Último episódio de “Como Água Para Chocolate” encerra a história de Tita e Pedro com emoção e simbolismo, porém algumas escolhas criativas enfraquecem o impacto
O episódio final da segunda temporada de “Como Água Para Chocolate” chega com uma missão difícil: encerrar uma história construída a partir de frustrações, repressões familiares e um romance marcado pela impossibilidade. A série sempre apostou no drama intenso e no realismo mágico. No último capítulo, essa proposta continua, mas com resultados irregulares.
Dirigida dentro de uma estética claramente ligada ao melodrama histórico e ao realismo mágico latino-americano, a produção tenta transformar o sofrimento acumulado ao longo da temporada em um final emocionalmente marcante. A ideia central é clara: encerrar a trajetória de Tita sem abandonar o simbolismo que sempre guiou a narrativa. A crítica, no entanto, é inevitável. O episódio emociona em vários momentos, mas também revela decisões que enfraquecem o impacto dramático.
Um casamento difícil
O episódio começa com o casamento de Tita (Azul Guaita). A cena é construída com cuidado, e Azul Guaita e Andrés Baida conseguem transmitir o sofrimento dos personagens com precisão. Há dor, hesitação e a sensação de que tudo está errado.

Apesar disso, é difícil sentir empatia total por Pedro (Andrés Baida). Desde o início da série, o personagem poderia ter tomado decisões diferentes. Em vez disso, passa boa parte da narrativa culpando o destino, a família e a tradição. O problema é que o verdadeiro responsável pela tragédia sempre foi ele mesmo.
Quando Tita desiste do casamento e volta para casa, a cena funciona dramaticamente. É uma decisão coerente com tudo o que a personagem construiu ao longo da temporada. Dr. Brown (Francisco Angelini) sofre com a decisão, mas o personagem perde um pouco de espaço nessa último episódio. Pedro tenta reagir, deixa Rosaura (Ana Valeria Becerril) na igreja e vai atrás de Tita. É um padrão que a série repete até o final.
Rosaura cresce como antagonista
Se o episódio tem um destaque, esse destaque é Ana Valeria Becerril. A Rosaura da segunda temporada se transforma completamente. No último capítulo, ela já não é apenas uma irmã ressentida. Ela se torna quase uma nova versão de Mamá Elena (Irene Azuela).

Os gestos, as falas e a postura revelam uma personagem cada vez mais amarga. Quando ameaça Pedro usando a própria filha como argumento, a série deixa claro que o ciclo de opressão familiar continua. É um momento duro, mas coerente com a proposta narrativa.
O acordo entre as irmãs é um dos momentos mais fortes do episódio. Tita decide ir embora para garantir que Esperança tenha uma vida livre. É uma escolha dolorosa, mas também representa crescimento emocional. Pela primeira vez, a personagem não decide apenas por amor, mas por liberdade.
O tempo passa, mas nem tudo convence
A passagem de tempo funciona como um recurso narrativo importante. Os anos passam, os personagens envelhecem e a história muda de tom. No entanto, essa transformação não funciona totalmente. Enquanto Tita e Pedro parecem envelhecer décadas, outros personagens quase não mudam.

O reencontro no casamento de Esperança funciona melhor. Há um sentimento de liberdade que não existia antes. Tita volta à cozinha sem culpa, cozinha por escolha e não por obrigação. É um detalhe pequeno, mas que muda completamente a leitura da personagem.
No entanto, o realismo mágico, que sempre foi um dos pontos mais interessantes da série, exagera justamente nesse momento. A sequência do casamento tenta simbolizar liberdade, mas a execução acaba sendo excessiva. A intenção é clara, a metáfora também. Contudo, o problema é que o exagero acaba enfraquecendo a força da cena.
Um final poético, mas nem sempre convincente
O reencontro final entre Tita e Pedro tenta transformar a história em algo mais simbólico do que narrativo. A série abandona o realismo tradicional e aposta totalmente no simbolismo. Para alguns espectadores, isso funciona. Para outros, pode parecer exagerado.
Ainda assim, existe algo que funciona. O final reforça a ideia de que a história nunca foi apenas sobre um romance. Sempre foi sobre liberdade, memória e sobre romper ciclos familiares.
A leitura final é clara: o romance não é o verdadeiro centro da narrativa. O que realmente permanece é a herança emocional deixada por Tita. A série tenta mostrar que o sofrimento não foi em vão. E que a liberdade conquistada no final tem mais peso do que qualquer final feliz tradicional.
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Vale a pena assistir a 2ª temporada de “Como Água Para Chocolate”?
Sim, apesar das falhas. O episódio final é irregular, mas também é emocionalmente forte. A atuação de Azul Guaita sustenta boa parte do impacto dramático, enquanto Ana Valeria Becerril entrega uma das personagens mais interessantes da temporada.
A segunda temporada de “Como Água Para Chocolate” não é perfeita. As vezes, exagera no simbolismo e acelera decisões importantes. Ainda assim, consegue encerrar a história com coerência emocional. E, principalmente, consegue manter o que sempre foi o ponto mais forte da série: transformar dor em memória e memória em resistência.
Imagem de capa: HBO Max/Divulgação
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