Entre arquitetura e mistério, o Castelinho da Rua Apa, no Centro da capital paulista, ainda alimenta teorias e disputas judiciais mais de 90 anos após a tragédia
Quem vive na capital paulista certamente já ouviu falar do Castelinho da Rua Apa. O imóvel ocupa a esquina da Rua Apa com a Avenida São João, ao lado do Minhocão. Construído em 1912, ele se destaca pela arquitetura com referências medievais. No entanto, mais do que um marco urbanístico no Centro de São Paulo, o casarão ficou conhecido pelo triplo homicídio que abalou a elite paulistana em 1937.
Até aquele ano, o imóvel era residência da influente família Dos Reis. Virgilio Guimarães dos Reis e Maria Cândida Guimarães dos Reis viviam ali com os filhos, Armando César dos Reis e Álvaro dos Reis. Donos do Cine Broadway, na Avenida São João, um dos polos culturais da cidade na época, eram nomes conhecidos na alta sociedade. Maria Cândida, aos 73 anos, mantinha forte atuação religiosa após a morte do marido. Já os filhos, ambos formados em Direito, tinham perfis opostos: Álvaro era expansivo, esportista e recordista mundial de patinação; Armando, discreto e responsável pelas finanças da família.
A noite de maio de 1937 e a versão oficial
Segundo os registros policiais, em maio de 1937 uma discussão entre os irmãos teria escalado após divergências sobre o futuro do Cine Broadway. Álvaro desejava fechar o cinema para instalar um rinque de patinação; Armando se opunha, alegando riscos financeiros. Na madrugada do crime, os dois teriam sacado armas durante o confronto. A mãe, ao tentar intervir, foi atingida.

A versão oficial concluiu que Álvaro matou a mãe e o irmão e, em seguida, tirou a própria vida com um tiro no peito. A arma encontrada na cena reforçou essa narrativa. O caso foi encerrado como homicídio seguido de suicídio. Contudo, desde então, surgiram inconsistências que colocaram a investigação sob suspeita.
Laudos, contradições e novas hipóteses
O laudo do Instituto Médico Legal indicou vestígios de pólvora na mão de Armando, o que levantou dúvidas sobre quem teria disparado. Além disso, médicos apontaram que Maria Cândida teria sido atingida por quatro tiros, e não três como constava no relatório policial. Duas balas tinham calibre diferente da pistola atribuída a Álvaro, o que sugere a possível presença de uma quarta pessoa.
Outra linha de investigação menciona dificuldades financeiras ocultas. Documentos que um dos irmãos assinou indicam dívidas significativas, mas ninguém identificou formalmente os supostos credores. Assim, surgiu a hipótese de crime encomendado. A controvérsia foi aprofundada pela obra “O Crime do Castelinho: Mitos e Verdades” (2015), da pesquisadora Leda Kiehl, sobrinha-neta de Maria Cândida, que questiona pontos centrais da conclusão policial.
É importante destacar que o crime ocorreu poucos meses antes da instauração do Estado Novo. Embora não haja provas de interferência política, historiadores observam que o contexto institucional da época pode ter influenciado a condução rápida do inquérito.
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Do abandono à restauração
Após a tragédia e a ausência de herdeiros diretos, o imóvel passou ao patrimônio da União e, posteriormente, enfrentou décadas de abandono e disputas judiciais. A deterioração física contribuiu para o surgimento de lendas urbanas. Moradores da região relatam ouvir passos, choros e ruídos inexplicáveis no interior do casarão, narrativas que ajudaram a consolidar sua fama de lugar assombrado.
Entre 2015 e 2017, houve uma reforma no Castelinho e a ONG Clube das Mães do Brasil assumiu a administração do espaço. Hoje, o local abriga atividades culturais e sociais, além de integrar roteiros históricos da cidade. Mesmo assim, o mistério permanece como parte inseparável de sua identidade.
Portanto, o Castelinho da Rua Apa ultrapassa a condição de construção histórica. Ele simboliza um dos casos criminais mais controversos de São Paulo, onde versões conflitantes continuam a dividir especialistas e curiosos. Tragédia familiar, crime premeditado ou chacina com participação externa? Quase nove décadas depois, a pergunta segue sem resposta definitiva.
Imagem de capa: Flickr/Wikimedia Commons
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