcou o início da produção.

Ao mesmo tempo, o destaque dado a personagens como Genoveva prova que a trama pode ganhar força quando amplia o espaço para seus núcleos secundários. Nem todas as decisões de roteiro são plenamente desenvolvidas, mas a novela encontra maneiras de manter o interesse do público.

Com novos conflitos em andamento, investigações surgindo e personagens em transformação, essa fase reafirma o potencial dramático da série. Por isso, vale a pena assistir “Dona Beja“.

Imagem de capa: HBO Max/Divulgação