Episódios 21 a 25 aprofundam conflitos, ampliam arcos dramáticos e trazem uma grande passagem temporal, enquanto a narrativa desacelera
A nova leva de episódios de “Dona Beja”, do 21 ao 25, marca uma mudança perceptível no ritmo da narrativa. Criada por Daniel Berlinsky e António Barreira, a novela histórica continua apostando em elementos clássicos do melodrama. No entanto, desta vez, a trama opta por desacelerar e concentrar seus conflitos nas consequências emocionais de acontecimentos recentes.
A estratégia tem resultados mistos. Por um lado, permite que alguns personagens ganhem maior profundidade dramática. Por outro, evidencia fragilidades narrativas que já vinham se acumulando desde os capítulos anteriores. O resultado é um bloco de episódios menos explosivo, mas mais reflexivo, ainda que nem sempre consiga manter o mesmo nível de impacto do início da série.
Reviravoltas familiares e um ciclo que começa a se repetir
Logo nos primeiros episódios, a trama apresenta um confronto decisivo entre Antônio (David Junior) e Maria (Indira Nascimento). O personagem retorna fingindo ser o espírito do irmão morto para forçar a irmã a confessar seus crimes diante do pai. A cena tem um tom quase teatral, evidenciando a influência do folhetim clássico na estrutura da novela.

A consequência é imediata: Maria é enviada para um convento. A decisão encerra momentaneamente um dos conflitos centrais da narrativa, mas não representa exatamente uma resolução. A personagem interpretada por Indira Nascimento continua presa a uma espiral de ressentimento, e o convento surge mais como deslocamento do problema do que como conclusão do arco.
Indira, no entanto, segue sendo um dos pilares dramáticos da produção. Sua Maria permanece imprevisível, impulsiva e emocionalmente instável. Mesmo com menos espaço narrativo, a personagem ainda provoca tensão sempre que surge em cena.
Já Antônio continua preso a um comportamento que começa a se tornar repetitivo. O personagem volta a fazer promessas a Beja (Grazi Massafera), repetindo um ciclo de aproximação e frustração que a novela já explorou diversas vezes. A insistência nesse recurso começa a gerar desgaste. O público já conhece o resultado dessas promessas, e a trama parece consciente disso.
Destaques dramáticos e atuações que elevam a narrativa

Se alguns arcos revelam desgaste, outros ganham força nesta leva de episódios. O principal exemplo é Ceci, interpretada por Deborah Evelyn. A personagem enfrenta uma sequência intensa de acontecimentos: a revelação da verdade sobre Maria, o agravamento de suas tensões com Antônio e, principalmente, a morte de Paulo (Bukassa Kabengele). Deborah conduz o arco com precisão dramática, explorando camadas de orgulho, frustração e vulnerabilidade.
A morte de Paulo se consolida como um dos momentos mais impactantes da série até aqui. A descoberta da existência de um filho entre Antônio e Beja, somada aos surtos cada vez mais descontrolados de Maria, conduz o personagem a essa situação limite. A revelação funciona como um catalisador para novos conflitos e intensifica a dimensão trágica que a novela busca construir em torno de seu núcleo central.
Ao mesmo tempo, a reação de Ceci à perda expõe contradições importantes da personagem. Apesar do preconceito e da vergonha social que sempre demonstrou em relação ao marido negro, ela sente profundamente sua morte. Esse conflito interno adiciona complexidade à narrativa e evita uma leitura simplista da personagem.
Memória, identidade e escuta
Outro momento que se destaca ocorre fora do núcleo central. Durante um jantar na casa de Josefa (Thalma de Freitas), a conversa entre ela e Dyami (Dja Martins), uma escrava que fugiu da senzala com ajuda de João (André Luiz Miranda), se transforma em um dos trechos mais potentes e emocionalmente densos de toda a novela.

A cena começa de forma aparentemente simples, mas rapidamente se transforma em um momento de revelação profunda. Ao falar sobre suas origens e sobre a história que atravessa o corpo e a memória da população negra, Dyami rompe o silêncio histórico que muitas vezes envolve esses personagens em narrativas de época. Sua fala não é apenas uma explicação sobre ancestralidade, é também um convite à escuta, à reflexão e ao reconhecimento.
Há algo de profundamente humano na forma como o diálogo se constrói. Dyami fala com firmeza, mas também com sensibilidade, como alguém que carrega uma herança marcada por dor, resistência e dignidade. Enquanto isso, Josefa escuta em silêncio. O olhar da personagem revela surpresa, reconhecimento e aceitação. Thalma entrega emoção, sensibilidade e humanidade na medida certa para uma cena marcante.
Quando Josefa compreende a dimensão daquela história, e o que ela significa para sua própria identidade, o momento ganha uma força rara na novela. Não se trata apenas de uma descoberta pessoal, mas de um reencontro com uma parte da história que foi apagada ou silenciada.
Mesmo sendo uma cena relativamente curta, o diálogo carrega um peso emocional e político significativo. A novela, que muitas vezes se apoia no melodrama e nas reviravoltas do gênero, encontra aqui um instante de pausa e profundidade. É um momento em que os personagens não estão apenas reagindo à trama, mas também refletindo sobre quem são e de onde vieram.
Humor e novos conflitos

Enquanto alguns núcleos se aprofundam, outros passam por mudanças de tom. O caso mais evidente é o arco de Honorato (Gabriel Godoy). O personagem deixa de ser apenas elemento cômico e passa a ocupar um espaço mais dramático na narrativa. O problema é que essa evolução ocorre de forma relativamente rápida, sem grande aprofundamento. A sensação é de que a novela abre uma discussão importante, mas ainda não sabe exatamente como desenvolvê-la.
Outro momento que combina humor e catarse ocorre com Candinha (Erika Januza). Após anos sendo humilhada pelo Coronel Botelho (Werner Schunneman), a personagem finalmente encontra sua vingança ao expô-lo nu pelas ruas de Araxá. A cena funciona como alívio cômico e recompensa narrativa para um arco de longa duração.
A passagem do tempo e novos rumos
A reta final desse bloco de capítulos apresenta uma grande passagem temporal. A narrativa avança para a década de 1840, cerca de 17 anos depois dos acontecimentos anteriores. As mudanças são significativas. Antônio vive na capital ao lado de Ceci e Angélica (Bianca Bin). A relação entre eles, no entanto, está longe de ser saudável. Ceci se entrega ao alcoolismo, enquanto antigas feridas continuam abertas.

Beja, por sua vez, segue ao lado de João. Os dois tiveram uma filha, o que altera a dinâmica da personagem. Curiosamente, a protagonista passa a demonstrar um comportamento mais conservador em relação à própria maternidade. Ela repreende a filha por usar calças, esconde livros e afirma desejar que as meninas cresçam, se casem e formem famílias. O contraste com a Beja rebelde do início da história é evidente.
Esse movimento sugere um comentário interessante sobre o peso da sociedade e do tempo. Mesmo uma figura tão associada à liberdade pode acabar reproduzindo os valores que um dia enfrentou. A passagem temporal também permite que personagens secundários evoluam. Severina, interpretada por Pedro Fasanaro, surge com mais autoestima e segurança. Em um momento simbólico, ela confronta a professora preconceituosa das filhas de Beja.
LEIA MAIS: Review | “Dona Beja”: gravidez, vingança e humor marcam os episódios 16-20
Vale a pena assistir “Dona Beja”
Os episódios 21 a 25 de “Dona Beja” representam uma transição importante na narrativa. Em vez de apostar apenas em reviravoltas, a novela passa a explorar as consequências emocionais de seus conflitos. A morte de Paulo, o desenvolvimento de Ceci e o poderoso diálogo entre Josefa e Dyami demonstram a capacidade da trama de equilibrar melodrama e reflexão histórica.
Embora o ritmo mais lento possa reduzir parte do impacto inicial da série, o aprofundamento dos personagens e a grande passagem temporal renovam o interesse da história. Ao ampliar os conflitos e preparar novos caminhos dramáticos, essa leva de episódios mostra que a novela ainda tem muito a oferecer. Por isso, vale a pena assistir “Dona Beja”.
Imagem de capa: HBO Max/Divulgação
📲 Entre no canal do WhatsApp e receba novidades direto no seu celular e Siga o Geekpop News no Instagram