“The Beauty” mistura sátira sobre padrões de beleza, epidemia misteriosa e carnificina estilizada, mas a ambição narrativa raramente encontra profundidade

Ryan Murphy nunca foi um criador conhecido pela moderação. Ao longo de duas décadas, o produtor construiu uma carreira baseada em excesso, choque visual e narrativas que acumulam ideias em grande velocidade. “The Beauty“, nova série da FX, parece reunir todos esses elementos em um único projeto. O resultado é uma produção que mistura terror corporal, sátira social e investigação policial, mas que tropeça em toda essa ambição.

Adaptada da HQ de Jeremy Haun e Jason A. Hurley, a série parte de uma premissa provocativa: uma droga chamada “Beauty” promete transformar qualquer pessoa em um ideal de beleza física. O efeito colateral, porém, é fatal. Depois de um período de euforia e transformação estética, os usuários literalmente explodem.

Essa premissa conduz a narrativa ao longo de 11 episódios que raramente encontram equilíbrio entre provocação, espetáculo e reflexão.

Review - The Beauty
Cena da série | Crédito: Reprodução/IMDB

Uma abertura explosiva, literalmente

A série começa com uma sequência que resume bem o estilo de Murphy. Em um desfile de moda em Paris, uma modelo interpretada por Bella Hadid entra em colapso na passarela. O momento rapidamente se transforma em uma perseguição caótica pela cidade. O desfecho é ainda mais radical: diante da polícia, a modelo explode.

A cena funciona como um cartão de visitas da série. Ela mistura ação, absurdo e choque visual. Também sugere um thriller internacional de grande escala. Durante alguns minutos, parece que Murphy pode entregar uma narrativa coesa dentro desse universo exagerado. Mas a série raramente mantém esse nível de foco.

A investigação que move a trama

Após o incidente em Paris, dois agentes do FBI entram em cena. Cooper Madsen (Evan Peters) e Jordan Bennett (Rebecca Hall) investigam uma série de casos semelhantes ao redor do mundo. Pessoas consideradas extremamente atraentes estão morrendo da mesma maneira.

A investigação leva os agentes a diferentes cidades, incluindo Roma e Veneza, enquanto a epidemia se espalha. Aos poucos, a narrativa revela a existência da droga “Beauty”, responsável pela transformação física das vítimas. A substância foi criada por um bilionário da tecnologia, Byron Forst (Ashton Kutcher), que vê na droga uma oportunidade de negócio global. Quando a situação sai do controle, ele recorre a um assassino profissional, interpretado por Anthony Ramos, para eliminar qualquer ameaça ao projeto.

Essa trama mistura thriller corporativo, investigação policial e horror corporal. No papel, a combinação parece promissora. Na prática, porém, a série raramente conecta essas ideias de forma consistente.

Review - "The Beauty"
Jeremy Pope e Evan Peters | Crédito: IMDB/Reprodução

Entre sátira social e espetáculo grotesco

The Beauty” tenta discutir a obsessão contemporânea por juventude e aparência. A série faz referências à cultura de redes sociais, à indústria cosmética e até a medicamentos como Ozempic. A premissa também ecoa outras obras do gênero. A busca por beleza eterna já apareceu em narrativas como “O Retrato de Dorian Gray” e em diversos filmes de terror corporal.

Murphy parece interessado em atualizar essa discussão para o presente. O problema é que a série menciona esses temas sem realmente explorá-los. As críticas à indústria da beleza surgem de forma superficial. A narrativa aponta para questões sociais, mas raramente desenvolve uma análise mais profunda. Muitas ideias são apresentadas apenas como referências rápidas dentro do roteiro. O resultado é uma série cheia de conceitos, mas com pouca conexão entre eles.

Episódios que funcionam melhor fora da trama principal

Curiosamente, os melhores momentos de “The Beauty” aparecem quando a narrativa se afasta da trama central. Alguns episódios focam em personagens secundários. Um capítulo acompanha dois técnicos de laboratório. Outro se concentra em uma adolescente que lida com inseguranças e pressão social.

Essas histórias funcionam melhor porque oferecem personagens mais humanos e conflitos mais claros. Em vez de perseguições internacionais e conspirações corporativas, esses episódios exploram as consequências emocionais da obsessão por beleza. Nesses momentos, a série encontra algo próximo de empatia. Infelizmente, esses episódios também parecem desconectados do restante da narrativa.

The Beauty - review
John Carroll Lynch e Kelli O’Hara usam a droga para salvar a filha | Crédito: IMDB/Divulgação

Elenco comprometido em meio ao caos

Apesar das inconsistências do roteiro, o elenco ajuda a sustentar parte da experiência. Evan Peters assume o papel de protagonista com energia de filme de ação. Rebecca Hall oferece uma contraparte mais contida, ainda que sua personagem nem sempre tenha material suficiente para se desenvolver.

Anthony Ramos interpreta um assassino que repete padrões violentos ao longo da temporada. Jeremy Pope, que surge posteriormente na trama, entrega uma das atuações mais interessantes da série. Ashton Kutcher, por sua vez, interpreta o bilionário responsável pela droga. O personagem representa o arquétipo do empresário disposto a ignorar consequências humanas em nome do lucro.

O elenco ainda inclui participações de Isabella Rossellini e outros atores recorrentes do universo de Murphy. No entanto, muitos personagens acabam reduzidos a arquétipos.

Vale a pena assistir “The Beauty”?

The Beauty” é uma série que reúne muitos dos elementos característicos da obra de Ryan Murphy. Há excesso visual, personagens extravagantes e uma avalanche de ideias narrativas. O problema é que poucas dessas ideias são desenvolvidas com profundidade. A série levanta questões sobre beleza, consumo e identidade, mas raramente se compromete com uma análise consistente.

Ao mesmo tempo, a produção mantém ritmo e oferece momentos de entretenimento. As sequências de ação, os efeitos grotescos e o elenco comprometido garantem uma experiência que dificilmente passa despercebida. No fim, “The Beauty” funciona como um espetáculo caótico. A série tem energia e estilo, mas raramente encontra clareza narrativa.

Para fãs do universo de Ryan Murphy, isso pode ser suficiente. Para quem busca uma sátira mais incisiva sobre a obsessão contemporânea por beleza, a série provavelmente deixará lacunas.

Imagem de capa: Reprodução/IMDB