Adaptação dos livros de Patricia Cornwell, “Scarpetta” aposta em nomes fortes e duas linhas do tempo, mas falha em criar tensão e consistência narrativa

A adaptação de “Scarpetta” demorou décadas para sair do papel. A personagem criada por Patricia Cornwell se tornou uma das figuras mais conhecidas da literatura policial dos anos 90, o que gerou expectativa em torno da série. Com Nicole Kidman (“Aqueman”) no papel principal e Jamie Lee Curtis (“Halloween”) como produtora executiva e coestrela, o projeto parecia reunir todos os elementos para funcionar. O problema é que a série raramente encontra equilíbrio entre suspense, drama familiar e atualização tecnológica.

O resultado é um drama policial que tenta ser moderno, mas acaba soando genérico. Ao mesmo tempo, a produção insiste em mudanças que não fortalecem a narrativa e ainda enfraquecem a base original.

Duas linhas do tempo que não funcionam juntas

A série acompanha Kay Scarpetta, patologista forense que retorna à Virgínia para investigar um novo caso. A trama começa com o corpo de uma mulher encontrado mutilado, o que remete diretamente ao primeiro caso da personagem, quase três décadas antes.

Série Scarpetta
Crédito: Connie Chornuk/Prime Video

A partir disso, a narrativa alterna entre duas linhas do tempo. No presente, Nicole Kidman interpreta uma Scarpetta marcada pelo passado e cercada por conflitos pessoais. Nos anos 90, a versão jovem da personagem tenta resolver um crime semelhante. A ideia poderia funcionar como um thriller psicológico.

A possibilidade de que Scarpetta tenha prendido o homem errado no passado cria uma tensão interessante. No entanto, a série não desenvolve esse conflito com consistência. As idas e vindas entre passado e presente não criam suspense. Em vez disso, quebram o ritmo. Muitas revelações surgem de forma conveniente e sem construção dramática.

Mistério policial sem tensão

Um dos maiores problemas de “Scarpetta” é a falta de tensão narrativa. Mesmo com um caso que envolve assassinatos em série, a série raramente transmite sensação de perigo. Momentos de violência gráfica surgem de forma repentina, mas não aumentam o impacto emocional. As vítimas femininas aparecem mais como ferramentas narrativas do que como personagens. Isso reforça uma sensação de narrativa datada.

O suspense também não se sustenta porque as descobertas da protagonista acontecem de forma rápida demais. Informações importantes surgem sem investigação real. Em vez de construir o mistério, o roteiro parece apenas avançar para a próxima cena. Isso enfraquece um dos elementos mais importantes do gênero policial: a progressão da investigação.

Review - Scarpetta
Jake Cannavale e Rosy McEwen | Crédito: Prime Video/Divulgação

Atualização tecnológica que não faz sentido

Outro problema central da série é a tentativa de modernizar a história de forma artificial. Em vez de atualizar o material com cuidado, a produção adiciona elementos que não se integram à narrativa. O exemplo mais evidente é a presença de um chatbot de inteligência artificial como parte da trama. A subtrama envolve a sobrinha de Scarpetta e a tentativa de manter uma conexão com a esposa falecida por meio da tecnologia.

A ideia poderia funcionar como comentário sobre luto e dependência digital. No entanto, a série trata o tema de forma superficial e repetitiva. O resultado é uma narrativa paralela que parece desconectada do caso principal. A série também introduz uma trama envolvendo impressão de órgãos em 3D e uma empresa suspeita. Mais uma vez, a ideia surge sem desenvolvimento suficiente e acaba contribuindo para a sensação de excesso de elementos.

Elenco forte em uma série irregular

Mesmo com problemas estruturais, o elenco consegue sustentar parte da experiência. Nicole Kidman interpreta Scarpetta com uma abordagem mais fria e controlada. A personagem parece constantemente exausta e emocionalmente distante. Jamie Lee Curtis, que interpreta a irmã da protagonista, cria uma dinâmica interessante com Kidman. As duas funcionam melhor quando dividem cenas mais simples, focadas no conflito familiar.

A versão jovem da protagonista também funciona em alguns momentos. A interpretação consegue transmitir a ideia de uma personagem em formação, ainda lidando com o peso do trabalho forense. No entanto, o roteiro não oferece material suficiente para que essas atuações se desenvolvam. Muitos personagens ficam presos a arquétipos.

Conheça a série Scarpetta
Jamie Lee Curtis e Nicole Kidman no filme | Crédito: Connie Chornuk/Prime Video

Vale a pena assistir “Scarpetta”?

Scarpetta” é um exemplo claro de adaptação que não consegue transformar um material literário popular em uma série sólida. A produção tem elenco forte, uma personagem conhecida e uma premissa interessante. No entanto, a narrativa se perde entre duas linhas do tempo mal conectadas, subtramas pouco desenvolvidas e uma tentativa de modernização que não funciona.

A série levanta possibilidades interessantes, principalmente quando explora o impacto do passado na protagonista. Mas essas ideias raramente são aprofundadas.

No final, “Scarpetta” funciona mais como um drama policial genérico do que como uma adaptação relevante. Para fãs da personagem, a curiosidade pode ser suficiente para assistir. Para quem espera um thriller consistente, a série provavelmente decepciona.

Imagem de capa: Prime Video/Divulgação