Sinto que a única esperança é o doce alívio da morte.

Chegando na última sexta-feira (22), a série Sutura estreou na Prime Video, o serviço de streaming da Amazon. A série traz uma temática já conhecida pelo público, uma produção no universo da medicina, porém com a diferença de estar conectada ao mundo do crime. Vamos à nossa review e o que achamos de Sutura.

“Sutura” foi criado por Fábio Montanari e conta com a direção de Diego Martins ao lado de Jéssica Queiroz, além disso, a produção fica a cargo de Gustavo Mello e Zasha Robles. Segundo o diretor, as produções “This is Going To Hurt” (2022) e “How To Get Away With Murder” (2014-2020) o inspiraram com seu trabalho na série. A obra está completa com 08 episódios na Prime.

A série é estrelada por Cláudia Abreu, como Dra. Adriana Mancini, e Humberto Morais, como Ícaro Dias, onde ambos são atormentados por seus problemas pessoais e descobrem uma maneira inusitada de tentar resolvê-los. Sutura tenta ser uma mistura de “Grey’s Anatomy” e “Sob Pressão“, mas acaba entregando um enredo arrastado e com reviravoltas previsíveis. E ao decorrer desta review, vamos falar um pouco mais sobre isso.

Prontuário – A trama

Review | Sutura: O diagnóstico final é...
Imagem: Prime Video

Na trama de “Sutura” acompanha Ícaro Dias, um jovem talentoso, guiado por um intenso senso de justiça, que enfrenta o risco de ver seus sonhos desmoronarem. Paralelamente, vemos Adriana Mancini, uma brilhante cirurgiã, marcada por doses de cinismo, que tenta superar um trauma para voltar a operar. Suas vidas se cruzam em uma situação inesperada e perigosa, unindo-os em uma parceria médica surpreendente e poderosa.

Assim, logo no primeiro episódio, vemos como os dois acabam se envolvendo com o crime organizado, comandado por R.C. (Yara de Novaes). Ao salvar a vida dela, R.C. enxerga valor nos dois médicos e deseja que ambos se tornem seus funcionários, tocando uma clínica clandestina para tratar os associados dela. Entretanto, essa clínica está localizada no setor de necrotério do Hospital São Dimas, o local de trabalho de Ícaro e Mancini. Com isso, além de seus trabalhos normais, agora eles têm um trabalho secreto e ilegal, onde um passo em falso pode colocar todo esse esquema a perder.

Sendo assim, com essas informações em mente e com esses dois plots acontecendo, a série tenta criar o ar de “caso da semana”, seja no hospital e na clínica. Além disso, o roteiro tenta aprofundar nas relações dos dois personagens, em seus próprios núcleos e entre os dois, dando aquele ar de professor e aluno. Porém, ao dar foco nessa relação entre os personagens de Cláudia Abreu e Humberto Morais, a série acaba deixando de lado o restante do elenco.

E assim, por grande parte dos episódios, eles só servem para cumprir funções específicas e depois voltarem a ficar de canto. Ressalvas aos personagens de Elzio Vieira e Cláudia Missura, Fino e Bárbara, respectivamente, que sempre estão participando ativamente da trama, seja dentro ou fora da clínica clandestina. Mas, com essas duas exceções, o restante do elenco não tem o que fazer, até que o roteiro queira que eles façam algo. Dando a sensação de que o restante da série não os afeta ou não pode afetar, pelo bem maior da narrativa.

A equipe médica – Os personagens

Review | Sutura: O diagnóstico final é...
Imagem: Prime Video

Apesar série focar nos personagens de Cláudia Abreu e Humberto Morais, além de destacar os de Elzio Vieira e Cláudia Missura. Porém, como citado antes, o restante serve para cumprir funções específicas e quando não tem mais o que agregar, são facilmente deixados de lado até serem convocados novamente. “Sutura” tem um sério problema de desenvolver os outros personagens do hospital, muito do que descobrimos dali vem do que dá para pescar de alguns momentos. Mas, depender que o roteiro faça alguma coisa para trabalhar com os personagens é algo que não vamos ver, em quase nenhum dos 8 episódios.

Outro grande problema que a série tem em relação aos personagens, são os núcleos que se encontram. Nenhum deles interage com outro, tirando os protagonistas, e assim fica impressão que estamos assistindo 3 ou 4 séries diferentes ao mesmo tempo. Um exemplo disso, é a família do Ícaro que só interage com o núcleo do Hospital São Dimas porque o roteiro quis, sem isso, era capaz deles continuarem isolados da trama. Outro exemplo são os personagens de Leopoldo Pacheco e Gabriel Braga Nunes, interagem raramente com os residentes do hospital, interpretados por Juliana Paiva, Danilo Mesquita e Lara Tremouroux, a não ser em cenas relacionadas ao “paciente da semana”. Ou quando a trama precisa correr, mas, o roteiro não consegue fazer isso sozinho com os personagens que tem em tela.

Mas, o maior problema mesmo são os personagens de Naruna Costa e Lara Tremouroux, Dra. Paula e Dra. Maya, que quase não tem espaço na série. A personagem de Naruna parece que será alguém importante na trama, ela até entrega o que pode com o tempo que tem. Mas, isso não acontece e toda a expectativa criada e momentos que deixam essa ideia plantada, apenas são uma cortina de fumaça para os problemas que o roteiro tem e não tem capacidade de ajeitar.

Já no caso da personagem de Lara, bom, ela fica de canto por boa parte da trama, mesmo sendo a mais interessante dos residentes. Sendo assim, pouco se tem dela nos “pacientes da semana”, seu destaque ocorre apenas no episódio 4 e depois disso, volta a ser escanteada. Apesar disso, ela parece ser a única personagem que tenta estar, ativamente, envolvida com os demais núcleos do hospital. Mas, mesmo assim, a série resolve não dar o destaque que ela merece.

Mesmo com todos esses pontos apresentados, os personagens não são ruins, eles são apenas mal escritos. O roteiro prezou em dar mais destaque ao núcleo da clínica clandestina e com isso, acabou minando os possíveis potenciais de crescimento dos outros personagens. E assim, o que vemos em 8 episódios são personagens tão rasos que se resumem a breve traços de personalidades, que não diz muito sobre quem eles são ou o que podem ser.

Alta do paciente – “Sutura” vale a pena?

Review | Sutura: O diagnóstico final é...
Imagem: Prime Video

Bom, chegamos aqui, a alta do paciente e a conclusão sobre “Sutura”, um ponto que esqueci de mencionar, mas que julgo importante, transição temporal. Não parece que a série está tendo uma passagem de tempo, é surpreendente descobrir que do primeiro ao quinto episódio passou um período de quase 6 meses. A passagem de tempo não é perceptível, parece que se passaram apenas dias, no máximo uma ou duas semanas, mas na realidade foram meses. Faltou um certo cuidado em trabalhar melhor com isso, por tratar de uma série médica e o tempo ser algo essencial na hora de salvar um paciente.

Outro ponto que a série se recusa a explorar são os pacientes que não conseguem sobreviver aos procedimentos médicos. Mas, principalmente, a falta desse fator nos pacientes da clínica clandestina. A suspensão da descrença de que num hospital altamente equipado é possível perder pacientes, mas, numa clínica localizada no necrotério e com recursos médicos inferiores, não ocorre, é meio fora de contexto, até mesmo para a ficção. Mesmo que a série tente se basear nos talentos de Mancini e Ícaro, para impedir as mortes, existe um limite de até onde podem com recursos que estão limitados.

Por fim, “Sutura” se inicia mostrando que tem potencial, mas, que com um roteiro mal escrito e personagens perdidos na história, acaba definhando aos poucos. Apesar disso, entrega momentos tensos e impactantes em alguns episódios e, com isso, provando que, se receber uma segunda temporada, já sabem o que arrumar. Então, diria que sim, se você não tiver nada para assistir na plataforma, a série é uma boa pedida. Porém, não conseguiu me prender o bastante para possíveis continuações.