De post anônimo no 4chan ao cinema da A24: a trajetória do terror liminar que virou fenômeno global

O terror sempre encontrou terreno fértil na internet, mas poucos conceitos conseguiram provocar tanto desconforto coletivo quanto as Backrooms. O que começou como uma imagem postada de forma anônima se transformou em um dos mitos digitais mais perturbadores do século XXI, misturando espaços liminares, isolamento extremo e a sensação de estar preso em um lugar que parece existir fora da realidade. Assim como as histórias de Sete Além, o fenômeno de terror nasceu na internet, e compartilha a mesma sensação de deslocamento da realidade.

A origem: um post anônimo que abriu a porta errada

As Backrooms surgiram em 2019, a partir de um post anônimo no fórum 4chan. A imagem mostrava um ambiente banal com salas comerciais vazias, carpete amarelado, paredes bege e iluminação fluorescente incessante. O texto que acompanhava a imagem sugeria que, ao “falhar” na realidade, algo semelhante a atravessar um erro de videogame, a pessoa poderia acabar presa nesse espaço infinito.

A ideia explorava um medo muito específico: o desconforto causado por lugares comuns abandonados, conhecidos como espaços liminares. Nada de castelos, monstros explícitos ou distorções. O terror vinha da repetição, do silêncio e da ausência de saída.

De creepypasta a universo colaborativo

O que começou como um simples relato acompanhado de uma imagem desconfortável rapidamente se espalhou pela internet como creepypasta. Fóruns, wikis e comunidades passaram a discutir a ideia, acrescentando detalhes, teorias e relatos fictícios de sobreviventes. A lógica era simples e poderosa: qualquer pessoa podia contribuir. Assim, as Backrooms deixaram de ser apenas um conceito isolado e passaram a crescer de forma orgânica, alimentadas pela criatividade coletiva.

Usuários começaram a estabelecer “regras” para esse espaço extradimensional, como entrar, como sobreviver, o que evitar. Surgiram descrições de criaturas, facções humanas que supostamente habitariam certos andares e até registros simulados em formato de relatórios técnicos. Essa construção colaborativa transformou o cenário em algo maior do que uma história de terror. Nasce uma mitologia digital em constante expansão.

Foi nesse processo que nasceu a ideia dos níveis. As Backrooms passaram a ser vistas não como um único corredor infinito, mas como uma estrutura colossal dividida em camadas, cada uma com identidade própria.

Os níveis das Backrooms: quanto mais fundo, pior

O Nível 0 é o mais conhecido com corredores infinitos, salas vazias, carpete úmido e o zumbido constante das lâmpadas fluorescentes. Não há janelas, portas confiáveis ou referências temporais. A solidão é absoluta.

À medida que os níveis avançam, o ambiente se torna mais hostil. Existem andares que simulam escritórios, estacionamentos, hotéis, hospitais e até cidades abandonadas. Alguns níveis contêm entidades agressivas, outros são tão silenciosos que a própria ausência de estímulo se torna uma forma de tortura psicológica. Cada andar possui perigos específicos e probabilidades mínimas de sobrevivência, reforçando a sensação de que, quanto mais fundo se vai, menos a realidade faz sentido.

Há também níveis considerados “seguros”, onde pequenos grupos humanos supostamente sobreviveram, embora a própria existência deles seja constantemente questionada dentro da mitologia.

Entidades: quando o vazio começa a observar

As entidades das Backrooms são centrais para o terror desse universo, mas o que realmente as torna assustadoras é a ausência de explicações definitivas. Diferente de monstros tradicionais, elas não possuem origem clara nem regras totalmente estabelecidas. Muitas vezes são descritas apenas como sombras no fim de um corredor, ruídos que ecoam em salas vazias ou silhuetas que desaparecem quando alguém tenta focar o olhar. Essa indefinição alimenta a tensão constante já que o perigo pode estar presente mesmo quando não é visto.

Dentro da mitologia criada pela comunidade, algumas entidades ganharam características mais específicas. Há relatos de figuras humanoides distorcidas, criaturas que imitam vozes humanas para atrair vítimas e seres que parecem reagir ao medo. Os chamados “Smilers”, por exemplo, são identificados apenas por olhos e sorrisos brilhando na escuridão. Cada nível pode abrigar tipos diferentes de ameaças, com comportamentos que variam entre agressividade direta e perseguição silenciosa.

backrooms capa
Crédito: Reprodução

Mais inquietante ainda é a ideia de que essas entidades não são apenas invasores, mas extensões do próprio ambiente. Em muitos relatos, elas parecem fazer parte da estrutura das Backrooms, como se o espaço estivesse vivo ou consciente. Isso transforma o labirinto em algo mais do que cenário, ele se torna um organismo hostil. Assim, o medo não depende apenas do ataque, mas da sensação permanente de estar sendo observado em um lugar que nunca termina.

Essa indefinição faz parte do horror. O medo não está apenas no ataque, mas na dúvida constante. Existe algo ali ou é só paranoia?

Kane Parsons e a explosão audiovisual

O salto definitivo das Backrooms para o mainstream aconteceu quando o jovem cineasta Kane Parsons, conhecido como Kane Pixels, levou o conceito para o YouTube em formato de found footage. Seus vídeos simulam registros antigos, falhas de fita e câmeras tremidas, reforçando a sensação de realismo.

A série acumulou quase 100 milhões de visualizações, transformando o mito digital em um fenômeno audiovisual. Parsons não apenas adaptou a ideia, ele deu forma, ritmo e narrativa ao terror liminar.

Do YouTube para o cinema

O impacto foi tão grande que as Backrooms chamaram a atenção de grandes estúdios. O projeto ganhou uma adaptação cinematográfica pela A24, com produção de James Wan, consolidando a transição do mito da internet para o cinema de prestígio. O longa tem previsão de estreia nos cinemas em 29 de maio de 2026.

De acordo com o trailer, um homem declara ter encontrado “um lugar enorme… que nunca acaba”, um espaço que parece se lembrar dos próprios cômodos. A sinopse adianta apenas que “uma porta estranha aparece no porão de uma loja de móveis”, dando início ao mergulho nesse labirinto infinito. Parsons, que ficou conhecido pela série em estilo found footage que soma quase 100 milhões de visualizações, dirige a adaptação. O elenco reúne Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Mark Duplass, Finn Bennett, Lukita Maxwell e Avan Jogia.

O projeto une forças entre A24, Atomic Monster, Chernin Entertainment e 21 Laps Entertainment, com roteiro de Will Soodik e Roberto Patino. Além disso, Wan produz ao lado de Michael Clear, reforçando a aposta em um terror atmosférico e psicológico.

Mesmo com a expansão para outras mídias, o mistério permanece como essência do conceito. A narrativa evita explicações definitivas, mantendo o terror ancorado no desconhecido.

Por que as Backrooms funcionam tão bem?

O sucesso das Backrooms está na simplicidade perturbadora. Elas exploram medos modernos como solidão, repetição, ambientes corporativos desumanizados e a sensação de estar preso em um sistema que não oferece saída.

Mais do que um cenário de terror, as Backrooms funcionam como uma metáfora do esgotamento psicológico contemporâneo, um lugar onde tudo parece familiar, mas absolutamente errado. E talvez seja justamente por isso que, uma vez que você entra… não consegue mais sair.

Por fim, se as Backrooms são apenas histórias de terror, fruto de imaginação coletiva, histeria digital ou até relatos reais disfarçados em forma de ficção na internet, talvez essa nem seja a pergunta mais importante. O que realmente importa é o efeito que elas provocam. O desconforto é genuíno. A sensação de déjà-vu ao olhar para um corredor vazio é real. O arrepio ao imaginar um espaço que nunca termina também. E talvez seja exatamente aí que o mito se sustenta. Entre o real e o imaginário, entre o fórum anônimo e o cinema, as Backrooms continuam existindo no mesmo lugar onde todo grande terror vive: na dúvida.

Crédito da capa: Imagem criada por IA