Dirigido por Paul Feig, “A Empregada” subverte expectativas, aposta em múltiplas reviravoltas e se apoia em atuações afiadas para construir um entretenimento desconfortável
Lançado como um suspense psicológico de apelo popular, “A Empregada” se apresenta, à primeira vista, como mais uma história sobre desigualdade social e relações de poder dentro de uma casa rica. No entanto, o filme rapidamente deixa claro que seu interesse está menos em seguir fórmulas e mais em desmontá-las. Dirigido por Paul Feig (Caça~Fantasmas), o longa se ancora no gênero do thriller doméstico para oferecer uma narrativa exagerada e cheia de curvas.
Baseado no livro de Freida McFadden e roteirizado por Rebecca Sonnenshine, o filme acompanha Millie Calloway (Sydney Sweeney), uma jovem que tenta reconstruir a vida após sair da prisão. Sem recursos, vivendo no carro e escondendo um passado traumático, ela aceita um emprego como empregada doméstica na mansão de Nina Winchester (Amanda Seyfried) e de seu marido, Andrew (Brandon Sklenar). O que parece uma oportunidade de recomeço rapidamente se transforma em um campo minado emocional.

Um suspense que brinca com expectativas e vira o jogo o tempo todo
Desde os primeiros minutos, “A Empregada” dialoga diretamente com o suspense psicológico: a casa isolada, a patroa aparentemente instável, o marido compreensivo demais e uma funcionária que observa tudo em silêncio. A diferença é que o filme não se contenta com esse ponto de partida. Ao contrário do clichê em que a funcionária é a ameaça, o roteiro inverte expectativas e, depois, volta a invertê-las repetidas vezes. É um jogo constante de manipulação com o espectador, e isso funciona a favor da experiência.
O grande trunfo do roteiro está justamente na estrutura de múltiplos plots. Nada é exatamente o que parece, e cada personagem carrega segredos que reposicionam o tabuleiro narrativo. As revelações não surgem apenas como choques pontuais, mas como engrenagens que alteram o peso moral de cada ação. Em vários momentos, o filme desafia o público a decidir para quem torcer, e logo em seguida desmonta essa escolha. Essa instabilidade é parte essencial do prazer que o longa oferece.
Paul Feig demonstra segurança ao transitar entre o suspense e o humor ácido. Embora “A Empregada” não seja uma comédia, há situações tão extremas que provocam riso nervoso. O diretor entende o exagero como ferramenta estética e narrativa.

Atuações afinadas elevam o suspense e dão corpo às reviravoltas
As atuações sustentam o jogo arriscado. Amanda Seyfried rouba a cena ao compor uma Nina que oscila entre charme, histeria e ameaça. Sua interpretação é exagerada de propósito, quase caricatural, mas nunca gratuita. Pelo contrário: Seyfried entende o tom do filme e se entrega sem pudor, tornando sua personagem imprevisível e hipnotizante. É uma atuação que exige coragem e timing, e ela acerta em cheio.
Sydney Sweeney, por sua vez, constrói Millie com uma contenção inicial que se revela estratégica. Seu olhar atento, o corpo sempre em alerta e a obediência forçada comunicam muito antes que o roteiro explicite seu passado. À medida que a trama avança, Sweeney amplia o registro emocional da personagem sem perder coerência, transformando Millie em um centro moral instável, mas fascinante. O embate entre as duas atrizes é o motor do filme.
Brandon Sklenar tem um papel mais ambíguo e complexo, funcionando como peça-chave nas tensões sexuais e psicológicas da narrativa. Já Michele Morrone, como o jardineiro Enzo, surge como uma figura enigmática e visualmente marcante, mas ainda pouco explorada. Seu personagem parece existir mais como promessa do que como presença dramática plena, algo que, segundo indica a continuação já anunciada, deve ganhar mais espaço no segundo filme.

Estilo, excesso e a força do suspense como espetáculo
Visualmente, a mansão dos Winchester funciona quase como um personagem: fria, imponente e opressiva. A trilha sonora reforça o tom irônico e cria contrastes que intensificam o desconforto. O resultado é um filme que exagera conscientemente, flerta com o absurdo e não pede desculpas por isso.
No fim das contas, “A Empregada” convence menos pela verossimilhança e mais pela ousadia narrativa. É um thriller que entende o prazer do excesso, que brinca com o gênero e confia no público para embarcar em uma montanha-russa de manipulações. Pode não agradar a quem busca sutileza, mas entrega exatamente o que promete: tensão, reviravoltas e performances comprometidas.
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Vale a pena assistir “A Empregada”
Sim, vale. Especialmente para quem aprecia suspenses psicológicos que desafiam expectativas e se permitem exagerar. Com roteiro cheio de viradas, atuações fortes, em especial de Amanda Seyfried e Sydney Sweeney, e uma direção que sabe explorar o desconforto como entretenimento, “A Empregada” se firma como um prazer culpado marcante e surpreendentemente envolvente.
Imagem de capa: Daniel McFadden/Lionsgate
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