Aclamado no exterior e forte no streaming, o terror brasileiro enfrenta a escassez de espaço e visibilidade nas salas de cinema
Apesar de viver uma de suas fases de maior efervescência criativa, o cinema de horror brasileiro ainda não consegue converter o bom momento em público pagante nas salas de exibição. Acometidas pela falta de verba publicitária e sufocadas pelo monopólio de grandes lançamentos hollywoodianos, as produções nacionais têm encontrado saída nos festivais especializados e em plataformas de streaming.
Devido à falha na Cota de Tela e à dependência de editais de fomento, os filmes de terror não conseguem garantir horários competitivos e a sustentabilidade financeira. Das dezenas de longas-metragens de terror produzidos nos últimos anos no país, menos de um terço conseguiu alcançar o circuito comercial e, os que chegaram, permaneceram em cartaz por apenas uma a duas semanas.
Do sucesso nos festivais às salas vazias
Apesar da tradição inaugurada por José Mojica Marins, o Zé do Caixão, e do recente destaque de títulos como As Boas Maneiras (2018), O Animal Cordial (2018), Morto Não Fala (2019), A Sombra do Pai (2019) e Enterre Seus Mortos (2025), o terror brasileiro esbarra na dinâmica do circuito comercial. A maioria das produções que chegam às telas recebe uma distribuição restrita a poucas salas por estado, alocadas em horários de baixo público, como o início da tarde ou o fim da noite.
Sem dinheiro para fazer propaganda antes do lançamento, os filmes dependem apenas do famoso boca a boca. O problema é que, ficando em cartaz por pouco tempo, essas produções saem de cartaz antes mesmo que o público descubra sua existência. Esse cenário é agravado pela ocupação massiva dos multiplexes por franquias internacionais como Invocação do Mal e A Freira. Esses filmes chegam a dominar até 80% das salas de um mesmo complexo, deixando pouco espaço para títulos independentes.
“Existe uma barreira cultural grande no Brasil. Durante muito tempo, o público foi acostumado a consumir apenas o terror americano e criou uma ideia equivocada de que o terror falado em português ‘não funciona’. Além disso, quando o filme brasileiro finalmente chega ao cinema, ele recebe pouquíssimas salas e é exibido em horários péssimos. Se o filme não lota a sala logo nos primeiros três dias, o exibidor o retira de cartaz na semana seguinte”.
Dennison Ramalho, diretor e roteirista em entrevista ao Canal Brasil


O caminho alternativo: festivais e streaming
Diante das portas fechadas do circuito comercial tradicional, o terror brasileiro tem encontrado refúgio em festivais especializados e plataformas de streaming. O prestígio do horror nacional é construído em vitrines de renome global, como o Sitges Film Festival (Espanha), o Fantasia International Film Festival (Canadá) e o Festival Internacional de Cinema de Roterdã (Holanda).
No cenário interno, o gênero ganha força em eventos voltados à celebração do fantástico, a exemplo do Cinefantasy, do Fantaspoa e do Festival Boitatá. Embora esse circuito garanta relevância crítica e premiações, ele acaba por atingir uma parcela restrita de espectadores.
Para compensar a falta de espaço nos cinemas, o streaming (como Netflix, Globoplay e Prime Video) virou a principal vitrine do terror brasileiro. A vantagem é o acesso fácil em casa, mas o público perde a experiência de assistir aos filmes na tela grande do cinema.
O que os números revelam
Segundo dados da ANCINE, o Brasil conta atualmente com 3.544 salas de cinema ativas. No entanto, a grande maioria dos lançamentos independentes e de gênero chega a menos de 50 salas, muitas vezes concentradas em poucas capitais, cobrindo menos de 1,5% do parque exibidor nacional. Em contrapartida, grandes franquias internacionais de terror (como Invocação do Mal (2013), A Freira (2018) ou títulos da Blumhouse) estreiam simultaneamente em 800 a 1.200 salas, ocupando de 25% a 35% de toda a rede exibidora do país.
De acordo com a Comscore Movies, enquanto os filmes de terror nacionais de pequeno e médio porte permanecem em cartaz por apenas uma a duas semanas (de 7 a 14 dias), o abismo comercial se reflete nos números: embora o cinema brasileiro em geral represente cerca de 9,9% do público total, a fatia correspondente aos filmes de gênero (terror e suspense) fica abaixo de 0,5% nas bilheterias. Como consequência, menos de 30% das produções nacionais de terror concluídas conseguem estrear comercialmente nas telonas; cerca de 70% migram diretamente para festivais, plataformas de streaming ou serviços de VOD.
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Os próximos passos
O cinema de terror no Brasil não fica devendo nada em talento, boas ideias ou qualidade. Pelo contrário: os diretores brasileiros sabem bem como usar o medo para falar sobre os problemas e a realidade do nosso país. Para que o horror nacional finalmente estoure nas bilheterias, a conta precisa fechar entre produção, divulgação e distribuição. Enquanto as redes comerciais fecharem as portas para o gênero, os filmes mais elogiados do Brasil continuarão confinados ao streaming ou restritos a festivais.
Imagem de capa: IMDb | Modificada por IA
Estagiário sob supervisão de Anna Flávia Lopes
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