Novo longa ambientado no Brasil escravista utiliza o horror como linguagem política para investigar memória, opressão e colapso histórico

O longa-metragem “Ventre Aberto” teve sua produção anunciada como um drama de terror psicológico ambientado em uma das últimas fazendas escravistas do Brasil, em um período de colapso iminente do sistema escravista. A proposta parte de um momento histórico onde a escravidão não se sustenta economicamente ou moralmente. Entretanto, permanece operando por meio da violência e da manutenção forçada do poder.

Surpreendentemente, o projeto assume o horror como linguagem política. Dessa forma, se afasta do gênero como entretenimento puro para investigar a permanência das estruturas de opressão racial no país. Com direção de Gabriel Vinícius (Ela Toma Placebo) e roteiro de Lucas Maia, o filme foi pensado como uma obra autoral com vocação para o circuito de festivais, o debate público e a repercussão crítica. Isso sem abrir mão da viabilidade de produção e do diálogo com o público.

Sobre o filme

A narrativa acompanha a dinâmica de uma fazenda comandada por uma família branca, herdeira de um poder rural em decadência, enquanto pessoas escravizadas enfrentam uma rotina opressiva e com tensão crescente. Assim, à medida que o contexto histórico externo sinaliza mudanças irreversíveis, o espaço da fazenda se torna cada vez mais fechado. Assim ela se transforma em um ambiente de aprisionamento físico, psicológico e espiritual.

POSTER VENTRE ABERTO
Crédito: Divulgação

O horror se constrói de forma atmosférica e simbólica. Elementos sobrenaturais surgem de maneira sutil, nunca espetacular, como manifestações da memória coletiva e da violência histórica não elaborada. O medo nasce da consciência histórica e da persistência de estruturas que resistem ao próprio fim.

Inserido no campo do horror autoral contemporâneo, “Ventre Aberto” dialoga com obras que utilizam o gênero como ferramenta de crítica social. Entre as referências estéticas e conceituais estão produções marcadas por tensão psicológica, simbolismo e construção atmosférica, onde o sobrenatural funciona como extensão do trauma histórico.

A produção também destaca o compromisso com o rigor histórico. O desenvolvimento do projeto conta com pesquisa aprofundada sobre o Brasil do final do século XIX, realizada em colaboração com historiadores e com acompanhamento especializado para garantir precisão iconográfica e contextual. O objetivo é assegurar que o horror representado na tela seja consequência direta da realidade histórica que o inspira.

Com essa abordagem, “Ventre Aberto” se apresenta como um projeto que une cinema de gênero, memória histórica e reflexão social, propondo uma experiência sensorial e política que pretende reverberar para além das salas de exibição.

Crédito da capa: Divulgação / Adaptação