Gossip Harbor, Travel Town e Merge Mansion ajudam a explicar o crescimento dos jogos de combinação e seus anúncios cada vez mais dramáticos

Uma mulher chora em uma igreja após a aparente morte do companheiro. Pouco depois, ele reaparece e a situação muda completamente. Parece cena de novela, mas tudo isso já apareceu em uma propaganda de Merge Mansion. Anúncios dramáticos se tornaram comuns entre jogos para celular. Em alguns casos, a história mostrada chama muito mais atenção do que a própria mecânica encontrada depois do download.

Por trás dessas propagandas estão os jogos merge, que transformam uma ideia simples, combinar objetos iguais, em histórias, reformas, pedidos e eventos que mantêm o jogador avançando.

Mas afinal, o que são jogos merge?

A palavra merge significa combinar ou fundir. Nesse tipo de jogo, a principal mecânica consiste em juntar dois objetos iguais para criar um item de nível superior.

Em Travel Town, por exemplo, dois itens do mesmo tipo podem ser combinados para liberar versões melhores. Os objetos são usados para completar pedidos e avançar pela cidade.

O jogo já ultrapassou 10 milhões de downloads no Google Play. A página oficial também informa que existem mais de 500 objetos que podem ser descobertos ao longo da progressão.

A ideia também aparece em Gossip Harbor. No lugar de ferramentas ou materiais de construção, o jogador combina principalmente alimentos para preparar os pedidos dos clientes.

Enquanto isso, acompanha a história de Quinn Castillo, que tenta reconstruir o próprio restaurante enquanto enfrenta um divórcio, sabotagens e outros mistérios. O jogo já acumula mais de 50 milhões de downloads no Google Play.

Já em Merge Mansion, o jogador combina objetos para completar tarefas e ajudar Maddie a reformar a propriedade da família. Conforme avança, também descobre novos segredos envolvendo a Vovó Úrsula.

Apesar das diferenças, a fórmula costuma ser parecida: combinar objetos, cumprir tarefas e liberar novos capítulos, áreas ou itens.

Dos objetos combinados ao sucesso

A mecânica pode ser simples, mas os jogos merge conquistaram uma fatia cada vez maior do mercado de puzzles para celular. Segundo relatório da AppMagic, o gênero representava 14% da receita dos jogos de puzzle em 2024 e passou para 20% em 2025. Entre os títulos do segmento Merge-2, Gossip Harbor foi o principal destaque.

O jogo gerou cerca de US$ 550 milhões em 2025, valor equivalente a aproximadamente 33% da receita estimada desse segmento. Travel Town e Seaside Escape também aparecem entre os principais títulos analisados.

Merge Mansion também ajuda a mostrar o tamanho desse mercado. Segundo a desenvolvedora Metacore, o jogo ultrapassou 65 milhões de downloads e US$ 800 milhões em receita acumulada desde o lançamento.

O desempenho também chamou a atenção da Supercell, responsável por títulos como Clash of Clans e Hay Day. Em agosto de 2026, a empresa anunciou que havia assinado um acordo para que Merge Mansion passasse a integrar seu catálogo de jogos ativos após a conclusão da operação.

O que mantém o jogo em movimento?

Parte da proposta está na simplicidade. É fácil entender que dois objetos iguais criam outro melhor, mas chegar exatamente ao item necessário pode exigir várias combinações.

Os jogos também costumam apresentar novos pedidos, eventos, personagens e capítulos da história. Sistemas de energia limitam quanto é possível avançar de uma vez, enquanto compras dentro do aplicativo oferecem recursos adicionais.

Outro recurso comum são os chamados LiveOps, eventos e conteúdos adicionados regularmente. Segundo a AppMagic, ofertas relacionadas a essas atividades estão entre as principais formas de monetização dos maiores jogos merge.

Assim, sempre existe alguma coisa esperando pela próxima partida: um pedido incompleto, um objeto que falta ou um novo pedaço da história para descobrir.

E aquelas propagandas?

Travel Town. Crédito: Reprodução/Divulgação

Se o jogo é baseado em combinar objetos, por que tantos anúncios apostam em casamentos, traições, segredos de família e outras situações dramáticas?

Essa diferença também chamou a atenção de pesquisadores. Um estudo publicado em 2026 analisou 100 anúncios jogáveis de 64 jogos para celular e encontrou forte presença de gêneros casuais, incluindo merge, match-3, puzzles e simuladores.

O próprio Merge Mansion aparece na pesquisa. Em um dos anúncios analisados, uma mulher surge chorando em uma igreja após a aparente morte do companheiro, que depois reaparece e a ameaça. Só depois dessa sequência a propaganda começa a mostrar a mecânica de combinar objetos. Segundo os pesquisadores, cenas desse tipo ajudam a criar a impressão de uma narrativa mais ampla e podem despertar a curiosidade de quem assiste.

Quando o anúncio parece outro jogo

A diferença entre propaganda e gameplay não acontece apenas nos jogos merge. A pesquisadora Kati Alha, da Universidade de Tampere, analisou 60 anúncios de 12 jogos para celular publicados no Facebook e comparou as propagandas com a experiência oferecida pelos títulos.

O estudo identificou problemas envolvendo jogabilidade, narrativa e elementos audiovisuais apresentados nos anúncios. Também foram encontrados casos em que informações importantes, como a existência de compras dentro do aplicativo, não apareciam na publicidade.

Isso não significa que toda propaganda de jogo merge seja enganosa. Em alguns casos, os anúncios apenas usam cenas e histórias mais dramáticas para chamar atenção.

Mas a diferença ajuda a explicar aquela sensação conhecida de baixar um jogo depois de assistir à propaganda e descobrir que a experiência encontrada no aplicativo é bem diferente.

Do drama ao tabuleiro

Seja reconstruindo uma cidade, administrando um restaurante ou descobrindo os segredos de uma mansão, os jogos merge encontraram diferentes maneiras de transformar a mesma mecânica em histórias para acompanhar.

No fim, a proposta continua simples: combinar dois objetos iguais e descobrir o que aparece depois. Antes de chegar ao tabuleiro, porém, o jogador pode passar por casamentos fracassados, segredos de família e uma boa dose de drama.

Crédito de capa: Reprodução/Divulgação

Estagiária sob supervisão de Julia Gabriela e Mario Guedes.