Em entrevista, J. P. L. Carmo fala sobre literatura, fantasia sombria e os bastidores de “Peripécia entre dois mundos: Lapsos Oclusos

Nascido em 1998, em Belo Horizonte, Minas Gerais, J. P. L. Carmo construiu uma trajetória que transita entre a educação, a música e a literatura. Professor por formação, compositor e poeta por essência, guitarrista nas horas vagas, ele encontrou nos contos ainda na infância o primeiro território de expressão. Esse interesse se aprofundou quando passou a se dedicar aos versos, consolidando uma identidade artística marcada pela intensidade e pela reflexão.

Além disso, foi catedrático de xadrez na Biblioteca Comunitária Machado de Assis e, após um período de reinvenção pessoal e criativa, ressurgiu com textos de natureza quimérica e pragmática que despertaram o interesse de educadores, levando-o a participar de seminários em escolas públicas e privadas. Essa vivência múltipla, entre lógica, arte e formação humana, reverbera diretamente em sua escrita.

Em suas escritas, destacam-se a profundidade psicológica e a construção de personagens complexos, capazes de conduzir o leitor a universos sombrios e instigantes. Medo, obsessão, conflitos morais e o embate entre bem e mal são temas recorrentes, explorados com tensão e sensibilidade. Dessa forma, J. P. L. Carmo transita entre a fantasia e o mundo material, criando tramas envolventes, cheias de suspense e reviravoltas, que desafiam certezas e provocam reflexão.

Sobre o livro

Peripécias entre dois mundos - Lapsos Oclusos
Crédito: Divulgação

Em “Peripécia entre dois mundos: Lapsos Oclusos”, essa proposta atinge uma dimensão ainda mais ambiciosa. O universo descrito ganha cor e densidade própria, habitado por criaturas míticas, sizígias e entidades que ampliam a atmosfera quimérica da narrativa. É nesse cenário que Sânzio Azrael se vê corrompido ao ingressar no aclamado Ginásio IV Elementar, dando início a uma jornada marcada por escolhas e consequências.

Agnes D’Arc surge como figura determinante ao propor ao protagonista uma missão cuja resolução dependerá, em última instância, da interpretação do próprio leitor. Entre boatos propagados por Sizígia e emoções que conduzem o desfecho, a narrativa revela imagens poderosas, como a serpente atemorizante envolta em chamas, evocando o folclore indígena, além de outras figuras emblemáticas que tensionam a fronteira entre mito e realidade.

Paisagens em terras ermas, a Necrópole e a chamada Cidade do Pecado compõem o cenário onde habitam os Clamoris, criaturas que devoram humanos e são julgadas como vilãs. Contudo, a obra questiona: trata-se de maldade inerente ou de um ponto de vista? Ao sugerir que esses seres têm consciência de quem toca o livro, o autor estabelece um pacto inquietante com o leitor, um convite à cautela e, ao mesmo tempo, à imersão em uma fantasia densa, simbólica e provocadora.

Antes de tudo, nos conte um pouco sobre você.

JPL Carmo: Falar sobre mim é, de certa forma, falar sobre a minha essência na escrita. Sou movido pela curiosidade que não aceita respostas prontas. Sempre fui fascinado pelo desconhecido, pelo que está além da superfície e no profundo da mente. Nunca me encaixei totalmente no “comum”, e talvez seja justamente essa sensação de deslocamento que tenha alimentado a minha criatividade.

Gosto de pensar que tenho algo de “cientista da imaginação”: observo o mundo, desmonto ideias, questiono padrões, reconstruo tudo à minha maneira. A escrita se tornou meu laboratório. É onde posso explorar universos, emoções e conflitos que não cabem na realidade cotidiana.
Talvez, um epistemólogo da narrativa intuitiva?

 O que te fez seguir a carreira de escritor?

JPL Carmo: Curiosamente, minha relação com a escrita começou como um desafio. Durante a infância, enfrentei dificuldades significativas na leitura e na escrita, consolidando esse processo apenas por volta dos 12 anos. O que poderia ter sido um limite acabou se tornando o ponto de virada.

Quando finalmente compreendi as palavras, senti como se tivesse descoberto algo além da realidade. A partir daí, escrever deixou de ser obrigação e passou a ser libertação. Foi um processo quase sublime: transformar aquilo que antes era dificuldade em ferramenta de expressão. Desde então, nunca mais parei.

JPL Carmo autor de Peripécias entre dois mundos
JPL Carmo autor de Peripécias entre dois mundos. Crédito: JPL Carmo

Sobre o que é o livro “Peripécias entre dois Mundos”? De onde veio essa inspiração? Foi algo pensado desde o início ou nasceu naturalmente durante a escrita?

JPL Carmo: Peripécias entre Dois Mundos é mais do que uma história qualquer; é um universo próprio, com leis, fundamentos e estruturas internas cuidadosamente escrita com a tecelagem necessária. Trata-se de uma narrativa que atravessa realidades.

A inspiração veio de múltiplas fontes: experiências pessoais, eventos marcantes da minha trajetória/referências culturais. No entanto, apesar dessas influências, a narrativa nasceu de forma orgânica. Ela foi fluindo.

Claro que houve muito trabalho estrutural. Para dar verossimilhança ao universo criado, precisei estudar aspectos culturais, sociais e simbólicos. A espontaneidade da criação precisou ser equilibrada com organização, pesquisa e técnica. Foi um processo de lapidação constante. Obs: eu quase desistir (risos).

Como foi o processo de escolha dos locais onde a história ocorre e como é o processo de criação dos personagens?

JPL Carmo: Os cenários surgiram de forma intuitiva. Eles não foram apenas escolhidos, foram sentidos e têm personalidade própria.

Quanto aos personagens, no início, me inspirei em pessoas do meu convívio, observando traços comportamentais, emoções e conflitos reais. Porém, à medida que a história avançava, eles ganharam autonomia. Deixaram de ser apenas inspirações e passaram a agir por conta própria dentro do universo narrativo. Esse é um dos momentos mais fascinantes da escrita: quando o autor deixa de controlar tudo e começa a acompanhar o desenvolvimento natural das suas criações.

Quais foram as maiores dificuldades para criar a obra?

JPL Carmo: Sem dúvida, os detalhes. Criar um universo exige coerência e dedicação. Voltei inúmeras vezes ao texto para ajustar conexões, reorganizar acontecimentos e alinhar o enredo (era igual a montar um grande quebra-cabeça).

Passei mais tempo estruturando, revisando e uniformizando a narrativa do que propriamente escrevendo os primeiros rascunhos. A preocupação não era apenas contar uma boa história, mas garantir que cada elemento tivesse propósito e encaixe. Foi um processo minucioso.

Depois de “Peripécias entre dois Mundos” podemos esperar uma continuação, um universo compartilhado ou um novo projeto vem por aí?

JPL Carmo: Sim. Peripécias entre Dois Mundos é, na verdade, o início de uma saga composta por três livros centrais, além de uma obra derivada (spin-off) que expandirá ainda mais esse universo.

A proposta é aprofundar conflitos, explorar novas perspectivas e revelar camadas que ainda estão ocultas.

O que você diria para quem está começando a escrever?

JPL Carmo: Seja intuitivo. Permita que a escrita flua antes de tentar enquadrá-la em padrões. A técnica é importante, mas a identidade do escritor vem primeiro.

Não tenha medo de ser diferente. A literatura precisa de vozes autênticas. Busque sua própria marca, sua estética, seu modo único de enxergar o mundo. E, acima de tudo, não desista. Se a escrita pulsa em você, ela encontrará caminhos; assim como encontrou em mim.


O primeiro livro da saga “Peripécias entre Dois Mundos” está disponível para compras no site da Opera Editorial.

Crédito da capa: JPL Carmo / Adaptação